quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Espiritualidade de Jesus



Vinícius Lousada[1]

           
 Há mais de dois mil anos um jovem partiu da bucólica Nazaré para apresentar uma filosofia diferente para um povo cansado da ortodoxia religiosa, da dominação política e do engodo dos falsos profetas que pululavam em toda parte.  Esse Nazareno propunha uma doutrina fundamentada em ensinamentos que ministrava em público, embora não se furtasse de dar lições na vida privada, junto ao Lago da Galiléia, na via pública, em festas, com os pobres e, algumas vezes, nos templos destinados à tradição religiosa de seu povo.
            Dos Evangelhos é possível extrair a essência de sua Doutrina cujo eixo fundamental consiste numa tríade do amor: o amor a Deus, o amor ao próximo e o amor a si mesmo[2]. Nesse sentido é oportuno recordar dois estudos feitos pelos Espíritos junto a Kardec e presentes em O Evangelho segundo o Espiritismo, livro em que se ocupa exclusivamente do ensino moral de Jesus, definido pelo próprio mestre lionês como código divino[3], o que significa que Allan Kardec via o Evangelho como uma coleção de preceitos ou normas éticas que traduziam de algum modo as Leis de Deus. O Mestre Jesus procurou revelar-nos essas Leis que regem a vida do Espírito imortal apesar de nossa pouca perspicácia para compreendê-lo à época.
            Os estudos acima referidos[4] são dos Espíritos Fénelon, teólogo francês desencarnado, e de Sanson, ex-membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.  No primeiro, Fénelon enfatiza a essência divina do amor e sua presença como centelha na intimidade de todos nós perceptível nas mais variadas formas de manifestação de amor que somos capazes de dar, apesar de nossas imperfeições morais. Nessa perspectiva o benfeitor espiritual considera que os efeitos sociológicos da vivência do amor seriam a renovação humana e a felicidade na vida terrestre. Já, Sanson conceitua o amor, dando-nos material suficiente para aprendermos que esse sentimento deve extrapolar as considerações metafísicas a seu respeito e não se tornar mero adorno no âmbito das subjetividades. Afirma Sanson: 
Amar, no sentido profundo do termo, é o homem ser leal, probo, consciencioso, para fazer aos outros o que queira que estes lhe façam; é procurar em torno de si o sentido íntimo de todas as dores que acabrunham seus irmãos, para suavizá-las; é considerar como sua a grande família humana (...)
Vejamos que esse conceito espírita do amor destaca valores como a lealdade, a probidade, a consciência da responsabilidade para com a felicidade dos outros e está pautado na regra áurea ensinada por Jesus. De fato, Sanson também apresenta a práxis do amor no exercício da compaixão que implica em um entendimento da dor alheia para que o indivíduo possa aliviá-la. Além disso, o benfeitor aponta a ideia do amor universal ao propor que vejamos como nossa a grande família humana, notadamente exortando-nos à fraternidade universal – saber necessário à superação de preconceitos e sectarismos de qualquer monta. De que atualidade e amplitude de aplicação não são esses valores?!
São valores humanistas cuja fonte espiritual está, sem dúvida, embasada na espiritualidade daquele jovem de Nazaré que marcou a história ensinando e exemplificando a sua tríade do amor. Ademais, ele deixou como critério de verdade do amor a Deus o amor ao próximo quando teria dito: "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”[5] Religiosidade que não se materializa na vivência do amor ao próximo consiste em jogo de aparências, a piedade fica teatralizada e a caridade acaba por ser mero marketing pessoal.
A espiritualidade de Jesus, tão esquecida no Natal comercial e materialista vigente em nossa cultura, pode ser sintetizada na práxis do amor que deve se constituir em vivência de cada um dos valores já destacados. Meditemos em torno deles e façamos uma útil reflexão pós-Natal. Esse presente a gente merece!



[1] Trecho do texto de minha autoria intitulado “Reflexão pós-natal”, acessível em: http://saberesdoespirito.blogspot.com.br/2012/12/reflexao-pos-natal.html
[2] Marcos 12: 30, 31.
[3] O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, Objetivo desta obra.
[4] O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XI, itens 9 e 10.
[5] I Jo 4:20.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Companhias espirituais

caindo a tarde na serra gaúcha


Vinícius Lousada

No século em que o eminente Louis Pasteur revelava a ação de micro-organismos, invisíveis a olho nu, na produção da fermentação de certas substâncias ou na decomposição de organismos, Allan Kardec apontava as sondas do que fazer científico para outra realidade não percebida pelos sentidos ordinários.
 
Fez dos fenômenos – que eram mote de distração na alta sociedade parisiense e, ao mesmo tempo, promovidos pela onda do moderno espiritualismo nascido na América – um objeto científico, passível de ser observado por um controle metodológico exigente.

Arguto pesquisador, se lhe revela a chave de graves questões da humanidade: quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos?. Suas conclusões partiram das narrativas dos habitantes do mundo invisível livres do corpo como pássaros que se destinam ao espaço abandonando suas gaiolas.
 
A primeira aprendizagem de Kardec como pesquisador foi a de que, sendo os Espíritos nada mais e nada menos que nós mesmos, apartados do corpo, cada qual apresentava saber e moral referente à sua condição evolutiva, não sendo, nenhum deles, dotado de saber universal.

Assim, jamais o Codificador colocou ingenuamente os Espíritos na condição de gurus absolutos, mas de coparticipantes de sua pesquisa sobre as leis que regem a vida espiritual. Eles eram apenas informadores ou instrutores, cada qual com a sua parcial contribuição, sempre disposta ao crivo da razão.

Em O Livro
 dos Espíritos, encontramos uma categorização dos Espíritos, segundo suas condições evolutivas, onde pesam o predomínio ou não da matéria e a sua propensão para o mal ou o bem. Essas categoriais mais gerais são divididas em Espíritos Inferiores, Bons Espíritos e Espíritos Superiores.

Ainda, segundo o Codificador, em a Revista Espírita, vamos perceber que sendo a Terra um mundo inferior, isto é, pouco adiantado, resulta que a imensa maioria dos Espíritos que a povoam, tanto no estado errante, quanto encarnados, deve compor-se de Espíritos imperfeitos, que fazem mais mal que bem. Daí a predominância do mal na Terra.
[1]

Mas é na constatação de nossas relações interexistenciais que está uma das grandes contribuições do Espiritismo em nossas vidas. Estamos mergulhados em diferentes níveis vibratórios e em constante interação com o mundo dos Espíritos, do qual o corpo relativamente nos resguarda. Por nossas faculdades espirituais, como a da transmissão e captação do pensamento, somos protagonistas da realidade espiritual.

Possuímos companhias desencarnadas que são definidas pela sintonia que estabelecemos, radicada em nossa natureza moral. Aliás, esse consiste num oportuno saber lecionado pelos Guias da Humanidade a fim de que não nos façamos, por ignorância, marionetes de outras inteligências já domiciliadas no mundo dos Espíritos, capazes de influir negativamente sobre as nossas escolhas.

Dentre as companhias espirituais de um indivíduo estão os Espíritos Familiares, simpáticos, cujos laços de afeto os interligam formando uma mesma família espiritual, os Espíritos afins aos propósitos e ocupações do encarnado (para sua felicidade ou não) e, por fim, o seu Espírito Protetor, o amorável Anjo da Guarda pertencente a uma ordem elevada
 [2] e responsável por tutelar o sujeito numa constante e crescente inserção no campo do bem, em prol de sua evolução consciente. Em alguns casos, o Anjo de Guarda, além de acompanhar o seu tutelado na erraticidade, pode guiá-lo em outras vidas.

Ninguém na Terra há que não possa contar desde o nascimento com a assistência de seu Benfeitor Espiritual – cujo compromisso é a educação mesmo de seu protegido. Os Espíritos Luminares resumem a missão do Anjo de Guarda como sendo a de “um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida”.
[3]

Contudo, não podemos desconsiderar que o Anjo da Guarda pode estender a sua ação fraterna sobre outras almas não se restringindo apenas a um único tutelado; como também, pela hierarquia espiritual em que se encontra, dedicar-se a variadas tarefas enobrecidas, conforme suas características pessoais forjadas na historicidade de suas vivências.

Cônscios disso tudo, procuremos estabelecer pelas boas obras a sintonia com o nosso Amigo Espiritual, a fim de que, dignos de sua presença e receptivos aos seus nobres conselhos, sigamos felizes em nossos afazeres nesta vida.
 

Estudando Kardec       

“Aos que considerem impossível que Espíritos verdadeiramente elevados se consagrem a tarefa tão laboriosa e de todos os instantes, diremos que nós vos influenciamos as almas, estando embora muitos milhões de léguas distantes de vós. O espaço, para nós, nada é, e, não obstante viverem noutro mundo, os nossos Espíritos conservam suas ligações com os vossos. Gozamos de qualidades que não podeis compreender, mas ficai certos de que Deus não nos impôs tarefa superior às nossas forças e de que não vos deixou sós na Terra, sem amigos e sem amparo. Cada anjo de guarda tem o seu protegido, pelo qual vela, como o pai pelo filho. Alegra-se, quando o vê no bom caminho; sofre, quando ele lhe despreza os conselhos.”[4] 




[1] Revista Espírita, dezembro de 1862 - Estudos sobre os possessos de Morzine –Causas da obsessão e meios de combatê-la.

[2] O Livro dos Espíritos, questão 490.

[3] O Livro dos Espíritos, questão 491.

[4] O Livro dos Espíritos, questão 495.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

SOBRE EDUCAÇÃO MORAL



José Artur Maruri[1]
Vinícius Lousada[2]

 “Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.” – Allan Kardec (O Livro dos Espíritos, questão 685-a)

A EDUCAÇÃO MORAL ENTRE RIVAIL E KARDEC

            Allan Kardec era o pseudônimo adotado pelo Professor Rivail, eminente educador francês e discípulo de Pestalozzi, utilizado quando fundou a Filosofia Espírita com a publicação de O Livro dos Espíritos, em pleno século XIX, na “cidade-luz” Paris, num período político entre Napoleões.
            O Livro dos Espíritos fez com que a gema preciosa apresentada pelos imortais se desentranhasse da pedra bruta da experimentação dos fenômenos espíritas, que passaram de objeto de diversão nos salões parisienses e europeus a objeto de observação do mais rígido espírito positivo da época para, posteriormente, formar toda uma filosofia ensinada pelos Espíritos interlocutores de Kardec, nas sessões espíritas em que o mestre se dedicou a pesquisar as relações que se podem estabelecer com os Espíritos.
            Antes de estabelecer sua investigação em torno dos fenômenos psíquicos e espirituais, futuro objeto de estudos da Metapsíquica e, mais tarde, da Parapsicologia com Rhine, o professor Hippolyte-Léon Denizard Rival empreendeu seus esforços profissionais na obra da educação, particularmente na condição de mestre-escola e escritor que difundia, na prática educativa e nas reflexões teóricas propostas, o método postulado por Pestalozzi, educador suíço que fora mestre de Rivail, por sua vez, profundamente inspirado nos escritos do filósofo Rosseau.
            A Educação Moral já fora objeto de estudos de Kardec como educador, quando propunha em alto e bom tom ao se referir às impressões que a criança recebe daqueles que tem a incumbência de educá-la, chegando a afirmar: “Toda prudência se faz necessária quanto à conduta que temos diante das crianças, pois facilmente criamos nelas uma boa ou má impressão”.[3] Cabe ressaltar que as investigações da Psicologia não eram suficientes sobre o tema, mas Rivail intuía a apreensão, por parte da criança, da “linguagem moral” habitualmente adotada pelos adultos que dela se acercavam. Era preciso ao educador moralizar-se para incutir, pelo exemplo e pelos processos educativos que estabelecia junto à infância, bons hábitos que superassem os comportamentos ambíguos ou frágeis produzidos pela má-educação, oriunda da hipocrisia religiosa da época, com o seu moralismo ultrajante, ou do descaso de mestres incautos.

EDUCAÇÃO MORAL EM DIÁLOGO COM A ÉTICA

            Como dito anteriormente, é preciso que o educador moralize-se para incutir bons hábitos. No entanto, um dos caminhos para tal moralização pode ser encontrado através do agir sob a ética.
            Mas quando nasce a ética? Para Marilena Chaui[4], na obra Convite à Filosofia, a ética, também chamada de filosofia moral, nasce quando, além das questões sobre os costumes, também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral e a consciência moral individuais.
            Em o Livro dos Espíritos encontramos na questão 625 a indicação oferecida pelos Espíritos Superiores de qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, aquele que lhe pudesse servir de guia e modelo e a resposta foi simples: Jesus.
            Nele, segundo observação de Allan Kardec, encontramos, “o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra”.
            Mas como chegar lá? O próprio Livro dos Espíritos, na questão 919, aponta o meio mais prático para o homem melhorar nesta vida; e ele segue para um sábio da antiguidade que assim referiu: “conhece-te a ti mesmo”.
            Através da ética exposta desde a antiguidade e que foi ministrada, inclusive, por Jesus, adquirimos a condição de dar conta racionalmente da dimensão moral humana, aumentando o conhecimento sobre nós mesmos.
            Enfim, o próprio Allan Kardec[5], na obra A Gênese, acaba por concluir que “a regeneração da Humanidade não exige absolutamente a renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação em suas disposições morais”.
            Dessa forma, só podemos falar em regeneração da Humanidade se observarmos como anda a nossa Educação Moral. Bem como disse o Espírito Fénelon[6], em Poitiers, no ano de 1861, “a revolução que se apresta é antes moral do que material”.





[1] Advogado, colaborador do Caminho da Luz. E-mail: josearturmaruri@hotmail.com

[2] Educador, editor do blog saberesdoespirito.blogspot.com. E-mail: vlousada@hotmail.com
[4] CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. Ática 2008, p.310.
[5] KARDEC, Allan. A Gênese. FEB Editora. Item 33. p.534.
[6] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. FEB Editora. Item 10. p.69.

domingo, 3 de novembro de 2013

A árvore e o fruto

2 árvores
VINÍCIUS LOUSADA
vlousada@hotmail.com


“(...) cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos.”
 - Jesus[1]


OPORTUNA METÁFORA

Jesus apresenta-nos uma oportuna metáfora que permite fazer uma avaliação de várias propostas dos campos do conhecimento humano, tanto quanto das gentes que as apresentam. Podemos avaliar o valor de uma filosofia ou de uma orientação religiosa qualquer pelo que a mesma dissemina nos caminhos dos seus profitentes.  
Assim, o preclaro Codificador Allan Kardec, na esteira do ensinamento do Grande Mestre Jesus, apresenta-nos no Código da Vida – O Evangelho segundo o Espiritismo – uma revisão dessa máxima lembrando que o cristão é reconhecido pelas suas obras, assim como o fruto denuncia a natureza da árvore que o produz ressaltando, ainda, que o “primeiro cuidado de todo espírita sincero deve ser o de procurar saber se, nos conselhos que os Espíritos dão, alguma coisa não há que lhe diga respeito”.[2] 


UM ALERTA DE KARDEC 

A Revista Espírita se configura num estudo que revela o processo de construção da Ciência Espírita e, ao mesmo tempo, num repositório da Filosofia Espírita cuja fonte são as comunicações dos Espíritos Superiores.  
Num de seus esclarecedores textos, Kardec apresenta um alerta a respeito do que ele convencionou chamar de “falsos irmãos e amigos inábeis”[3], aliás, expressão da qual se utiliza para nomear o artigo com que nos ocuparemos nessa reflexão. 
O mestre lionês refere-se, inicialmente, às atitudes irrefletidas de certos adeptos que deixam de lado a prudência e agem com um zelo terrível pela Doutrina, gerando mais mal do que bem porque, segundo ele, “não calculam bem o alcance de seus atos e de suas palavras, produzindo, por isso mesmo, uma impressão desfavorável sobre as pessoas ainda não iniciadas na doutrina, mais própria a afastá-las do que as diatribes dos adversários”[4]
Para o Codificador, o Espiritismo estaria mais espraiado, realizando consolações e libertando consciências pelo esclarecimento de sua filosofia racional se não fossem as atitudes impensadas de alguns adeptos descuidados dos conselhos da prudência
Aqui ressalta do texto, em análise, a preocupação do missionário da era novaquanto à postura insensata daqueles adeptos que pareciam crer na infalibilidade de suas opiniões pessoais, descartando o conselho da maioria e, do mesmo modo, a recomendação da prudência que aponta a necessidade de se pensar com maturidade antes de agir, ouvindo também a opinião de seus pares. 
A crença na própria infalibilidade denotaria orgulho ou obsessão. O adepto de uma doutrina como o Espiritismo, que consiste num imenso campo de saber a descobrir e aprofundar através do estudo sério da produção kardequiana, que por sua vez imagine a si mesmo detentor exclusivo da razão, demonstra atitude incoerente para com o bom senso recomendado e “encarnado” na prática por Allan Kardec, conforme a expressão de Camille Flammarion ante seu túmulo. 
Por outro lado, quando nos cremos os únicos dotados de bom senso, detentores da verdade e quase “mais espíritas que Kardec”, estamos, possivelmente, apresentando um processo obsessivo definido em O Livro dos Médiuns como o de fascinação. Recordemos que a fascinação se caracteriza, principalmente, pela influência do Espírito sobre o pensamento daquele que é objeto de sua ação pertinaz, paralisando-lhe o discernimento. 
Segue o texto da Revue se referindo ainda a outras posturas dos amigos inábeis do Espiritismo. Kardec destaca a questão das publicações intempestivas ou excêntricas, o que quer dizer, aqueles escritos ditados pelos Espíritos que deveriam levar o tempo necessário de maturação da cultura ou das ciências para que viessem a lume, ou ainda, aquelas comunicações que deveriam ser, como todas e sem exceção, objeto de análise e estudo comparativo em relação ao ensino universal dos Espíritos. 
De igual modo, o exame sério dos ditados oriundos do mundo invisível evitaria sobremaneira o despropósito das publicações que denigrem a imagem da Doutrina Espírita e que geram desnorteio quanto ao seu lúcido conteúdo, cuja autoridade está fundamentada no ensino coletivo dado pelos Espíritos Superiores. Isso eliminaria publicações que somente revelam sistemas particulares de Espíritos personalistas e pseudossábios. 
Outro assunto considerado mais grave ainda pelo Codificador trata-se dosfalsos adeptos. O artigo aponta para uma estratégia dos adversários do Espiritismo dos dois planos da vida: produzir fatos comprometedores ou fazer com que os sujeitos que aderem à Doutrina os levem a efeito, fabricando-se, pouco a pouco, intrigas ocultas supostamente capazes de desacreditar ou arruinar o Espiritismo. 
Os falsos adeptos eram pessoas que o modo de vida, as suas relações e antecedentes inspiravam pouca confiança quanto às suas convicções concernentes ao ensino espírita. Apresentavam uma admiração fanática e se supunham mártires da Doutrina, nada obstante, como afirma Kardec, “não atraem simpatias: um fluido malsão parece envolvê-los e sua presença nas reuniões lança um manto de gelo”[5]
Mas o golpe de misericórdia na caracterização dos falsos adeptos do Espiritismo está na seguinte referência que, apesar de longa, nos permitimos citar para que possamos pensar em diálogo com o texto kardequiano:  
O que caracteriza principalmente esses pretensos adeptos é sua tendência em fazer o Espiritismo sair de seus caminhos de prudência e de moderação pelo seu ardente desejo do triunfo da verdade; a impelir as publicações excêntricas, a se extasiar de admiração diante das comunicações apócrifas mais ridículas, e que eles têm o cuidado de difundir; a provocar, nas reuniões, assuntos comprometedores sobre a política e a religião, sempre para o triunfo da verdade que não precisam ter sob o alqueire; seus elogios sobre os homens e as coisas são golpes de turíbulo a quebrar cinquenta faces: são os fanfarrões do Espiritismo. Outros são mais adocicados e mais insinuantes; sob seu olhar oblíquo e com palavras melosas, sopram a discórdia, pregando a desunião; lançam jeitosamente sobre o tapete questões irritantes ou ferinas, assunto de natureza a provocar dissidências; excitam um ciúme de preponderância entre os diferentes grupos, e ficam encantados em vê-los se lançarem pedra, e, em favor de algumas divergências de opinião sobre certas questões de forma e de fundo, o mais frequentemente provocadas, levantar bandeira  contra bandeira”[6]. 
Meditemos em torno dessa rica análise que o Codificador nos apresenta a partir de suas vivências no movimento espírita nascente e logo seremos levados a admitir a atualidade de suas palavras. Pensemos nisso não como quem procura culpados aqui ou acolá. Simplesmente, revivamos na memória essas assertivas e perguntemos a nós mesmos, em nossos momentos de oportuna introspecção: o que estamos fazendo dessa Doutrina em nossos fazeres espiritistas? 
 As imposturas no movimento espírita revelam, conforme cada caso, vaidades, obsessões, má-fé, mas, sobretudo, ignorância quanto à Filosofia Espírita e as suas consequências morais. Portanto, é justo recordemos outro alerta de Kardec: “o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que não o compreendem absolutamente, e, mesmo pelos inimigos declarados”[7]
Os pretensos adeptos não somente procuravam afastar a ação espírita da finalidade séria de seu conteúdo filosófico – que, segundo Kardec, não os interessava -, como, igualmente, organizavam reuniões, as de diálogo e estudo com os Espíritos, em lugares impróprios e atraíam estranhos para as mesmas, misturando o que deveria ser encarado com religioso respeito com aquilo que é profano e vulgar. 
Outros ainda se dedicariam a publicações de ideias que na aparência professariam os princípios do Espiritismo e que, através do estudo das mesmas, seria fácil identificar o objetivo de fomentar dissensões no seio da família espírita.        


CONTRAPONTO PRÁTICO 

Allan Kardec, ao nos apresentar esse grave texto sobre os “falsos irmãos e amigos inábeis”, não deixa de se referir ao contraponto destas imposturas cujo critério de verdade está na práxis do adepto do Espiritismo. Diz-nos ele: “não nos poderíamos equivocar quanto ao caráter do verdadeiro espírita; há nele uma franqueza de atitudes que desafia toda suspeição, sobretudo quando corroborada pela prática dos princípios da doutrina”[8]. 
Desse modo, para que possamos investigar quanto à qualidade de nossos serviços prestados ao Espiritismo ou para que tenhamos um critério de verdade visando saber com quem estamos lidando nas hostes espiritistas - evitando-se ingenuidade que mais faz mal do que bem -, observemos com autocrítica e criticidade construtiva o que nós todos estamos apresentando em nossas atitudes dentro e fora de nossas atividades de cunho exclusivamente espírita. 
Prossigamos em nossos estudos em torno da produção kardequiana, procurando compreender e viver em profundidade o pensamento espírita.        



[1] Lucas 43:44.
[2]O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVIII, item 12.
[3] KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sexto – 1863. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, p. 109-118.
[4]KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sexto – 1863. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, p. 110.
[5]KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sexto – 1863. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, p. 112.
[6] KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sexto – 1863. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, p. 113.
[7]KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sétimo – 1864. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, p. 431.
[8]KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sexto – 1863. 3.  ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, p. 117.
 
ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA O CONSOLADOR - Ano 3 - N° 150 - 21 de Março de 2010: http://www.oconsolador.com.br/ano3/150/vinicius_lousada.html

segunda-feira, 28 de outubro de 2013


627. Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual a utilidade do ensino que os Espíritos dão? Terão que nos ensinar mais alguma coisa?

“Jesus empregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister agora que a verdade se torne inteligível para todo mundo. Muito necessário é que aquelas leis sejam explicadas e desenvolvidas, tão poucos são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. A nossa missão consiste em abrir os olhos e os ouvidos a todos, confundindo os orgulhosos desmascarando os hipócritas: os que vestem a capa da virtude e da religião, a fim de ocultarem suas torpezas. O ensino dos Espíritos tem que ser claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou. Daí a necessidade de que a ninguém seja possível interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.”


(O Livro dos Espíritos)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Reflexos das Lições de Allan Kardec - Deolindo Amorim






Há mais de 20 anos, aproximadamente, fizemos uma palestra sobre o aniversário de Allan Kardec, em determinada cidade, e dissemos, sobre a vida do Codificador do Espiritismo, o que teria dito qualquer expositor naquela circunstância, isto é, aquilo que já se conhece, com base nos dados biográficos. Claro que aduzimos alguns comentários, resumidamente, neste ou naquele ponto. Dias depois, em conversa com o presidente do Centro, um dos assistentes lhe fez ver, sem nenhum intuito depreciativo, que a palestra não trouxera “nenhuma novidade”. Evidentemente, não. Que novidade poderíamos levar, se o tema do dia era exatamente a vida de Allan Kardec? E onde colher elementos sobre a vida de Allan Kardec, senão na bibliografia já conhecida e divulgada?...

Segundo uma regra de honestidade intelectual, aliás, muito antiga, em matéria histórica não se pode inventar, principalmente quando se trata da vida de um homem de outra época; se não é lícito inventar, porque é uma distorção da verdadeira crítica histórica, muito menos seria correto, por exemplo, fazer divagações desnecessárias ou inconsistentes apenas para dar a impressão de “coisa nova". Não. Atenhamo-nos às fontes autorizadas, respeitemos os fatos, e estaremos bem, pelo menos com a nossa consciência. Mas uma coisa — estejamos certos — é a vida de Allan Kardec propriamente dita, o homem, enfim, com as suas lutas e a sua grandiosa missão, e outra coisa são as lições de sua vida, aplicadas à realidade atual.

Há sempre uma reflexão nova no curso de nossas experiências, envolvidas cada vez mais na “engrenagem” de uma sociedade complexa, exigente e absorvente. Aí, sim, as lições de Kardec se nos afiguram novas, novíssimas, desde que saibamos descobrir o momento e o lugar certo das aplicações à vida cotidiana.

Uma de suas lições, ainda hoje com todo o “sabor de atualidade”, é uma referência de 1854, justamente quando começou ele a dar os primeiros passos no campo mediúnico, como bem o declara em “Obras Póstumas”. No entanto, decorrido um período de 126 anos, quando poderíamos dizer que tudo já ficou no passado, o certo é que o procedimento de Allan Kardec ainda se aplica à realidade dos dias presentes com toda a justeza. Disse ele: “Conduzi-me com os Espíritos, como houvera feito com os homens.”

Embora tratando as entidades comunicantes com o devido respeito e a necessária humildade, para ele os Espíritos não tinham prerrogativas de reveladores predestinados. E não é, porventura, um critério sensato, ainda válido em nossos dias? A experiência demonstra que sim. É uma lição que perdura no tempo e no espaço. Não precisamos santificar os Espíritos nem muito menos colocar o médium no pedestal da idolatria para que possamos receber comunicações proveitosas. Desde que nos mantenhamos com dignidade, não exterior ou formal, mas interior, com elevação de pensamentos; desde que tenhamos propósitos justos; desde que façamos por merecer, enfim, o mundo espiritual saberá avaliar as nossas reais necessidades no momento exato.

O simples ambiente de uma reunião espírita bem orientada, preparada com recolhimento e uma prece sincera, já é um campo propício à projeção de influências salutares, ainda que não haja manifestação ostensiva deste ou daquele Espírito. Muito se pode fazer e obter, portanto, sem ser necessário chegar ao deslumbramento. Neste particular, como se vê, Allan Kardec procedeu de uma forma que nos permite aplicar o seu critério, ainda hoje, a diversas situações no trabalho mediúnico. Mas devemos vê-lo por outros prismas.

Se alguém disser que Allan Kardec pensou, há mais de um século, na aliança da competência com a moralidade como estágio evolutivo capaz de firmar o equilíbrio social, certamente não estará dizendo ou revelando novidade, pois o tema está muito bem explanado em “Obras Póstumas”. E o ponto central de suas ideias, neste assunto, se resume no entendimento de uma “aristocracia intelecto-moral”.

A ideia em si não seria novidade, porém a conjuntura em que nos encontramos atualmente nos leva a esta pergunta: será possível, ou seria possível ajustar, hoje em dia, o pensamento de Allan Kardec à situação do nosso mundo? A ideia é muito antiga, e ninguém iria apresentá-la como inédita, mas estamos diante de fatos novos. E quais são esses fatos?

Em primeiro lugar, as condições de vida, de um modo geral, são muito diferentes, sensivelmente diferentes das condições em que viveu Allan Kardec. Em segundo lugar, a ideia de aristocracia, no mundo de hoje, o mundo da interação, mundo de dependência e competição, jamais poderia ter o sentido de outrora. É uma palavra que muitas vezes causa arrepio!... Em terceiro lugar, o próprio conceito de moralidade, como estamos vendo a cada passo, vem sofrendo restrições muito graves.

Afinal, que estaria imaginando ou desejando Allan Kardec ao preconizar o advento (não se sabe quando) de uma aristocracia intelecto-moral? Claro que ele tomou a palavra aristocracia no sentido original, pois bem conhecia a raiz do vocábulo; “o poder dos melhores”. Então, seria uma sociedade em que o poder fosse confiado aos melhorescidadãos, mas é preciso entender melhores em moralidade, melhores por serem mais dignos, mais corretos, não pelo sangue nem pela linhagem nobre, como se observava na antiguidade.

Hoje, porém, naturalmente por força da semântica, aristocracia é o oposto a democracia, porque tomou um sentido acentuadamente discriminatório. “Aristocrata", hoje, é o indivíduo que se coloca acima dos outros, não se confunde, não se “mistura” com a massa. É um conceito que está perdendo sentido cada vez mais. Fala-se em aristocracia social, aristocracia intelectual etc.

Recorramos de novo ao pensamento de Allan Kardec. Ponhamos, antes, uma questão: pelo fato de estarmos reconhecendo, forçosamente, que tanto o conceito de aristocracia, quanto o conceito de moralidade no mundo atual não coincidem inteiramente com o sentido que tinham esses conceitos no tempo de Allan Kardec, seria cabível dizer que suas palavras se perderam no vazio por falta de adequação aos fatos novos?

Existem colocações novas em relação ao conceito de moralidade, mas a ideia de Allan Kardec não perdeu a consistência no curso da História, embora se diga, às vezes, que estamos muito longe de uma “aristocracia intelecto-moral”, uma vez que os mais espertos, ainda que não sejam capazes, quase sempre passam à frente dos mais dignos e competentes. Neste caso, Allan Kardec seria simplesmente um visionário, por ter lançado uma ideia irrealizável. Não. A despeito das mudanças que se operaram no mundo, a bem dizer em todos os sentidos, o valor intelectual e o valor moral se reclamam e se completam, pouco importa que muita gente não se preocupe com problemas desta ordem.

Se o indivíduo tem muita capacidade, mas não se recomenda moralmente, será um condutor desastroso, seja no âmbito da coisa pública, seja no âmbito da economia privada; se é realmente honesto, um modelo de moral, mas inexperiente ou inábil, também não está em condições de assumir certas responsabilidades.

Em suma, sem a identificação, a verdadeira harmonia da moralidade com a capacidade nunca será possível uma gerência produtiva, sólida e benéfica. É o pensamento de Allan Kardec. E os valores por ele preconizados estão de pé, apesar das novas concepções de vida e dos novos estilos hoje predominantes neste ou naquele segmento da sociedade.

Tentamos, assim, apresentar Allan Kardec pelo prisma de uma visão social guiada pela compreensão de valores insubstituíveis, sejam quais forem as transformações sociais e as alterações semânticas. Tocamos apenas no assunto, sumariamente.

Vamos procurá-lo, agora, por outro prisma, do qual nos ficaram possivelmente as suas maiores lições: o desinteresse pessoal, a humildade natural e franca com que ele fez questão de declarar que a obra não é de sua autoria, é dos Espíritos. Claro que a Codificação da Doutrina teria de trazer o nome de Allan Kardec. Mas o ensino original, o ensino nuclear, o ensino puro, a gama que deu a base da Doutrina é realmente do Alto. Não querendo, portanto, intitular-se criador de um pensamento renovador nem muito menos autor pessoal de uma ordem de ideias tão luminosas, ideias que viriam abrir o horizonte humano para as mais sérias e mais profundas questões da humanidade, declarou logo cedo, na própria Introdução de “O Livro dos Espíritos”: “A verdadeira Doutrina Espírita está no ensino que os Espíritos deram, e os conhecimentos que esse ensino comporta são por demais profundos e extensos para serem adquiridos de qualquer modo, que não por um estudo perseverante, feito no silêncio e no recolhimento.”

Com referência explícita a “O Livro dos Espíritos”, disse ele tranquilamente: “O mérito que apresenta cabe todo aos Espíritos que a ditaram” . (O grifo é nosso.) Teve, ele, grande participação pessoal no diálogo que estabeleceu com os Espíritos instrutores, como também nos comentários de ordem pessoal, assim como na elaboração das outras obras, como sabem os espíritas; mas o aspecto relevante, que é uma lição permanente, é a franqueza com que indicou prontamente a autoria espiritual, deixando de lado o seu nome.

Somente os homens de vocação missionária têm desprendimento para tanto. E, como missionário, acreditou em suas ideias, sempre orientado pelos mentores espirituais. E essas ideias devem influir, e já estão influindo na transformação do mundo, ainda que não produzam efeitos maravilhosos ou impressionantes.

Não estamos esperando, finalmente, que as ideias espíritas modifiquem o mundo por inteiro, como se fosse possível mudar os rumos da vida por um passe de mágica, mas estamos certos, por experiência já vivida, de que nas áreas onde penetra a luz do ensino espírita, a maneira de ver as coisas já é diferente.

Os jovens que têm formação espírita, por exemplo, formação adquirida nas Mocidades e Juventudes, atualmente numerosas no Brasil, quando realmente conservam as sementes recebidas, vão para a Universidade ou ingressam depois na vida pública com um lastro de princípios orientadores. Já sabem, por isso, que a paz duradoura, a paz profunda, inspirada na mensagem do Cristo, mensagem que está fora e acima de quaisquer configurações geográficas, políticas, religiosas ou culturais, porque o amor é universal; já sabem os que receberam formação espírita — repetimos — que a verdadeira paz não se constrói por meio de fórmulas e atos solenes, mas na consciência do próprio ser humano, apoiada no poder da inteligência e na força do sentimento. Tudo isto, em suma, são reflexos das lições de Allan Kardec.

Fonte: Reformador, outubro de 1980, Rio de Janeiro-RJ. Revista de divulgação da Federação Espírita Brasileira.

Deolindo Amorim nasceu em Baixa Grande-BA, em 23 de janeiro de 1906 e desencarnou no Rio de Janeiro-RJ, em 24 de abril de 1984. É considerado, ao lado de Carlos Imbassahy e Herculano Pires, um dos maiores pensadores espíritas do Brasil. Jornalista, sociólogo, escritor espírita de estilo professoral, extremamente didático e elegante, Deolindo foi um dos maiores divulgadores do Espiritismo como cultura e voltado para a análise de questões da atualidade. Fundou o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB), foi um dos idealizadores da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee) e graças ao seu empenho, em conjunto com a Liga Espírita do Brasil, realizou-se no Rio de Janeiro, em 1949, o II Congresso Espírita Pan-Americano.
Obras: Espiritismo e Criminologia; O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas; Africanismo e Espiritismo; O Espiritismo e os Problemas Humanos; Ideias e Reminiscências Espíritas; Allan Kardec, o Homem e o Meio, dentre outras.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Biografia de Allan Kardec: em breve nas livrarias!

Exclusivo: Marcel Souto Maior fala sobre a biografia de Allan Kardec
2013-10-08 13:02:29

Por Manoel Fernandes Neto
 
Uma nova biografia de Allan Kardec se "materializa" nas livrarias neste mês de outubro e não se trata de nenhum "fenômeno mediúnico". Nem por isso, desprovido de novidade, mesmo Kardec sendo uma personalidade (re) conhecida por espíritas e não-espirítas. O que torna a obra um atrativo é o seu autor: Marcel Souto Maior, jornalista, não-espirita e biógrafo de Chico Xavier, em obra -- entre outras -- que deu origem ao filme sobre o médium brasileiro.
Desta vez, após anos de contato com a Doutrina dos Espíritos e seu Codificador, Souto Maior decidiu que chegara o momento de retratar um personagem que o intrigava. "O que transformou o professor Rivail no missionário Kardec? O que deu a ele tanta certeza sobre a existência e influência dos espíritos? ", idaga o autor.
Nesta entrevista, exclusiva para oportal Nova Era, Marcel fala do livro e dos motivos que o levaram a se interessar pelo assunto:

"O que mais me mobiliza – e me impressiona – no espiritismo não é o fenômeno, sempre sujeito a fraudes, mistificações ou enganos. O que mais admiro no movimento é a rede de solidariedade que ele sustenta e mantém cada vez mais viva e integrada. "
Leia a seguir a integra da entrevista:
Por que você resolveu escrever a biografia de Allan Kardec?
Por interesse jornalístico. Desde que iniciei minhas pesquisas sobre Chico Xavier, há 20 anos, mergulhei também no universo de Kardec – um personagem que sempre me intrigou. Ele se chamava Hippolyte Léon Denizard Rivail e era um professor cético, discípulo do educador Pestalozzi, na França do século 19 até ver mesas girarem, cestos escreveram, adolescentes colocarem no papel mensagens complexas demais para a idade e formação delas...Aos 53 anos, depois de pôr à prova estes fenômenos, ele mudou de vida e de nome para dar voz aos espíritos. O que transformou o professor Rivail no missionário Kardec? O que deu a ele tanta certeza sobre a existência e influência dos espíritos? A biografia – escrita com o máximo de objetividade – é a história desta “conversão”. Uma saga pontuada por altos e baixos, surpresas e decepções, fraudes e revelações.
Como foi a pesquisa? Você pode falar um pouco das fontes que você utilizou?
Li, é claro, toda a obra de Kardec – inclusive as obras pedagógicas do professor Rivail – e estudei a fundo todos os exemplares da “Revista Espírita”, escrita e publicada por ele ao longo de 12 anos. Esta foi a primeira etapa da pesquisa: um mergulho nas motivações, dúvidas e convicções de Rivail/Kardec. Na segunda fase de investigação, depois de ler os principais livros escritos sobre o Codificador, fiz uma série de viagens a Paris (quatro ao todo) para levantar informações históricas e resgatar artigos e reportagens de jornais e revistas da época sobre – e contra - Kardec e o espiritismo. O acervo de periódicos da Biblioteca Nacional da França me ajudou muito nesta etapa. Meu principal objetivo, como jornalista, foi reconstituir os obstáculos enfrentados por Kardec em sua Marcha contra o Materialismo e os principais ataques sofridos por ele ao longo de sua jornada: perseguições da Imprensa e da Igreja, que chegaram ao auge no Auto-de-Fé de Barcelona.
Você ja tem dois livros com temáticas espírita, mesmo não sendo espirita, o que lhe traz credibilidade. O que falar desses temas e personagens tem mostrado pra você? Fale um pouco deste interesse.
Marcel Souto Maior investiga a vida do codificador da doutrina espírita
Título: Kardec
Subtítulo:  Biografia
Páginas: 322
Edição: 1ª
Tipo de capa: BROCHURA
Editora: Record
Ano: 2013
Assunto: Biografias & Memórias
Idioma: Português
O que mais me mobiliza – e me impressiona – no espiritismo não é o fenômeno, sempre sujeito a fraudes, mistificações ou enganos. O que mais admiro no movimento é a rede de solidariedade que ele sustenta e mantém cada vez mais viva e integrada. Ao mergulhar nas histórias de Chico e de Kardec entrei em contato com os conceitos e práticas que considero os mais relevantes e transformadores da doutrina. “Ajuda o outro e você estará se ajudando”, Chico receitava e praticava. “Graças a Deus aprendi a viver apenas com o necessário”, dizia. “Fora da caridade não há salvação”, decretava Kardec. “Trate o outro como você gostaria de ser tratado”, ensinava. O espiritismo aumenta, sim, a responsabilidade de todos nós diante da vida, ao nos tirar do próprio umbigo e nos colocar em contato com o outro. Estas são as principais lições do espiritismo pra mim. Hoje luto para ser menos egoísta e mais tolerante, apesar de não me considerar espírita.
Como você analisa o resultado final desta nova obra "Kardec"?
O livro acaba de sair da gráfica da editora Record - ficou pronto, aliás, em 3 de outubro, dia do aniversário de Rivail - e ainda estou, confesso, sem muito distanciamento para avaliar o resultado final. Encaro o livro como a minha versão da vida e da obra do professor – uma visão jornalística. Espero que os leitores que já conhecem Kardec através de outras biografias – e do estudo de sua obra -, reconheçam Kardec no meu livro e descubram também, em alguns capítulos, novidades sobre os obstáculos que ele enfrentou para organizar e divulgar a “doutrina dos espíritos”.
Tem alguma expectativa de como ela será recebida pelo movimento espírita?
Não sei como os espíritas vão receber o livro. É sempre um enigma para mim a reação dos leitores: espíritas ou não-espíritas. Tento sempre escrever o livro mais consistente e independente possível. Como jornalista luto para me ater aos fatos sem fazer juízos de valor. Deixo ao leitor a liberdade - e a responsabilidade - de chegar às próprias conclusões. Cada leitor, espírita ou não-espírita, terá uma leitura diferente do livro, de acordo com sua fé ou falta de fé. Espero apenas que os leitores espíritas reconheçam no livro o Kardec que já conhecem tão bem e encontrem novas respostas – e caminhos – nesta investigação.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Herculano Pires - 100 anos


PARA ASSISTIR A GRAVAÇÃO DA PALESTRA DE HELOÍSA PIRES CLI QUE EM: http://new.livestream.com/vitaminavideo/encontroscomherculanopires/videos/30882616

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Allan Kardec e a História Cultural



Prezados Leitor,

Abaixo divulgamos dois textos acadêmicos que escrevemos sobre as obras de Allan Kardec dentro de uma perspectiva da História Cultural. 

CARVALHO, Larissa Camacho; LOUSADA, Vinícius Lima. Uma história do livro e de todos os livros: Catálogo Racional – Obras para se  fundar uma biblioteca espírita (1869) (IX Congresso Iberoamericano de História da Educação Latino-americana, 2009)

CARVALHO, Larissa Camacho; LOUSADA, Vinícius Lima. A Revue Spirite (1858-1869) e as comunidades de leitores das obras de Allan Kardec. (15º Encontro Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação em Caxias do Sul-RS,2009)


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

APRECIAÇÕES SOBRE A NORMOSE



foto: horizontes - VLL
Vinícius Lousada[1]

Estabelecer técnicas e ética de comportamento psicológico assentadas na experiência com alguns biótipos é conspirar contra a saúde emocional, porquanto os valores que a uns preenchem as carências, para outros, passam sem qualquer significativa emoção. – Joanna de Ângelis[2]



No campo dos estudos orientados pelo paradigma holista – que procura compreender ao mesmo tempo o todo e as partes da realidade – nas últimas décadas, um conceito sobre o caráter patológico da adesão cega de indivíduos a uma concepção hegemônica de normalidade, causadora de sofrimento, passou a ser elaborado por alguns pensadores de forma sincrônica[3] (simultaneamente ou não, sem nexo causal comum), trata-se do termo normose.
A normose pode ser compreendida como uma gama de normas, conceitos, valores, esteriótipos, hábitos de pensar ou de agir, aprovados consensualmente por um grupo social, provocando sofrimento, doença ou morte. “Em outras palavras é algo patogênico e letal, executado sem que seus autores e seus atores tenham consciência de sua natureza patológica.”[4]
A característica marcante da normose é a reprodução comportamental de normas sociais e valores negativos de modo automático e inconsciente. O normótico ignora essa enfermidade moral e crê piamente que quem não se enquadra no conjunto da coletividade nos padrões pré-estabelecidos, mesmo que sejam absurdos, é anormal e infeliz.
            Entretanto, o normótico vive de modo inautêntico. Seu jeito de ser e estar no mundo e com os outros é escravizado pelo que reza o grupo que pertence ou por aquilo que a mídia apregoa, permitindo-se ser docilmente norteado pela lógica do consumismo e pela ilusão do fundamentalismo materialista ou espiritualista ofertado.
A pessoa normótica não tem pensamento, opinião e gosto próprio, segue o “rebanho”, faz como todo mundo faz ou ao menos tenta. Quando não consegue ser igualzinha aos outros se frustra e passa a viver ansiosa em suas tentativas de ser apenas mais uma engrenagem ajustada ao mecanismo da sociedade, entregando-se a uma vida pouco reflexiva e nada criativa.
O problema não é procurar seguir num pensamento e conduta reta, mas, sim, em ser sal insípido[5], conforme nos alertava Jesus, deixando de fazer a diferença quando o propósito mais amplo da existência é multiplicar os talentos que somos portadores, superando as emoções que causam do sofrimento, numa conviviabilidade pautada no bem.
A normose é uma normalidade doentia e se diferencia da normalidade saudável porque ela impede o sujeito de ser mais, é um interdito externo assumido internamente, psicologicamente.
Podemos aproximá-la do conceito de auto-obsessão segundo a escritora espírita Suely Schubert[6] onde, no comportamento normótico, o indivíduo é obsessor de si mesmo, impondo-se uma idéia fixa, um comportamento cristalizado, optando por viver num círculo vicioso que é necrófilo em suas conseqüências.
Manifestada de maneira geral ou em suas versões específicas, estudadas por especialistas no tema, a normose provoca a atitude invejosa, a baixa autoestima, a ansiedade e outros tantos transtornos psicológicos.
A principal ferramenta profilática que temos é o conhecimento de si mesmo que leva à lucidez mental e ao refinamento do livre-arbítrio, de tal forma que o sujeito que se conhece pode ter um olhar mais acurado das possibilidades criativas de que é portador.
No campo da crença cabe o cultivo da liberdade de pensar que significa na definição kardeciana “livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada. Simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física.”[7] O hábito de pensar livremente edifica a autonomia espiritual do indivíduo.
Nesse sentido, aquele que pensa livremente não se permite escravizar pelo pensamento alheio, pois, assume uma posição crítica, uma atitude filosófica no seu cotidiano e previne-se contra o automatismo nas ações.
Aliás, essa parece ser a questão central de nossa busca espiritual: assumir-se instituindo um significado maior ao que fazemos todos os dias, nas diversas áreas em que produzimos a nossa existência.
Somos seres transcendentes com sede de espiritualidade, não de uma espiritualidade rasa, presa a ritos e dogmas ininteligíveis (normose religiosa), mas de um nível mais profundo de realidade em que, como lembra o filósofo Mário Cortella[8], passamos ver as coisas que fazemos não como um fim em si mesmas, mas, com razões para além do plano imediato.







[1] Educador e pesquisador, editor do blog www.saberesdoespirito.blogspot.com
[2] FRANCO, Divaldo. O despertar do espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Leal, 2000, p. 20.
[3] NOVAES, Adenauer. Mito Pessoal e Destino Humano. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2005, p. 69
[4] WEIL, Pierre. Normose: a patologia da normalidade. Pierre Weill, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema. Campinas, SP: Verus Editora, 2003, p. 22.
[5] Mateus 5:13.
[6] SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão/desobsessão: profilaxia e terapêutica espíritas. 16a ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
[7] Revista Espírita, fevereiro de 1867 - Livre-Pensamento e Livre-Consciência.
[8] CORTELLA, Mário Sérgio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética.3.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 13.

(*) Tezto publicado no Opinião n. 201 de agosto de 2013, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, acessível em: http://ccepa-opiniao.blogspot.com.br/2013/08/opiniao-ano-xx-n-210-agosto-2013.html