sexta-feira, 29 de abril de 2011

As horas iniciais após o suicídio


Uma das situações mais dolorosas que o ser humano pode enfrentar em sua estada na Terra é quando se depara com a morte de algum ente querido. A morte, por si só, já causa sofrimento a todos que mantiveram contato com aquela criatura que desfalece.

Ressalta-se que o sofrimento pode ser ainda maior para aqueles que detêm laços de família com quem acaba de desencarnar. Agora, existe uma situação ainda pior do que a morte natural: ver-se em presença do suicídio de algum familiar.

Segundo o Espírito Camilo Cândido Botelho[1] “em geral aqueles que se arrojam ao suicídio, para sempre esperam livrar-se de dissabores julgados insuportáveis, de sofrimentos e problemas considerados insolúveis pela tibiez da vontade deseducada, que se acovarda em presença, muitas vezes, da vergonha do descrédito ou da desonra, dos remorsos deprimentes postos a enxovalharem a consciência, conseqüências de ações praticadas à revelia das leis do Bem e da Justiça”.

Camilo, que um dia já foi classificado como réprobo na ordem de elevação dos Espíritos e hoje se encontra radiante de luz, explica com maestria, por experiência própria, o que se passa na mente da criatura que atenta contra sua própria vida. Porém, uma indagação permanece, o que acontece logo em seguida a este ato?

O próprio Espírito Camilo Cândido confessa e, com isso, esclarece[2] que “a linguagem humana ainda não precisou inventar vocábulos bastante justos e incompreensíveis para definir as impressões absolutamente inconcebíveis, que passam a contaminar o ‘eu’ de um suicida logo às primeiras horas que se seguiram ao gesto brutal de que usei, para comigo mesmo, passaram-se sem que verdadeiramente eu pudesse dar acordo de mim. Meu Espírito, rudemente violentado, como que desmaiara, sofrendo ignóbil colapso. Os sentidos, as faculdades que traduzem o ‘eu’ racional, paralisaram-se como se indescritível cataclismo houvesse desbaratado o mundo, prevalecendo, porém, acima dos destroços, a sensação forte do aniquilamento que sobre meu ser acabaram de cair. Fora como se aquele estampido maldito, que ate hoje ecoa sinistramente em minhas vibrações mentais -, sempre que, descerrando os véus da memória, como neste instante, revivo o passado execrável – tivesse dispersado uma a uma as moléculas que em meu ser constituíssem a Vida! (...). O suicida, semi-inconsciente, adormentado, desacordado sem que, para maior suplício, se lhe obscureça de todo a percepção dos sentidos, sente-se dolorosamente contundido, nulo, dispersado em seus milhões de filamentos psíquicos violentamente atingidos pelo malvado acontecimento. (...) perde-se no vácuo...ignora-se”.

Como se vê, o Espiritismo levanta o véu existente entre os que aqui ficaram, repentinamente desassistidos, e o dito réprobo através das comunicações que chegam diariamente de além-túmulo em todos os cantos do Planeta Terra. A meu ver, esta é um dos compromissos, sim podemos chamar de compromisso, mais belos da Ciência Espírita.

Ainda, Allan Kardec não poderia ser mais claro do que foi na obra O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo quando alertou[3] que “não há, sob o aspecto da natureza e da duração do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme; a única lei geral é que toda falta recebe sua punição, e toda boa ação e sua recompensa, segundo o seu valor”.

Tomando-se essa inserção por norte chegaremos fatalmente a conclusão de que nada passa longe dos olhos de Deus, nenhum ato, bom ou ruim, salutar ou enfermo, avarento ou caridoso.

Dessa forma, é lógico que o suicida, o réprobo, logo nas primeiras horas do ato maldito sofrerá as suas consequências nos moldes da lição dada pelo Espírito Camilo e é justo que assim seja aos olhos do Criador. Mas por certo que Deus não abandonará seu filho, porém, estas são cenas para os próximos capítulos.

Como será o desenrolar deste réprobo com base na obra O Céu e o Inferno de Allan Kardec? Isto nós veremos juntos no desenrolar de nossas publicações.

No entanto, resta aqui o alerta para nos mantermos sempre em oração, principalmente em momentos que enfrentamos extremas dificuldades. Não percamos a fé na inteligência suprema e causa primária de todas as coisas.

Por fim, não pode se deixar de referir que a prática da prece faz com que mantenhamos nossa energia elevada e assim não ofereçamos vazão a orientações malévolas de irmãos menos adiantados nas escalas de evolução, além de ser um ato de amor.

 


José Artur M. Maruri dos Santos

Advogado e Colaborador da União Espírita Bageense









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[1] PEREIRA, Ivonne. MEMÓRIAS DE UM SUICIDA. Coleção Yvonne Pereira. Editora FEB. p. 39

[2] PEREIRA, Ivonne. MEMÓRIAS DE UM SUICIDA. Coleção Yvonne Pereira. Editora FEB. p. 40-41.

[3] KARDEC, Allan. O CÉU E O INFERNO (OU A JUSTIÇA DIVINA) SEGUNDO O ESPIRITISMO. Editora IDE. p. 59

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Harmonia familiar




Vivemos num mundo de provas e expiações, onde existe muita violência, egoísmo, corrupção, guerras, entre outros problemas. Dentro deste contexto esperamos um mundo melhor que virá, com certeza. Mas este mundo tão aguardado depende, e muito, de nós mesmos. Por vezes depositamos no próximo, as nossas esperanças ao invés de procurarmos fazer a nossa parte.

Dentro deste sistema, a família é, com certeza, uma peça fundamental para um mundo melhor. Ruy Barbosa, enquanto paraninfo de alunos do Colégio Anchieta, em 1903 disse o seguinte durante seu discurso: a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. Multiplicai a célula, e tendes o organismo. Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sangüínea. Os homens não inventaram, antes adulteraram a fraternidade, de que o Cristo lhes dera a fórmula sublime, ensinando-os a se amarem uns aos outros: Diliges proximum tuum sicut te ipsum. (Amarás teu próximo como a ti mesmo).

A família faz parte de um conjunto, e estando ela corrompida, com certeza esse conjunto também estará. A sociedade, a pátria e todo o planeta será afetado, do mesmo modo que uma laranja podre em um cesto pode contaminar todas as outras.

Nenhum povo poderá ser admitido como civilizado se não se basear no culto permanente de valores morais e de justiça para com todos. E a correção desses valores deve começar já na infância.

Desde cedo é possível notar nas crianças os instintos bons ou mal que elas trazem de existências anteriores. Os pais devem estar atentos.

Santo Agostinho nos alerta quando diz que todos os males se originam do egoísmo e do orgulho. Espreitem, pois, os pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas.

Quando reencarnamos numa família, na maioria das vezes, ou somos espíritos simpáticos uns aos outros ou estranhos, afastados por alguma antipatia anterior. E é neste lar, neste mundo que teremos que conviver como família, convivendo com nossas diferenças, onde os mais adiantados moralmente auxiliam os que não enxergaram ainda a lei de Deus.

Não podemos ser omissos dentro do nosso próprio lar e esperar por um mundo melhor lá fora. Todos somos peças de uma grande engrenagem.

Cabe a nós, no âmbito familiar, formar o futuro de nosso planeta. Cabe a nós plantar a semente do amor na alma de cada um que convive conosco, para que um dia essa semente cresça e venha a dar bons frutos. Cultuemos, assim como disse Ruy Barbosa, a honra, disciplina, fidelidade, enfim as leis divinas dentro de nosso lar.

Eduquemos nossos filhos, assim como orientou Santo Agostinho, corrigindo-os desde pequenos, o quanto antes, para que cresçam e se tornem homens retos no caráter e na moral e que possam distinguir o certo do errado. Não podemos nos tornar pais omissos e delegar a nobre missão de conduzir estas almas, recém-chegadas, ao caminho do bem. Não podemos delegar esta tarefa a ninguém.

Deus não dá uma prova maior do que nossas forças podem suportar.
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Gianni Salvini - articulista espírita e colaborador da União Espírita Bageense.
 
E-mail: sgtsalvini@hotmail.com