quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

REFLEXÃO PÓS-NATAL



Vinícius Lousada

“Em meu coração reside Jesus da Galiléia, o Homem acima do homem, o Poeta que faz poeta de todos nós, o Espírito que bate à nossa porta para que despertemos e nos levantemos e saiamos para encontrar a verdade nua e crua.”[1]


Natal, Jesus e a recepção de seus ensinos

Recentemente vivemos o período da festa cristã do Natal, data no calendário que o mundo ocidental convencionou referir o nascimento de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José, que trouxe ao mundo uma profunda mensagem de amor através de seus atos e ensinamentos que, apesar da intervenção dos homens mediante as doutrinas religiosas e as prováveis adulterações que sofreram os textos dos evangelistas, permanecem atuais ante os conflitos existenciais que assolam os indivíduos e a grande massa.
É bem verdade que Jesus, Espírito de escol, jamais fundara qualquer religião ou seita[2]. Viveu como judeu e tudo indica que seguiu a tradição religiosa de seus pais, nada obstante, muitas vezes ele fora “religiosamente incorreto”, superando a normose[3] religiosa de seu tempo, como quando pronunciou a parábola do bom samaritano, na conversa com a Samaritana, nas curas que realizara aos sábados, na convivência com pessoas de “má-vida”, leprosos e na repreensão que fizera aos fariseus naquela passagem no templo.
 A sua relação com os discípulos era a de mestre, professor das verdades eternas que se propunha a partilhar com os Espíritos mais simples a sua filosofia de amor, vida e transcendência da qual decorre uma espiritualidade profunda que, suspeito eu, ainda não ser devidamente compreendida por um enorme contigente de cristãos. Tal ininteligibilidade dos sentidos da filosofia de Jesus pode ser explicada pelo fato de que, normalmente, a massa educada nas religiões tradicionais, na crença pela crença, tende a se ocupar mais do que os religiosos dizem sobre a mensagem do Cristo do que, efetivamente, da meditação em torno de seus ensinos para aplicá-los.
 Do mesmo modo, falta para muita gente uma leitura mais espiritual do conteúdo das palavras do Mestre para decodificá-las em prol de possíveis e acertados entendimentos da Boa Nova. Enquanto isso não se soluciona, exegetas bíblicos pertencentes às mais variadas denominações religiosas se ocupam de ratificar seus dogmas, sacramentos e ritos através dos textos denominados sagrados, referindo-se às palavras do Mestre como fundamentos de suas teses. E as religiões de orientação mercadológica seguem à cata de adeptos para se avolumarem em práticas coletivas pouco espirituais, mais afeitas a perturbar a razão do que ocupadas com a promoção dos valores da alma.
Para nós, espíritas, que aderimos a uma perspectiva filosófica onde a categoria “fé” deve ser acompanhada por uma atitude de cultivo da razão, de livre pensar mesmo, interessa-nos os aspectos éticos e morais das lições de Jesus, Espírito Superior que encarnou-se conosco para ensinar-nos a viver e evoluir de forma consciente, sem mediadores oportunistas como fornecia prodigiosamente o farisaísmo de Seu tempo.

Espiritualidade e religião

Nos dias em que vivemos alguns pensadores tem diferenciado religião e espiritualidade. Religião se refere mais ao culto, à institucionalização da fé, a formalização coletiva da experiência pessoal com o sagrado, onde estão presentes a letra dos textos sacralizados, os dogmas, os rituais, o culto exterior e a figura dos sacerdotes que se supõem na condição de mediadores entre Deus e as criaturas.
Já espiritualidade parece remeter à experiência espiritual no âmbito do foro íntimo, calcada na liberdade de consciência e na crescente conscientização e busca de sintonia com as Divinas Leis, sem mediação humana – insisto –, mas como conquista dialógica entre criatura e Criador como recomendava Jesus de Nazaré. Trata-se, por certo, da experiência que Rosseau, no seu clássico Emílio, ou da Educação chamou de religião natural e que se nomeia hoje por espiritualidade, onde o ser humano se encontra com Deus na própria intimidade. O conceito de espiritualidade me parece bem clarificado pelo filósofo e teólogo Leonardo Boff quando assim se pronuncia:

Espiritualidade, nesse sentido, significa viver segundo o espírito, ao sabor da dinâmica da vida. Trata-se de uma existência que se orienta na afirmação da vida, de sua defesa e de sua promoção, vida tomada em sua integralidade, seja em sua exterioridade, como relação para com os outros, para com a sociedade e para com a natureza; seja em sua interioridade, como diálogo com o eu profundo, com o grande ancião que mora dentro de nós (o universo dos arquétipos) mediante a contemplação, a reflexão e a interiorização, numa palavra, mediante a potenciação da subjetividade.[4]

            De tal conceito depreende-se espiritualidade como a experiência interior de um conhecer/fazer e fazer/conhecer de nossa dimensão espiritual que afirma a vida na sua totalidade, sem a dicotomia entre Espírito e matéria ensinada pelas religiões tradicionais em sua lógica binária sobre a concretude da existência e a sua transcendência, portadoras de tal reducionismo que empobrecem sobremaneira o entendimento de nosso lugar no cosmos e no aqui e agora, tanto quanto atormenta as criaturas que vivem sob o látego da fé cega e da doutrina da culpa – ambas ferramentas domesticadoras historicamente postas à serviço da doutrinação das massas. Aliás, não é a toa que, em sua visão crítica, Rubem Alves – também teólogo – cunhou a seguinte provocação filosófica: “Deus nos deu asas. Mas as religiões inventaram gaiolas.”[5] Coisa para a gente pensar, se não portamos o temor normótico de raciocinar em matéria de fé, evidentemente.
            Quando as religiões produzem a racionalização[6] de seus princípios em oposição ao livre pensar, elas abafam a espiritualidade e efetivam, assim, o maior de seus erros, como lembra Frei Betto.[7] Nas posturas sectárias, exclusivistas, fundamentalistas, anti-progressistas, belicosas e ansiosas por hegemonia as religiões obnubilam a luz da espiritualidade. Esse é o fator agônico de muitas religiões e, segundo o filósofo espírita Herculano Pires, “O sistema sectário, fechado e arrogante, arbitrário, não pode prevalecer num mundo que se abre para as relações cósmicas.”[8]
Consideremos os avanços nas neurociências, na física quântica ou, até mesmo, na ecologia, na sociologia ou antropologia no último século que não será difícil reconhecer a certeza de nossas incertezas no campo do saber científico, quero dizer, a relatividade de nossos saberes matizados pelas circunstâncias materiais onde eles são produzidos. Somos forçados pelo bom senso a assumir a postura epistemológica difundida pelo sociólogo Boaventura de Souza Santos[9], a da douta ignorância, ou seja, “saber que a diversidade epistemológica do mundo é potencialmente infinita e que cada saber só muito limitadamente tem conhecimento dela.” O que equivale a reconhecer os nossos limites epistemológicos diante da sociodiversidade do mundo, da pluralidade de práticas culturais, saberes e fazeres e, por que não dizer, das variadas formas de relação com o sagrado.
Voltando ao tema da espiritualidade, ela se manifesta no recôndito do ser como um convite interior para que o sujeito venha a transbordar, conectado às Leis Cósmicas da Vida, em amor e sabedoria na direção do próximo, interpretado aqui num conceito estendido a todos os seres da vida. Essa experiência de transcendência (ir além de si) naturalmente ocorre mobilizando uma ligação profunda e singela, sem aparatos exteriores, com a Causa Primeira. Espiritualidade, dessa forma, é uma experiência transpessoal de humildade, ação correta, calmaria, sensatez, ternura, gratidão a Deus e compaixão por todos os seres que se enraíza no silêncio e no recolhimento, bem diferente da espetacularização da fé que temos assistido na mídia religiosa no tempo presente.


A Espiritualidade de Jesus

            Há mais de dois mil anos um jovem partiu da bucólica Nazaré para apresentar uma filosofia diferente para um povo cansado da ortodoxia religiosa, da dominação política e do engodo dos falsos profetas que pululavam em toda parte.  Esse Nazareno propunha uma doutrina fundamentada em ensinamentos que ministrava em público, embora não se furtasse de dar lições na vida privada, junto ao Lago da Galiléia, na via pública, em festas, com os pobres e, algumas vezes, nos templos destinados à tradição religiosa de seu povo.
            Dos Evangelhos é possível extrair a essência de sua Doutrina cujo eixo fundamental consiste numa tríade do amor: o amor a Deus, o amor ao próximo e o amor a si mesmo[10]. Nesse sentido é oportuno recordar dois estudos feitos pelos Espíritos junto a Kardec e presentes em O Evangelho segundo o Espiritismo, livro em que se ocupa exclusivamente do ensino moral de Jesus, definido pelo próprio mestre lionês como código divino[11], o que significa que Allan Kardec via o Evangelho como uma coleção de preceitos ou normas éticas que traduziam de algum modo as Leis de Deus. O Mestre Jesus procurou revelar-nos essas Leis que regem a vida do Espírito imortal apesar de nossa pouca perspicácia para compreendê-lo à época.
            Os estudos acima referidos[12] são dos Espíritos Fénelon, teólogo francês desencarnado, e de Sanson, ex-membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.  No primeiro, Fénelon enfatiza a essência divina do amor e sua presença como centelha na intimidade de todos nós perceptível nas mais variadas formas de manifestação de amor que somos capazes de dar, apesar de nossas imperfeições morais. Nessa perspectiva o benfeitor espiritual considera que os efeitos sociológicos da vivência do amor seriam a renovação humana e a felicidade na vida terrestre. Já, Sanson conceitua o amor, dando-nos material suficiente para aprendermos que esse sentimento deve extrapolar as considerações metafísicas a seu respeito e não se tornar mero adorno no âmbito das subjetividades. Afirma Sanson:

Amar, no sentido profundo do termo, é o homem ser leal, probo, consciencioso, para fazer aos outros o que queira que estes lhe façam; é procurar em torno de si o sentido íntimo de todas as dores que acabrunham seus irmãos, para suavizá-las; é considerar como sua a grande família humana (...)

Vejamos que esse conceito espírita do amor destaca valores como a lealdade, a probidade, a consciência da responsabilidade para com a felicidade dos outros e está pautado na regra áurea ensinada por Jesus. De fato, Sanson também apresenta a práxis do amor no exercício da compaixão que implica em um entendimento da dor alheia para que o indivíduo possa aliviá-la. Além disso, o benfeitor aponta a ideia do amor universal ao propor que vejamos como nossa a grande família humana, notadamente exortando-nos à fraternidade universal – saber necessário à superação de preconceitos e sectarismos de qualquer monta. De que atualidade e amplitude de aplicação não são esses valores?!
São valores humanistas cuja fonte espiritual está, sem dúvida, embasada na espiritualidade daquele jovem de Nazaré que marcou a história ensinando e exemplificando a sua tríade do amor. Ademais, ele deixou como critério de verdade do amor a Deus o amor ao próximo quando teria dito: "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”[13] Religiosidade que não se materializa na vivência do amor ao próximo consiste em jogo de aparências, a piedade fica teatralizada e a caridade acaba por ser mero marketing pessoal.
A espiritualidade de Jesus, tão esquecida no Natal comercial e materialista vigente em nossa cultura, pode ser sintetizada na práxis do amor que deve se constituir em vivência de cada um dos valores já destacados. Meditemos em torno deles e façamos uma útil reflexão pós-Natal. Esse presente a gente merece!



[1] GIBRAN, Kahlil. Jesus, o filho do homem. Rio de Janeiro: PoketOuro, 2009, p. 59.
[2] Vide o artigo de Aureci Figueiredo Martins intitulado “Fundou Jesus alguma religião?” acessível em http://ccepa-opiniao.blogspot.com.br/2011/12/opiniao-ano-xviii-n-192-dezembro-2011.html.
[3] Vide o meu texto “Apreciações sobre a normose” em: http://saberesdoespirito.blogspot.com.br/2010/03/apreciacoes-sobre-normose.html
[4] BOFF, Leonardo. Ecologia, mundialização, espiritualidade. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 215.
[5] ALVES, Rubem. Perguntaram-me se acredito em Deus. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 55.
[6] A palavra racionalização deve ser entendida aqui no sentido que lhe atribui o pensador francês Edgar Morin, trata-se da patologia da razão que encerra o real num sistema de idéias coerente, mas parcial e unilateral. Vide: MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. tradução Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006, p. 15.
[7] BETTO, Frei; GLEISER, Marcelo; FALCÃO, Waldemar. Conversa sobre a fé e a ciência. Rio de Janeiro, 2011, p.88.
[8] PIRES, Herculano. Revisão do Cristianismo. São Paulo: Editora Paideia, s/a, p. 45.
[9] SANTOS, Boaventura de Souza. A filosofia à venda, a douta ignorância e a aposta de Pascal. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, Porto, n. 80, Março 2008, p.17. 
[10] Marcos 12: 30, 31.
[11] O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, Objetivo desta obra.
[12] O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XI, itens 9 e 10.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Os avanços da ciência da alma


Uma pesquisa inédita usa equipamentos de última geração para investigar o cérebro dos médiuns durante o transe. As conclusões surpreendem: ele funciona de modo diferente
DENISE PARANÁ, DA FILADÉLFIA, ESTADOS UNIDOS 
Estávamos no mês de julho de 2008. Na Rua 34 da cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, num quarto do Hotel Penn Tower, um grupo seleto de pesquisadores e médiuns preparava-se para algo inédito. Durante dez dias, dez médiuns brasileiros se colocariam à disposição de uma equipe de cientistas do Brasil e dos EUA, que usaria as mais modernas técnicas científicas para investigar a controversa experiência de comunicação com os mortos. Eram médiuns psicógrafos, pessoas que se identificavam como capazes de receber mensagens escritas ditadas por espíritos, seres situados além da palpável matéria que a ciência tão bem reconhece. O cérebro dos médiuns seria vasculhado por equipamentos de alta tecnologia durante o transe mediúnico e fora dele. Os resultados seriam comparados. Como jornalista, fui convidada a acompanhar o experimento. Estava ali, cercada de um grupo de pessoas que acreditam ser capazes de construir pontes com o mundo invisível. Seriam eles, de fato, capazes de tal engenharia?

MEDIUNIDADE SOB INVESTIGAÇÃO
Uma médium brasileira psicografa no laboratório do
Hospital da Universidade da Pensilvânia

(Foto: Denise Paraná/ÉPOCA)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um diálogo com o Mestre




Vinícius Lousada

Mestre Jesus, eu ouvi a tua doce mensagem.

Mas, em diversas vidas anteriores corri atrás das coisas impermanentes
Fui incapaz de reconhecer com clareza a minha essência espiritual.
Meu modo de pensar, falar e agir me foram prejudiciais.
Perdi tempo no desejo ignorante, na inveja, no ódio e na mágoa.
Mas agora, as vozes dos céus causaram-me um novo despertar,
Deixando-me o coração determinado a renovar a alma.
Ajuda-me, amigo, a libertar-me da sombra, agindo no bem,
Oficina bendita onde posso reparar as minhas faltas.
Mestre, te prometo neste momento,
Esforçar-me por superar os condicionamentos negativos,
E procurar refúgio na tua excelente proposta por toda a minha vida.
Divino Amigo, estende tua atenção protetora sobre mim e meus irmãos,
De modo que a caridade, para com todos os seres,
Orientem o nosso caminhar pelo mundo.
Que no jardim da minha consciência,
Floresçam as flores da paciência e do entendimento
Para que eu possa levar aos lares a notícia da paz e da fraternidade
E plantar as sementes do bem nos caminhos por onde eu ande.
Socorre-me, Senhor, para que eu jamais me esqueça dos que estão à margem
Nem me aparte dos que sofrem e careçam da presença da compaixão.
Que eu aprenda a cuidar do meu corpo e do Planeta com a mente alerta.
Mestre Jesus, tendo a Mãe-Terra por testemunha,
Inclino-me grato e de alma reverente para te dizer:
Pelo teu amor, mensagem e exemplo, muito obrigado Senhor!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Pensamento e autorrealização





       És o que cultivas no mundo íntimo através dos teus pensamentos. - Joanna de Ângelis[1]


Somos o que pensamos. O que pensamos reverbera no ser espiritual que somos, em conformidade com as emoções correspondentes, e se estende ao corpo somático através do perispírito.
         Desse modo, como força criativa e mobilizadora de fluidos, o pensamento erige a psicosfera particular em consonância ao nosso estado de elevação ou de instabilidade moral nutrida na vida interior e materializada em nosso cotidiano.
         A psicosfera de cada indivíduo revela o que ele traz no alforje do coração como reflexo das vivências encetadas nesta e noutras vidas, que se manifestam como condicionamentos refletidos nos hábitos e pensamentos atuais, formando um mosaico que denota a natureza moral daquele.
         Como estamos reencarnados tendo em vista o progresso espiritual que nos cabe efetivar, urge que eduquemos os pensamentos em prol da autorrealização, ou seja, do atendimento do programa reencarnatório elaborado, sob a assistência dos Benfeitores da Vida Maior, que diz respeito a um gênero de provas[2] necessárias ao desenvolvimento dos sentimentos nobres e da lucidez.
         Autorrealizar-se consiste em expandirmos as potencialidades do Eu por meio do trabalho, cuja concepção mais profunda consiste como “Toda ocupação útil”[3], ou seja, toda a ação que alavanca o progresso daquele que obra e do seu entorno.
         Para que possamos atender as tarefas que nos cabem nessa vida, de forma reta, progredindo e colaborando com o progresso da coletividade, os nossos pensamentos devem ser igualmente retos, disciplinados e postos a serviço desse auspicioso projeto.
         Para tanto, devemos começar a analisar a qualidade da vida mental que cultivamos. Cabe aqui uma pergunta: podemos aquilatar o teor moral dos pensamentos a que damos vazão diariamente?
         Tarefa pessoal, cada qual deve fazer essa análise investigando-se a si mesmo. A maior parte desses pensamentos tem sido nobres, libertadores, positivos e propositivos? Ou são inferiores, que nos agrilhoam às imperfeições, negativos e vinculados à insatisfação nada realizadora?
         É importante pensar sobre a natureza dos pensamentos produzidos diariamente porque eles determinam quem estamos sendo.
         Para dar conta dos deveres e programas renovadores trazidos para esta reencarnação, cabe a avaliação acima proposta porque o êxito da alma depende da força mental empreendida em prol disso tudo.
         Jesus afirmou outrora que obteríamos o que pedíssemos, o que nos permite inferir que nos realizaremos conforme os anseios alimentados na intimidade do ser.
         Nem sempre o que almejamos está em sintonia com aquilo que é importante, e boa parte dos propósitos superiores da alma se perdem no lodaçal do atendimento às paixões inferiores.
         Por outro lado, as atitudes enobrecidas que alteiam o nosso patamar evolutivo nascem no âmago de cada ser e aí são nutridas pelos pensamentos positivos, calcados no desejo lúcido de servir à coletividade e melhorar-se.
         Teus pensamentos emitem vibrações, angariam companhias espirituais e matizam os fluidos que te são habituais. Observa-os e coloca-os a serviço da vida, extuante, dinâmica e plenificadora.
         As melhores realizações, em sintonia com o gênero de provas que precisas superar para venceres a ti mesmo, nascem do planejamento e do cultivo mental que acalenta os nobres propósitos, fortalecendo a tua disposição para o bem.
         Pensa bem, com retidão, e a vida te responderá com o bem, favorecendo a tua consciente evolução.


[1] FRANCO, Divaldo. Atitudes renovadas. (Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador/BA: LEAL, 2009, p. 33.
[2] O Livro dos Espíritos, questão 258.
[3] O Livro dos Espíritos, questão 675.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Age com retidão



Vinícius Lousada


Um coração tranqüilo é o resultado de uma conduta reta e, por conseqüência, fator basilar para uma consciência de paz. - Joanna de Ângelis[1]


         No estudo sobre as paixões que os Espíritos Superiores levam a efeito junto a Allan Kardec, vamos apreender que o abuso daquelas é o fator em que reside o seu desequilíbrio moral. Neutras, em seu princípio, podem conduzi-lo a grandes realizações, desde que conscientemente dirigidas pelo Espírito imortal e postas a serviço de seu crescimento para Deus.
         Tendo por fundamento uma necessidade natural ou um sentimento, a paixão que concita o indivíduo à sua natureza animal afasta-o de sua espiritualização e, doutra feita: “Todo sentimento que eleva o homem acima da natureza animal denota predominância do Espírito sobre a matéria e o aproxima da perfeição.”[2]
         Deriva desse raciocínio a constatação de que todo o sentimento e toda a necessidade exagerada em seu princípio, materializados pela ação, tende a nos atrelar a um estado de inferioridade espiritual. Contudo, a ação reta inspirada pela disposição afetiva enobrecida ou pela carência equilibrada favorece a espiritualização do indivíduo, diluindo as influências negativas do ego sobre o ser que, menos esclarecido, assume atitudes mendazes.
         No estágio espiritual em que nos encontramos não é incomum surpreendermo-nos em equívoco no plano das ações, seja no campo mental, seja nas atitudes diárias ou no falar. Sem dar acolhida à hipocrisia, na análise crítica sobre si mesmo, instala-se a crise que antecede um novo tempo para a alma.
         O sentimento de culpa pode ser um elemento que ressoe na consciência, devendo ser constatado para a imediata renovação das atitudes e não para que se torne combustível de intrincados processos de transtorno emocional ou obsessivo, pelo desgosto que o indivíduo passe a ter consigo mesmo.
         Ao sentir-se alguém culpado seria oportuno que procurasse remontar às causas íntimas que o impulsionaram às atitudes incorretas, objetivando a devida correção moral e, perdoando-se, buscasse o equilíbrio reparando as faltas cometidas via prática do bem e cumprimento do dever.
         Somos, assim, convidados à renovação das atitudes pelo sofrimento que o erro provoca e, sem o cultivo inútil de culpa, podemos mudar o rumo de nossas tendências pessoais.
         A mentora Joanna de Ângelis afirma que a “atitude mantida pelo indivíduo em relação à vida e às demais pessoas é a radiografia moral que melhor o define.”[3] Oriundas dos hábitos cristalizados no comportamento, as atitudes expressam os sentimentos e as qualidades da criatura.
         Na mesma mensagem, a benfeitora espiritual propõe uma eficaz tecnologia para a renovação das atitudes a quem queira agir de forma correta em prol da sua evolução espiritual. São passos simples ao alcance de quem tem vontade firme para esse cometimento feliz.
         Primeiramente o sujeito deve abandonar o ressentimento e os sentimentos que dele derivam, para, logo em seguida, assumir atitudes edificadoras para fruir de abençoados momentos no imo da alma, na medida em se reveste do amor.
         Em um passo adiante, é preciso construir hábitos mentais saudáveis que se transformarão em postura existencial formadora de comportamentos mais equilibrados.
         Iluminar a mente com as lições do Evangelho de Jesus, meditando sobre seu conteúdo e enriquecendo o verbo com expressões edificadoras, para impulsionar a alma às atitudes nobres.        
Cabe, também, nesse tentame, o desenvolvimento de clichês mentais de paz, compaixão, amorosidade profunda que fomentam o bem-estar que a retidão gera.

         Assim sendo, coração amigo, procure ser fiel ao projeto renovador que abraça delineando-o nas ações corretas que, por sua vez, te levarão à saúde moral sonhada há tanto tempo.



[1] FRANCO, Divaldo. Plenitude. (Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador/BA: LEAL, 1991, p. 91.
[2] O Livro dos Espíritos, questão 908.
[3] FRANCO, Divaldo. Iluminação interior. (Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador/BA: LEAL, 2006, p. 67

sábado, 25 de agosto de 2012

Desapega-te




Vinícius Lousada

Aprende a repartir, a fim de compartires.- Joanna de Ângelis[1]


         O egoísta diz: isto é meu, minha conquista, logo, me pertence! E, assim, frui de um prazer temporário de forma solitária.
         O altruísta diz: vem meu irmão, veja o que temos, partilha comigo e convivamos bem. Desse modo, recolhe um prazer da alma, permanente, e comunga da fraternidade com o outro.
         Nossa reencarnação é um estado transitório e quando alcançarmos a condição de Espíritos Puros, por meio das vidas sucessivas, e, iluminarmo-nos plenamente, não estaremos mais fadados ao circuito de reentradas na carne.
         Fácil é perceber a transitoriedade da vida material quando, em verdade, tudo passa.
         Os bens mudam de donos e se tornam obsoletos, também, o corpo se desgasta com a enfermidade e a juventude é ouro perecível ante a inevitabilidade da velhice e da morte.
         Aliás, todos os dias marchamos para a desencarnação. Não se trata de pessimismo, é apenas a constatação de uma lei da vida.
         Entretanto, a sabedoria não está em negarmos a realidade material, mas sim em colocarmos as coisas a serviço de nossa evolução, enquanto nela estamos em trânsito.
         A posse material é empréstimo divino para que, mediante o trabalho, abençoemos nossas vidas e as daqueles que nos cercam, nas quais os valores que temos podem ajudar quando partilhados.
         Podes, desde já, vivenciar o princípio da solidariedade em prol do aprendizado do desapego. Partilha o que tens em excesso, divide aquilo no que te apegas e, mais, distribui, vez por outra, o que te pareça escasso para o uso pessoal.
         Treina o desapego com bom senso para que não te tornes um perdulário iludido com virtude que não tens.
         Contudo, não sejas sovina quando podes aliviar a dor do próximo ao partilhares do que tens – seja a tua inteligência ou o fruto de teu trabalho.
         Partilha para aprenderes a desfrutar em comensalidade fraternal.



[1] FRANCO, Divaldo. Momentos de Saúde. (Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador/BA: LEAL, 2001, p. 46.

domingo, 19 de agosto de 2012

Queres ser feliz?



 Crianças do Butão, país em que se mede o índice de Felicidade Interna Bruta


Vinícius Lousada


Transforma, dessa maneira, os estímulos afligentes em contribuição positiva, não sofrendo, não se lamentando, não desistindo. - Joanna de Ângelis[1]


         Na Terra nos encontramos envoltos em processos depurativos, em conformidade com a nossa condição espiritual, que segundo Kardec, ainda é de Espíritos imperfeitos[2].
         Espíritos imperfeitos - somos aqueles que nos deixamos dominar pelas más inclinações, fomentadas por nossas escolhas movidas pelos vícios e pelo egoísmo.
         Logo, enfrentamos duras provas que nos guindam ao progresso e recolhemos lutas expiatórias no caminho pessoal, outrora plantadas mediante nossos equívocos, que nos desafiam na presente reencarnação.
         Ninguém se iluda, no plano terrestre todos nós sofremos. Contudo, saber passar as experiências provacionais e expiatórias com resignação ativa é a porta da felicidade que nasce da renovação do Espírito.
         No curso de tua existência, não podes deixar de te perguntar se queres mesmo ser feliz.
         Medita demoradamente nisso.
         Procura perceber quais são tuas ideias sobre felicidade.
         Há quem creia que ser feliz seja tudo ter e gozar. Para outros, felicidade é suposta ascensão espiritual conquistada na fuga do mundo.
         Entretanto, os Guias Maiores apontaram para Kardec que felicidade é a posse do necessário[3], no campo material, e consciência tranquila, no campo moral, como decorrência do atendimento de nossos deveres.
         Queres ser feliz? Não sintas pena de ti mesmo, nem tampouco reclames da vida sem parar. Certamente as vivências exigentes do momento podem ser vistas de outro prisma, num olhar mais espiritual.
         Aposta na tua felicidade transformando a crise de agora, nascida no hoje descuidado ou em um ontem – mergulhado no olvido das Leis Morais da Vida – em oportunidade de crescimento.
         Modifica o que podes, fazendo uso de tua inteligência aliada à sensibilidade e, observando a recomendação da benfeitora espiritual na epígrafe, não desistas de ser feliz hoje mesmo.


[1] FRANCO, Divaldo. Momentos de Saúde. (Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador/BA: LEAL, 2001, p. 17.
[2] O Livro dos Espíritos. questão 101.
[3] O Livro dos Espíritos. Questão 922.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O princípio da reencarnação revisitado




 Dólmen de Allan Kardec


Vinícius Lousada[1]

“Pela lei da pluralidade das existências, [o Espiritismo] abre um novo campo à Filosofia; o homem sabe de onde vem, para onde vai, com que objetivo está na Terra. Explica a causa de todas as misérias humanas, de todas as desigualdades sociais; dá as próprias leis da Natureza como base dos princípios de solidariedade universal, de fraternidade, de igualdade e de liberdade, que se assentavam apenas na teoria. Enfim, lança luz sobre as questões mais árduas da Metafísica, da Psicologia e da Moral.[2]

Um saber espírita

Termo cunhado por Allan Kardec[3] e ensinamento ministrado pelos Espíritos, como informadores da investigação científica levada a cabo pelo mestre lionês, a reencarnação se refere à volta do Espírito à vida corporal.
No Vocabulário Espírita o mestre esclarece que esse retorno do Espírito à vida corpórea pode dar-se em curto ou longo tempo depois da morte, na Terra ou noutras moradas planetárias, sempre em corpo humano pelo fato do Espírito não retroagir em sua escalada evolutiva e tampouco retrogradar a fases infra-humanas. Nada obstante, a cada reencarnação o Espírito pode evoluir de modo mais célere ou lento, conforme o ritmo do seu esforço pessoal no campo do desenvolvimento de seu intelecto e no da sua moralidade, podendo até mesmo estacionar temporariamente em certo sentido.
De uma experiência corporal à outra, o Espírito pode alternar a sua condição social, étnica e cultural, tendo em vista o seu adiantamento através dos diferentes aprendizados que podem ser obtidos na diversidade das circunstâncias materiais que se lhe apresentam, conforme a suas escolhas na erraticidade que, por sua vez, geram provas pertinentes ao crescimento que lhe cabe realizar, ou ainda, expiações que consistem em mecanismos educativos de colheita da semeadura equivocada empreendida outrora.


Brian Weiss

Um psiquiatra e a sua descoberta da reencarnação

O M. d. Brian Weiss, americano, lidava com seus pacientes mediante os métodos convencionais da psicoterapia, sendo surpreendido pela intervenção dos Espíritos na vida corporal e a pluralidade das existências quando Catherine, uma de suas pacientes, espontaneamente, começou a recordar traumas de vidas passadas que estariam conectados com os transtornos emocionais que enfrentava na vida presente. Contudo, o ceticismo de Weiss foi desafiado pela mediunidade de sua paciente que, em transe, fez narrativas do além da vida a respeito de fatos particulares de seu terapeuta, em especial, sobre o seu pai e filho, ambos desencarnados. Essa experiência singular ele detalha com propriedade em seu Best-seller “Muitas vidas, muitos mestres”.
Desde então a vida de Brian Weiss nunca mais foi igual ao que era. O médico, pós-graduado na Universidade de Columbia e Yale Medical School e presidente emérito do Mount Sinai Medical Center, em Miami, tem se dedicado à cura de seus pacientes através da terapia de vidas passadas, além de se ocupar em contribuir com a formação de outros profissionais e realizar seminários de âmbito nacional e internacional.

Constatações na terapia de vidas passadas
   A seguir, procurarei sintetizar ao leitor alguns aprendizados indicados por Brian Weiss mediante a aplicação da terapia de vidas passadas em busca da cura de seus pacientes[4]. Contudo, é de bom alvitre destacar que a técnica utilizada por Weiss para levar seus pacientes à memória de suas vidas anteriores é a hipnose, aliás, filha do magnetismo de Mesmer e aceita academicamente desde o século XIX, quando difundida pelo Sr. Broca[5].
            Do mesmo modo, a meditação é um recurso utilizado pelo médico para ajudar seus pacientes no acesso às lembranças de vidas passadas, trata-se de um meio para fazer a mente ter foco e ativar informações do subconsciente, tendo em vista a superação de conflitos que flagelam os que procuram essa terapia. Jamais fins pueris orientam o quefazer de Brian Weiss. Nesse processo, o paciente não é adormecido e estando consciente faz uso da sua capacidade de discernir, sem perder o autocontrole. As lembranças emergem sob a condução do terapeuta e se manifestam aos pacientes como um filme ou fragmentos mnemônicos.
            Em qualquer momento o paciente pode ser desperto. E, assim, Brian Weiss (2009, p.14 ) sintetiza a regressão:

A terapia de regressão é o ato mental de voltar a um tempo anterior, qualquer que seja esse tempo, a fim de resgatar lembranças que podem influir negativamente na vida atual do paciente e que são provavelmente a fonte de seus sintomas. (...)
           
Em quarenta por cento de seus pacientes, Weiss identificou a regressão como a chave da conquista da cura completa. Noutros casos, não identificou essa necessidade. Em trezentos de seus pacientes verificou que, com a regressão associada à hipnose, é possível explorar de forma mais profunda o inconsciente. Igualmente, alerta que a carga emocional que surge na regressão demanda que a terapia seja realizada por profissionais com a devida formação na área da saúde mental para ajudar devidamente o paciente a elaborar o aproveitamento da vivência experimentada.
     Weiss descobriu que as vivências acessadas pelos seus pacientes apresentam-se em dois padrões: o clássico, com riqueza de detalhes sobre aquela vida e os acontecimentos; e em fluxo de momentos-chave, onde o subconsciente entrelaça lembranças de momentos mais importantes e relevantes das experiências passadas que são capazes de elucidar o trauma oculto, favorecendo a cura.
     A hipótese central dele consiste na constatação de que o simples ato de rememorar ou revivenciar um trauma do passado longínquo resulta em cura emocional, tal como ocorre na terapia convencional. Entende que há uma notória possibilidade de que o agente da cura esteja na consciência de que a alma nunca morre e na compreensão das causas profundas dos conflitos psicológicos ou de enfermidades.
  Entre os saberes encontrados por Weiss, pela memória que transborda do inconsciente profundo de seus pacientes ou pelo diálogo com os Espíritos orientadores (que ele nomeia por mestres em sua obra), encontramos a imortalidade da alma, a reencarnação, a comunicabilidade entre os que partiram para o além com os que vivem aquém, aliás, muito presente em experiências espirituais vividas por pacientes terminais, aqueles que transitaram no estado de quase-morte, outros durante as sessões com o terapeuta ou, ainda, de forma particular em momentos de visualização terapêutica ou meditação.
   A terapia de vidas passadas demonstrou eficácia em casos de dores crônicas, alergias, asma, estresse, ansiedade, depressão, deficiências imunológicas, úlceras, gastrites, podendo melhorar lesões ou tumores cancerígenos, além de promover a tranquilidade, alegria e vontade de viver. Para o terapeuta, o elemento espiritual da terapia de vidas passadas – a certeza da imortalidade – tem um grande poder curativo ao afastar o paciente do medo e do sofrimento.Os laços de família são tecidos em razão dos encontros que as vidas sucessivas fomentam, pois, segundo suas constatações, renascemos várias vezes nos mesmos grupos e as simpatias ou antipatias são originadas nessas convivências sadias ou não que se perdem na esteira do tempo. O reconhecimento subconsciente dos encontros familiares do passado dá-se na repulsa ou atração pelo afeto de hoje, de forma espontânea.
            O condicionamento do carma é relativo, pois somos sujeitos de nossas escolhas mediante o livre-arbítrio. Não somos determinados por fatores genéticos e ou cármicos, muito embora as nossas ações condicionem de certo modo nossa evolução espiritual e, nesse caso, a terapia de vidas passadas parece fortalecer a vontade do paciente evitando que seja joguete de suas próprias tendências.
As dificuldades e obstáculos superados a cada reencarnação fazem o indivíduo progredir espiritualmente e as circunstâncias mais afligentes devem ser encaradas como “chances de progresso, não de atraso.” (Weiss, 2009, p. 82)
            Vale destacar que a terapia de vidas passadas abre um caminho para a espiritualidade, no sentido mais profundo, no cuidado com o paciente e estabelece a possibilidade de um diálogo natural sobre a morte e as doenças, psíquicas ou físicas entre o médico, seus pacientes e familiares.
            Outro saber pertinente aos achados de Weiss está na presença dos guias espirituais, os Bons Espíritos responsáveis por bem orientar os sujeitos na presente reencarnação, cujos laços de afinidade podem ser estruturados já em vidas anteriores.  Igualmente, o guia pode se manifestar através de médiuns experientes ou a ele mesmo, mediante o exercício da meditação ou visualização, práticas espirituais que ajudam o paciente na concentração mental.
            Certamente o leitor, se for espírita, está pensando que Brian Weiss não nos traz novidade alguma, pois recolhemos esses saberes nos textos de Allan Kardec. Todavia, encontramos na produção escrita de Weiss uma expressiva convergência com o pensamento kardequiano, o que acaba por reforçar não só a atualidade da filosofia espírita, como também, a abertura – ainda que tímida – de outros campos de saber à dimensão espiritual do ser humano. As profícuas descobertas de Weiss pedem ao pesquisador sensato e sem preconceito um contato mais atento com fenômenos dessa ordem e uma curiosidade epistemológica que transcenda as suas verdades pré-concebidas.

E o esquecimento do passado?
            Em seu diálogo com o cético, em O que é o Espiritismo?, Allan Kardec aborda o problema do esquecimento do passado que é matéria de objeção pelo inquiridor ao princípio da reencarnação. E, nesse sentido, esclarece o pensador da Doutrina Espírita: “Se em cada uma de suas existências um véu esconde o passado do Espírito, com isso nada perde ele das suas aquisições, apenas esquece o modo por que as conquistou.”[6]
            Há um olvido do passado, para a consciência atual do Espírito, cuja finalidade é permitir-lhe novas aprendizagens, a partir dos saberes e vivências adquiridos grafados em seu psiquismo sem estar preso a essas experiências, abrindo-lhe os horizontes do intelecto e da moralidade orientado pelas imensas possibilidades latentes em seu vir-a-ser.
Reencarnado, o ser humano traz de forma intuitiva e em suas ideias inatas o que adquiriu em ciência e em moralidade, mas detalhes das vivências passadas ficam ocultos no inconsciente profundo para que o indivíduo não se prenda a eles, com o risco de caminhar em um círculo vicioso, desviando-se do campo do aprendizado que deve empreender. Caso toda gente se lembrasse de tudo, viveríamos um caos porque com a nossa limitada cosmovisão perpetuaríamos preconceitos, disputas inúteis, ódios e, por certo, exigiríamos na vida presente respeito às prerrogativas que nos foram concedidas no passado, como classe social, valores étnicos e religiosos, enraizando ainda mais em nosso ser as ilusões que nos prendem ao sofrimento nas vidas sucessivas.
Entretanto, ao identificar o esquecimento do passado como uma ferramenta da solicitude de Deus em prol de seus filhos, o Espiritismo jamais fez dele um dogma. Como doutrina progressista, nele não há qualquer prescrição proibitiva nesse sentido, muito pelo contrário, porque tendendo a absorver os progressos científicos de campos distintos do conhecimento, como pretendia Kardec, o Espiritismo é dialógico em relação às contribuições que são confirmadas pelo mais rigoroso e atual método científico.
Aliás, a lembrança de vidas passadas é uma possibilidade do ser humano porque acessadas essas memórias extracerebrais e trazidas para o consciente, se traduzem em experiência transpessoal que fala fundo à alma sobre a sua imortalidade e progressividade espiritual. Esse emergir de lembranças de vidas passadas tem sido alvo de registros de diversos pesquisadores como Albert Rochas (1837-1914), Hernani G. Andrade (1913-2003), Prof. Hamendra Nath Banerjee (1929-1985) e Dr. Ian Stevenson (1917-2007).
Esse fenômeno merece estudo, seja daqueles que se interessam pelo tema, que desejam fazer dele objeto de suas pesquisas ou para os que percebem a fertilidade do diálogo da Ciência Espírita com as pesquisas contemporâneas sobre reencarnação. A lembrança das vidas passadas, enfim, é um fato que colabora com a difusão do princípio da reencarnação e corrobora a terapêutica psicológica que dela se serve e que tem sido útil para o alívio do sofrimento humano. Contrapô-las com as armas da proibição ou discursos em prol de uma cultura do medo, que nada têm a ver com o Espiritismo, é tão ingênuo quanto negá-las por desconhecê-las. Aqui, como noutras questões, o bom senso é sempre bem-vindo.

Ian Stevenson



[1] Educador e pesquisador.
[2] Revista Espírita, agosto de 1865. O que ensina o Espiritismo.
[3] Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas. Vocabulário Espírita. REENCARNAÇÃO
[4] WEISS, Brian. A cura através da terapia de vidas passadas. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.
[5] Vide Revista Espírita Revista Espírita de Janeiro de 1860 - O Magnetismo perante a Academia.
[6] KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 55. Ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007, p. 127.