sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

NÃO-VIOLÊNCIA, PERDÃO E COMUNICAÇÃO COMPASSIVA



Vinícius Lima Lousada[1]

[Jesus] Condena, por conseguinte, a violência, a cólera e até toda expressão descortês de que alguém possa usar para com seus semelhantes. – Allan Kardec[2]


JESUS ENSINAVA A NÃO-VIOLENCIA

Considero Jesus um pacificador por excelência, talvez ainda incompreendido por muitos cristãos no mundo em que vivemos. Sua postura de acolhimento dos excluídos e estigmatizados, de radical crítica à hipocrisia e exploração religiosa era uma afronta pacífica à visão de mundo exclusivista e sectária presente no seio da sociedade onde escolhera reencarnar.
Em seus ensinos condenara qualquer forma de violência ao próximo, da verbal à física, e estabelecera como fundamentos de sua doutrina o amor ao Pai Celeste e ao próximo[3]. Para ele o comportamento reto deveria se orientar na justa medida[4] e o caminho de elevação espiritual deveria ser trilhado pelo interessado mediante o trabalho de aquisição do conhecimento a respeito das coisas do Reino[5], objetivo maior da existência.
No conjunto de propostas de Jesus de Nazaré estava o revolucionário perdão[6]. Revolucionário porque a justiça dos homens de sua época ainda se estruturava no “olho por olho, dente por dente”[7] levando-se o ofensor ou agressor a sofrer pelas mãos dos homens aquilo que imputara às suas vítimas. Isso era legal e moral no tempo de Jesus, vejamos o nosso atraso espiritual naqueles tempos.

O PERDÃO COMO PRÁTICA RESTAURATIVA

O perdão viria como alternativa a ser aplicada no cotidiano, nas questões mais simples até os conflitos entre os grupamentos humanos, os mais distintos. Surgia, então, uma proposta de ruptura com o vicioso ciclo da violência, para a construção de um circuito virtuoso de justiça e restauração das relações sociais em termos pacíficos.
Sabedor do princípio da pluralidade das existências, o Mestre de Nazaré vinha propor a interrupção dos resultados funestos da violência que se estenderiam nas vidas sucessivas de Espíritos até então beligerantes, por isso postulava a reconciliação com o adversário como compromisso superior à adoração a Deus[8], enquanto transitássemos pelos caminhos terrenos com aquele.
A reconciliação só é possível com o perdão. O perdão liberta ofensor da dívida contraída e o ofendido do desejo de vingança ou justiça com base em seus parâmetros pessoais, estabelecendo para ambos um novo rumo, pautado na ética da compreensão que, por sua vez, conduz ao exercício da indulgência com os limites alheios e à reparação da falta perpetrada pela prática do bem.
                Claramente, o perdão consiste numa atitude não-violenta porque preconiza o desapego da ânsia por uma resposta ao ofensor na mesma medida e provoca a liberação do hábito infeliz de julgar o próximo que consiste, conforme os estudos de Comunicação Não-violenta (CNV) do psicólogo Marshall Rosenberg[9], numa forma de violência e de atitude sem empatia e compaixão, fechada ao encontro com o próximo.
                Nem sempre é possível concretizar uma reconciliação efetiva, transformando os vínculos que enfermaram em algo saudável, mas, superar o impulso agressivo, o desejo de vingança ou de manutenção de uma querela interminável, que só nos atrasa espiritualmente, já é um bom sinal de progresso moral em nosso roteiro. Destaquemos que perdoar, na perspectiva kardequiana, é responder o mal que nos fizeram com o bem, esquecendo a falta, quer dizer, desconsiderando-a.
Treinar o perdão exige atenção quanto às nossas atitudes e uma escuta compassiva, na vida de relação, para que compreendamos as necessidades do outro. Para o criador da CNV, toda a atitude violenta revela uma necessidade não atendida, diríamos nós, um sofrimento camuflado que aturde o ofensor enredado na ausência de lucidez ante a sua dor.
Aliás, muito do nosso modo de nos comunicarmos é alienante, sem empatia ou compaixão pelo sofrimento alheio. Culturalmente e através da má-educação aprendemos a desenvolver um jeito de falar e manifestar nossos anseios de forma entrecortada por arroubos de cólera, expressões grosseiras ou impaciência, que evidenciam o nosso estágio de Espíritos inferiores.
Recordemos que no contexto do diálogo com os Espíritos, Kardec dissera que a linguagem revela o lugar dos mesmos na escala espírita. Trazido para a questão do nosso modo de nos comunicarmos, no mínimo, é um belo alerta para ser considerado, especialmente, nesses dias de transição planetária em que somos chamados a contribuir em prol de nossa própria ventura, levando em conta a afirmação de Jesus: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.”[10]

UM PASSO PARA A PAZ
        
        Um passo importante para a edificação da paz em nosso cotidiano, lugar onde ainda cultivamos a violência, está na possibilidade de superarmos a forma de comunicação alienante que aprendemos pelo exercício da CNV ou de algum método que nos ensine um modo mais amoroso de nos expressarmos. A comunicação alienante é aquela destituída de empatia, quero dizer, sem a “compreensão respeitosa sobre o que os outros estão passando.”[11]
Mas quando falamos sem compaixão? Numa síntese do que ensina Marshall[12], podemos dizer: exatamente quando nossas conversas se traduzem em julgamentos a respeito dos outros; analisamos a vida alheia sob o nosso prisma pessoal, a partir de nossas necessidades e valores; no instante em que classificamos os sujeitos e estabelecemos comparações; se negamos a nossa parcela de responsabilidade quanto ao que fazemos e seu efeito para o próximo; ou, ainda, quando a nossa fala apresenta exigências para com as pessoas que nos relacionamos.
A superação de uma fala nada compassiva está em nos apropriarmos de outra perspectiva, de uma fala generosa e não-violenta que possa traduzir com serenidade nossos sentimentos ou necessidades. Pode parecer uma leitura romântica dos conflitos humanos, mas se aprendermos a nos comunicar em paz – a CNV é uma bela ferramenta nesse sentido -  seremos capazes de multiplicar um modo de ser e estar no mundo que rompa paulatinamente com o paradigma incrustado em nosso psiquismo de dominação, competição e negação da diferença, por isso, fomentador da violência em suas diversas faces.
Na Filosofia Espírita, aprendemos com os Imortais que o conhecimento de si mesmo é a chave do progresso moral do Espírito[13]. Conheçamo-nos e verifiquemos quanto de energia de violência carregamos em nós e se estamos, de fato, desejosos de fazermos que a Terra seja um dia uma morada de paz.



[1] O autor é educador, escreve no blog “Saberes do Espírito” e reside em Bento Gonçalves/RS. E-mail: vlousada@hotmail.com.
[2] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XI, item 4.
[3] Mateus 22: 34 a 40
[4] Lucas 6: 31.
[5] Mateus 6: 19.
[6] Mateus 6: 14 e 15.
[7] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XII, item 8.
[8] Mateus 5: 23 e 24
[9] ROSENBERG, Marshall. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
[10] Mateus 5:9.
[11] ROSENBERG, Idem, p. 150. 
[12]  Idem, p. 48.
[13] O Livro dos Espíritos, questão 919-a.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SEJAMOS PELA PAZ



Na Lagoa - VLL (2014)

Vinicius Lousada[1]


“(...) através da nuvem sombria que vos envolve e em cujo seio ruge a tempestade, observai que já surgem os primeiros raios da era nova!”[2]


Os últimos acontecimentos envolvendo atos de terrorismo na França, berço do pensamento iluminista e dos direitos do homem e do cidadão, nos colocam a pensar, mais uma vez, em torno do tema da paz.
A paz é coisa séria, necessária ao processo civilizatório e que demanda articulação entre a diversidade de crenças, atitudes, etnias, culturas para que, em regime de convivência pacífica, a diferença não seja objeto de exclusão ou motivação insensata para a violência.
Contudo, no Ocidente, somos herdeiros de um processo civilizatório cujo paradigma dominante se traduz, por incrível que pareça, por um desejo de negação da diferença, dominação e exclusão do desigual. Esse paradigma fundamentou o imaginário dos colonizadores mundo afora e da exploração das gentes supostamente não civilizadas, segundo o crivo eurocêntrico do passado.
            Muitos povos vivem, há séculos, marginalizados política, cultural e economicamente experimentando, assim, o amargor de uma inferioridade inventada e imposta, com seus efeitos colaterais danosos que se estendem na esteira do tempo, alimentando a mágoa, revolta e o desejo de aniquilação do opressor em várias gerações.
Nada obstante, a opressão não justifique qualquer forma de violência, ela explica parte da causalidade dessa sombria manifestação humana que ainda viceja em vários contextos. Mas é bom que se diga que ela é um tema complexo, sendo merecedora de abordagens e ações referenciadas em um olhar transdisciplinar e profundamente compassivo.
     Parafraseando Ubiratan D’Ambrósio[3], educador e pesquisador brasileiro que teve ensejo de problematizar o paradigma dominante, podemos dizer que as três grandes distorções deste modelo foram: a leitura das diferenças humanas compreendidas como estágios diversos de evolução, fundamentando uma visão hierárquica entre pessoas e saberes; a precariedade material, ou até simplicidade, como resultado da preguiça de alguns povos e uma visão preconceituosa da espiritualidade alheia como falta de racionalidade científica e, por último, a concepção de que a preservação de patrimônio natural e cultural dos povos originários consistiria em obstáculo ao progresso e à civilização.
            No campo dos valores esse paradigma fomenta a arrogância (do ter e do saber), a inveja (pautada no espírito competitivo e numa ignorância total da realidade interdependente da vida) e a prepotência (traduzida nos processos históricos de dominação, genocídio, epistemicídio e exploração). Em bom vocabulário espiritista, estamos diante de uma visão de mundo que se nutre e fomenta o egoísmo.
O mestre Allan Kardec, ao reflexionar sobre as relações entre educação e egoísmo, obstáculo ao nosso trânsito espiritual para mais elevadas condições na escala espírita, diz-nos:           
“De todas as chagas morais da sociedade, o egoísmo parece a mais difícil de extirpar. Com efeito, ela o é tanto mais quanto mais alimentada pelos mesmos hábitos da educação. Tem-se a impressão que, desde o berço, a gente se esforça para excitar certas paixões que, mais tarde, se tornam uma segunda natureza, e nos admiramos dos vícios da sociedade, quando as crianças os sugam com o leite.”[4]

Da citação do mestre é fácil depreender que os processos educativos a que somos acometidos, nas circunstâncias espirituais necessárias à superação de nós mesmos, recebemos, não raro, a excitação das paixões inferiores e incentivos negativos que reforçam o egoísmo como diretriz comportamental, lastimavelmente. Aliás, muitas posturas familiares errôneas, identificadas por Allan Kardec no século XIX, ainda estão presentes hoje e servem de reforço para identificação negativa para com condutas que vão do egoísmo infantil até os crimes de lesa-humanidade.
Numa sociedade orientada por um horizonte materialista, em que o ter é mais importante que o ser, cujos valores autoafirmativos em vigor são disseminados nas instituições, as mais variadas (até as que se referenciam como de “educação”), pode parecer ridículo propor um olhar sobre a vida que abarque valores como cultura de paz, altruísmo ou alteridade. A palavra de ordem ainda é a da competição por coisas que a impermanência da vida corporal revela como quiméricas e, vale lembrar, que o ser humano se posta de forma belicosa na defesa de suas ilusões.
Fritjof Capra, físico teórico e ativista do paradigma sistêmico, postulou oportunamente: “A mudança de paradigmas requer uma expansão não apenas de nossas percepções e maneiras de pensar, mas também de nossos valores.”[5] Penso, por minha vez, que só a educação integral do ser, com base em novos horizontes epistemológicos e numa ética da diversidade, pode fazer uma revolução paradigmática em que a cultura de paz – quer dizer, da não violência ativa, da não-cooperação com qualquer forma de opressão, violência ou discriminação de outro ser – seja um forte valor orientador.
Quem sabe o saber da reencarnação, compreendido em bases científicas e na problematização filosófica necessária, não poderia trazer como consequência uma espiritualidade de base plural, laica, desapegada de dogmas, sem projeto de hegemonia ideológica, livre da intolerância, da negação da razão como um valor pertinente para a constituição de uma relação saudável com o sagrado, tanto quanto, com o outro, aquele que é diferente de nós?
O ataque a Charlie Hebdo, em Paris, revela duas facetas terríveis do egoísmo elevado ao grau superlativo que ainda vigora na alma humana: o fundamentalismo - se de fato o ato se fundamentar numa vingança por Maomé contra a equipe do periódico – e a xenofobia, em voga na Europa a partir de movimentos de ultradireita que se posicionam, na esfera pública, com campanhas contra a expansão do Islã e a integração dos mulçumanos na comunidade européia.
A xenofobia é um fundamentalismo étnico e nacionalista que se expressa numa aversão a pessoas estrangeiras ou qualquer manifestação cultural que delas advenha, comum numa Europa com dificuldades de assimilar a diferença e lidar com as exigências que ela apresenta na agenda política e social.
Quanto ao fundamentalismo religioso, eu o considero uma expressão falsa de transcendência de indivíduos cuja fé se torna fechada ao diálogo com outras lógicas de raciocínio na relação com o sagrado. O fundamentalista cerra o coração ao diálogo possível com irmãos inseridos noutras crenças, que aderiram a diferentes formas de espiritualidade.
Nesses dias de intolerância, ódio e xenofobia, sejamos da paz movendo-nos a serviço desta como um valor fundamental em nossas existências. Procuremos estender os nossos horizontes intelectuais a outras epistemologias, modos de pensar, viver e produzir a vida, tanto quanto, à diversidade religiosa e étnica.
Somos seres de transcendência, de superação dos interditos da matéria e das barreiras culturais para, através da pluralidade das existências, prosseguirmos intimoratos em nossa jornada rumo a novos patamares da evolução, na medida em que a inteligência se apropria das Divinas Leis e aprimoramos a nossa vida moral no sentido do amor.
Abraçados na causa da paz, façamos dela uma pauta pertinente nos processos educativos em que atuamos. Assumamos posturas menos belicosas no cotidiano, exercitemos a nossa vocação à comunicação compassiva, ao encontro empático com o outro, fazendo jus aos valores espirituais que dizemos abraçar.
Eduquemos nossos filhos numa ética da diversidade, onde a abertura ao outro, ao diferente, seja uma presença no campo da solidariedade e da autoeducação.  
No caso de sermos adeptos da Filosofia Espírita, nos esforcemos por educar nossos filhos com base no que ela tem de melhor, sem nos fecharmos a outras contribuições, que seria uma disparatada versão de fundamentalismo enraizado na ignorância.
Entre os valores humanos manifestos no Espiritismo está a tríade que se configura na caridade, segundo o registro de Allan Kardec: benevolência, perdão e indulgência[6]. Observemos que o fundador da Ciência Espírita interroga os Espíritos a respeito do sentido da palavra caridade no que tange ao entendimento de Jesus, ou seja, em conformidade com os seus luminosos ensinos.
Esses três valores ainda são alvo de comentário de Kardec no texto em questão, recordando que “O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça. pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos.”
Para que nossos filhos manifestem ao mundo uma cultura de paz alicerçada na disposição para o diálogo, na compreensão das diferenças, no saber aprender com outras perspectivas, inspirada na humildade epistêmica tão necessária à complexidade dos tempos vividos, é necessário que sejamos, nós outros, também atentos aquela tríade, a fim de que nos façamos pacificadores em nosso trato com eles e nas lutas que nos cercam. Não esqueçamos, o exemplo é excelente ferramenta pedagógica.
            Paz e bem!





[1] Educador e editor do blog www.saberesdoespirito.blogspot.com .
[2] Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade. In: Revista Espírita, Outubro de 1886.
[3] D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Athena, 2001.
[4] KARDEC, Allan. Primeiras lições de moral da infância. In: Revista Espírita, fevereiro de 1864.
[5] CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica. São Paulo: Cultrix, 2006.
[6] O Livro dos Espíritos, questão 886.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sobre o futuro do Espiritismo




Vinícius Lima Lousada[1]

“O Espiritismo é a grande niveladora que avança para aplainar todas as heresias. Ele é conduzido pela simpatia; ele é seguido pela concórdia, pelo amor e pela fraternidade; ele avança sem abalos e sem revolução; ele nada vem destruir, nada derrubar na organização social; ele vem a tudo renovar.”                                                                               – Um filósofo do outro mundo[2]

Que será do Espiritismo nesses dias de pós-modernidade desvairada, de afetos líquidos, de certezas nada certas, de fidelidades transitórias à epistemologia espírita? Como se portará essa filosofia diante de escassez de sabedoria no copo transbordante de tanta informação veiculada, não raramente, superficial?
Como lidará a Doutrina dos Espíritos, no século XXI, com tamanha mídia a seu serviço nem sempre apresentando o pensamento lúcido de Allan Kardec, forjando um caráter de religião nacionalista – que o Espiritismo com Kardec nunca teve – com pregações, cânticos e rezas que parecem configurar um novo evangelismo, pouco identificado com a tradição filosófica em que o mestre inseriu a Doutrina, desde O Evangelho segundo o Espiritismo, ao apresentar como seus precursores Sócrates e Platão?
Que serão dos colóquios naturais com os desencarnados em tempos que um novo moisaísmo parece ecoar nas mentes e proibir, sem chancela alguma do ensino coletivo dos Espíritos, a arte de dialogarmos com os supostos mortos, apesar das instruções de Kardec sobre as evocações?
          As pessoas solitárias não poderão chamar seus amados, domiciliados no além, para um abraço a mais, uma conversa a mais, uma elucidação sobre as leis da vida e suas consequências? Não poderá o coração em dúvida rogar ao seu benfeitor espiritual aconselhamentos enobrecedores? Até quando indagar os Espíritos sobre temas sérios, a despeito do ensino kardequiano, vai ser algo visto como coisa permitida somente para gente de nível evolutivo inencontrável na Terra?
E os médiuns, terão de esquecer que o são e recalcarão as suas potencialidades psíquicas para se ajustarem ao adestramento conduzido por alguns agentes que ignoram a pedagogia da mediunidade proposta por Kardec ou não guardam na alma qualquer vivência mais profunda com o fenômeno espírita?
Como se comportará a filosofia composta pelos Espíritos e Kardec diante da negação do diálogo e do debate que se coloca para dar lugar aos discursos “iluminados” que não suportam a dúvida e a inquietação filosófica?
O Espiritismo suportará aqueles que se creem com credenciais maiores que as de Kardec ao ponto de ignorarem a sua obra para criarem sistemas de ideias particulares e exóticas?
Mesmo que a arrogância não ouça o pensamento crítico, se faça excludente com os que se dedicam a pensar filosoficamente e venha a se dedicar a um discurso obscurantista – que promova a ignorância como virtude e achincalhe a inteligência em nome da fé cega, estigmatizando-a de vaidade –, o Espiritismo prosseguirá no ar, fazendo vibrar as fibras íntimas dos que se sentiram tocados no coração por sua filosofia, adotando-a como referência existencial.
O Espiritismo independe dos homens e das mulheres ou das instituições. É mensagem dos Espíritos à humanidade domiciliada na carne e, mesmo que o seu ensino seja proibido – algo que seus adversários desistiram, faz tempo - ele ainda existirá.
O Espiritismo está na Natureza, está no Espírito, nas leis que a vida encerra e revela em sua majestade, delineando uma ideia, a nós outros, acerca da Inteligência Suprema e de nossa própria pequenez ante à Sapiência Divina.
Será uma lástima se o saber espírita, com todo o seu potencial transdisciplinar, como ciência do infinito em permanente diálogo criativo com as leis naturais, seja encarcerado nas nossas referências religiosas do passado.
O futuro, diz o adágio popular, a Deus pertence. Mas, quero crer que os limitantes impostos ao Espiritismo pela falta de lucidez em voga se dissiparão ante o ensino progressivo e coletivo dos Espíritos que se apresentam diuturnamente à grande família humana, independente de credo, partido, questões étnicas, religião, condições econômicas ou posições ocupadas na sociedade.
O Espiritismo, com Kardec, prossegue. E o seu futuro? O mesmo dos grandes ideais: como uma fênix mitológica ressurgirá sempre das cinzas a que fora reduzido para, em novas possibilidades, renovar tudo à sua volta.
Queiram as mentes estreitas ou não, o Espiritismo prosseguirá em sua tarefa de renovação, apesar delas, sendo que os Espíritos são os seus maiores propagadores, como um dia ensinou Allan Kardec.
Construamos, enfim, uma convicção espírita na base sólida da fé raciocinada e estudemos Kardec, na fonte e em profundidade, para que através de nós o Espiritismo seja Espiritismo, com os seus princípios, desdobramentos e a lucidez que o caracteriza desde as bases kardequianas.




[1] Educador. E-mail: vlousada@hotmail.com.
[2] Revista Espírita, junho de 1863. O futuro do Espiritismo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Amor e liberdade



(SOCIEDADE, 27 DE JANEIRO DE 1860. MÉDIUM, SR. ROZE)

Deus é amor e liberdade. É pelo amor e pela liberdade que o Espírito se aproxima dele. Pelo amor desenvolve, em cada existência, novas relações que o aproximam da unidade; pela liberdade escolhe o bem que o aproxima de Deus. Sede ardentes na propagação da nova fé. Que o santo ardor que vos anima, jamais vos faça atingir a liberdade alheia. Evitai, por uma insistência muito grande junto à incredulidade orgulhosa e temível, exasperar uma resistência meio vencida e prestes a render-se. O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno. Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesses morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor à liberdade.

Abelardo

Revista Espírita, abril de 1860  

domingo, 16 de março de 2014

Lidando com a cólera



“(...) a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede se faça muito bem e pode levar à prática de muito mal. Isto deve bastar para induzir o homem a esforçar-se pela dominar. (...)” ¹

Vinícius Lousada – vlousada@hotmail.com


Por que sentimos raiva? Qual a natureza ou origem da cólera em nossa intimidade? Qual o motivo de assumirmos posturas explosivas perante as pessoas ou circunstâncias? E como podemos lidar com isso?

Essas são perguntas que deveríamos nos fazer quando identificamos no rol de nossos hábitos a repetição de atitudes encolerizadas, em que, agressivos, despejamos a raiva nos outros, encharcando-nos, por sua vez, de fluidos venenosos.
Como seres imortais, sedimentamos no psiquismo, ao longo das vidas sucessivas, uma série de conteúdos psicológicos, saberes, crenças e posturas. Conectados a uma complexa rede de relações sociais em nossos encontros com o mundo e seus desafios quotidianos desenvolvemos nossas aquisições intelectuais e morais.
A agressividade que portamos há muito, desde quando o princípio espiritual transitava na esfera do reino animal, vem sendo lapidada pouco a pouco no confronto com outros conteúdos que passaram a ser apreendidos, seja na convivência que os laços de afeto facultaram, seja no desabrochar dos raciocínios fomentados pelos empreendimentos que somos levados a engendrar com vista ao atendimento das necessidades básicas de sobrevivência.
Mas, ainda assim, trazemos uma parcela de agressividade no íntimo que se expressa pela raiva. É importante, nesse caso, que aprendamos a lidar com esse sentimento a fim de que possamos superá-lo, num processo auto-educativo, evitando acostumarmo-nos a ceder à animalidade que trazemos, como acontecem nesses acessos de raiva em que, verdadeiramente, nos bestializamos.
A percepção correta da raiva é um procedimento indispensável no caminho daquele que busca educar-se e conquistar a paz interior. “O exame profundo é o remédio mais recomendável para a raiva (...)” ². Aliás, somente podemos moldá-la convenientemente na medida em que a reconhecemos e nos ocupamos de tratá-la.
Avaliando que não estamos prontos, que somos Espíritos cuja “incompletude” é qualidade imanente à nossa vocação de ser mais, uma análise cuidadosa das nascentes de nossas emoções ajudaria muito a identificarmos o quanto de raiva ainda somos portadores.
Percebendo a sua presença, seria interessante que nos olhássemos no espelho, que enxergássemos nossa fisionomia retratada no reflexo revelado, denotando o estado de inferno pessoal em que ficamos quando a cólera está no comando.
Considerando que ela não resolve nossos problemas, ao contrário, só gera mais sofrimento, piora tudo e que também põe em risco a saúde corporal, o seu reconhecimento pode instigar forçosamente o inteligente desejo de supera-la.
É obvio que, geralmente, utilizamo-nos de mecanismos de defesa negando essa enfermidade da alma, apontando como sua causa a herança genética, ou supostos processos educativos castradores em que teríamos aprendido a violência como única linguagem possível. Porém, essencialmente não somos violentos, a violência é um estado transitório a que aderimos por decisão própria porque, como atesta o Espírito Hahnehann, todas “(...) as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito. (...)” ³.
Mais uma razão para o desejo de superação consciente da cólera: ela está enraizada em nossas imperfeições morais e, ao trabalhá-la, estamos vencendo concomitantemente o homem velho, com vistas à felicidade que galgaremos nesse aprendizado de transcendência. E o vício moral que ativa a cólera – esse estado de temporária bestialização – é justamente o orgulho ferido, expresso no mais singelo laivo de personalismo, na irritabilidade constante, no desejo de dominação e materializado nos impulsos agressivos para com o semelhante ou na direção das coisas ao redor.

Trabalhando a raiva, moldamos o nosso orgulho. Envolvendo-a em energia serena, que edifica sempre, na construção de sentimentos purificadores 4, iluminamo-nos e avançamos em espiritualidade.
Assim sendo, para tecermos um estado de alma pacificada, procedamos ao reconhecimento da cólera, admitindo-a para a seguir, contê-la com a calma, sem estruturar uma guerra íntima, mas um esforço contínuo de reformulação moral, orientando-nos com os saberes espíritas e agindo diariamente alicerçados no amor preconizado por Jesus Cristo.
Dentre as estratégias que se pode utilizar para esse objetivo, uma ferramenta útil consistiria na tentativa de treinarmos a nossa capacidade de sorrir, e, por conseqüência, de relaxarmos a face. Sorrir aliviando as tensões, rindo saudavelmente de nossas dificuldades, procurando desenvolver o bom humor e uma disposição pessoal para a felicidade.
Desse modo irradiaremos simpatia e nos condicionaremos a conter a cólera através da transformação do hábito da fúria pela prática meditação consciente.
Respirar e orar para pensar antes de falar ou reagir, consumindo a raiva como se fosse um combustível a ser desgastado pelo amor, também é um recurso extraordinário a ser tentado nesse tentame renovador.

Cada um de nós, por amor ao próximo e a si mesmo deve empenhar a sua criatividade para aprender maneiras de lidar com a cólera, superando a postura reativa das manifestações modernas do famigerado duelo e da vingança, presentes nas condutas atormentadas de nossa sociedade, tão carente de Jesus e da compreensão de onde se encontram seus verdadeiros interesses.

1- O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IX item 9.
2- NHÃT HANH, Tich. Aprendendo a lidar com a raiva. Rio de Janeiro: Sextante, 2003, p. 84.
3- O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IX item 10.
4- XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 22. Ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2000, p. 110.


Texto extraído da Revista Internacional de Espiritismo – Ano LXXX – Nr. 10 – Novembro de 2005, págs. 518 e 519.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Atravessando Decepções


Vinícius Lousada



“(...) A infelicidade é a alegria, é o prazer, é o tumulto, é a vã agitação, é a satisfação louca da vaidade, que fazem calar a consciência, (...).” – Delphine de Girardin[1] [1]



Todo mundo que se encontra reencarnado na Terra, de uma forma ou de outra, já se viu às voltas com as decepções ocasionadas por experiências que não deram certo. Os malogros nas expectativas geram em nosso íntimo um sentimento de frustração capaz de nos levar às lágrimas ou até mesmo, se formos descuidados, a um quadro de desequilíbrio emocional.

A reação diante das desilusões varia de acordo com o nível de consciência, de quem as experimenta, com relação à dinâmica da vida. Existem pessoas que, em suas análises descabidas, se revoltam e põem-se a culpar terceiros de seus insucessos; alguns também dizem ser por causa dos Espíritos desencarnados o mau resultado de seus empreendimentos. Muitos se revoltam, abandonam as crenças que “deveriam” – no seu mesquinho entendimento – facilitar-lhes o acesso às coisas boas da Terra.

Ainda há aqueles que se crêem perseguidos pelo azar ou que pensam terem nascido para sofrer – lançam mão da idéia distorcida do “carma” –, deixando-se conduzir por pensamentos de masoquismo e lamentação onde, muito provavelmente, desencarnados infelizes se satisfazem associando-se ao campo mental de suas invigilantes vítimas. 

Outros, porém, quando atravessam qualquer surpresa desagradável, embora sofram, chorem porque são gente e sintam uma tristeza decorrente do fatoinfeliz, que num primeiro momento parece significar o naufrágio de seus sonhos, aproveitam o saber espírita que já internalizaram para entender o porquê de suas aflições presentes. Estes estabelecem mediante a prece um alargar dos horizontes sobre sua reencarnação atual, e se candidatam a concretizar um belo roteiro de fé, renúncia e coragem, rumo às alternativas para atingirem o tentame que tanto anelam.

Eles agem “(...) como bravos soldados que, longe de fugirem ao perigo, preferem as lutas dos combates arriscados à paz que não lhes pode dar glória, nem promoção!(...)[1][2] Aliás, uma certa canção do Sul já apontou: “Não tá morto quem peleia!”

Dessa forma, quem se dispõe a seguir em frente, buscando captar – à luz do Espiritismo – a lição que a dificuldade lhe traz, passa a desenvolver um comportamento otimista diante das ocorrências ruins, identificando as pedrasdo caminho como material para erguer uma estrada rumo ao seu ideal, porque compreende racionalmente que tudo conspira ao seu favor e se algo não aconteceu como o esperado, não obstante toda a sua dedicação e esforço, foi porque a Divina Providência não julgava fundamental para a sua evolução, como nos elucida o Espírito Joanes, através da psicografia de Raul Teixeira: “(...) coisa nenhuma é essencialmente importante para o seu progresso espiritual a não ser a sua sempre crescente integração no espírito da vida, (...).”[1][3] 

Assim, dentro de uma resignação ativa, façamos o possível para depreender o que se passa conosco, senão especificamente, ao menos em linhas gerais e quando nosso sonho seja nobre e útil no “reino do espírito”, tenhamos perseverança, pois tudo correrá bem. 

Nada de depressão! Nem tampouco de desespero ou inconformismo doentio. Ensina-nos Allan Kardec, ao comentar as causas das misérias humanas que “(...) A situação material e moral da Humanidade terrestre nada tem que se espante, desde que se leve em conta a destinação da Terra e a natureza dos que a habitam.”[1][4] Deste modo, podemos considerar a nossa Casa Planetária como uma escola onde precisamos galgar passo-a-passo seu currículo para, no tempo devido, avançarmos nos níveis de estudo e obtermos condições para realizar as tarefas exigidas pelo aprendizado adquirido. 

Espíritos calcetas que somos, apresentamo- nos na Terra como alunos rebeldes em estado de repetência de experiências com vistas a um futuro promissor. 

Essa é a possibilidade de um amanhã mais prazenteiro, que se inicia no presente momento no qual nos dispomos a aprender, crescer e conquistar uma vitória diferente da que o mundo materialista, promotor de um consumismo fanatizante propõe: uma vitória sobre nós mesmos, no tocante à libertação de nossos condicionamentos inferiores.

Para tanto, é preciso muita coragem porque nesses dias de disputas descabidas, de agressividade exacerbada nas mais diversas formas de sua danosa apresentação, compondo o horrendo espetáculo de nossa insistente animalidade, enfrentar a si mesmo, num esforço hercúleo de nos tornarmos criaturas melhores, promotoras da felicidade e do amor onde estivermos é um desafio descomunal, mas necessário aos que abraçamos o Espiritismo.

Então querido irmão ou irmã, não nos agastemos com qualquer forma de desânimo, recordemo-nos que o Pai sabe de tudo quanto precisamos para sermos felizes, jamais nos desamparando, concedendo-nos até mesmo um “(...) Espírito protetor de uma ordem elevada(...)[1][5] para nos inspirar ânimo e alegria em cada etapa de nossa jornada evolutiva, sendo este um ser amorável que não deixa de apostar em nossas potencialidades, fazendo-se conselheiro fiel e irmão constante no consolo de nossas aflições. 

Caso estejamos enfrentando graves provações, sejam elas de afastamento dos seres queridos por motivos alheios à nossa vontade, enfermidades difíceis, uma perda qualquer, ou até mesmo a infelicidade de ver nossos sonhos projetados ao longo do tempo não se efetivarem, guardemos confiança naProvidência Divina, que nos reserva sempre o que há de bom e verdadeiramente imprescindível.

Lembremo-nos sempre do Mestre de nossos corações quando ditou às almas sofridas pelas intempéries da existência corporal: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta.(.. .)”[1][6] E destarte, fiquemos alegres! 

[1] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. V, item 24.
[2] Idem.
[3] TEIXEIRA, J. Raul. Para uso diário. Pelo Espírito Joanes. 3.ed.Niterói, RJ: Fráter, 2001; p. 43.
[4] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap III, item 6.
[5] O Livro dos Espíritos, questão 491.
[6] Mateus 6: 26.

Fonte: Revista Internacional de Espiritismo – Maio/2005

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Espiritismo e a Fé

mais um fim de tarde by Vinícius Lousada
mais um fim de tarde, a photo by Vinícius Lousada on Flickr.




                                                                                 Otaviano Pereira da Neves(*)

"Fé inabalável só é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da humanidade" - Allan Kardec.

A Doutrina Espírita apresenta uma nova maneira de ver a Fé. Este é um ponto que julgamos importante, pois enquanto as religiões procuram manipular as consciências, incutindo idéias de medo, impondo comportamentos, reduzindo consideravelmente o livre arbítrio, o Espiritismo deixa o pensamento fluir livremente, o mais natural possível para que o indivíduo possa demonstrar toda sua identidade e autenticidade.

A Fé raciocinada deixa de possuir conotação de algo obtido por uma graça, por um mistério que não pode ser explicado. Ela, portanto, difere de tudo o que caracteriza a Fé religiosa, porque baseia-se na busca do entendimento e do discernimento. A Fé religiosa firma-se nos dogmas que definem as religiões. A Fé Espírita usa a razão e, por isto, pode criticar e examinar o objeto da Fé.

Há uma lucidez maior dos conhecimentos adquiridos e uma melhor captação de conhecimentos novos. A Fé Espírita é efeito e não causa. O indivíduo que a possui já experienciou no passado no passado vivências, aprendizados, etc. que hoje lhe transmitem toda uma certeza e confiança. Há uma visão global, holística, das coisas; ou, porque não dizer, uma visão "guestaltica" do todo.

Para que se obtenha esta compreensão geral, aumentando-a paulatinamente, torna-se necessário que a nossa inteligência esteja ativa, para podermos exercitá-la através da vontade. Com a inteligência teremos facilidade de adquirir conhecimentos novos e tornar presente ou consciente os já adquiridos. Estes, serão sempre assoalho para o apoio de novas informações; assim, o poder de análise e de síntese vai crescendo de forma que a cada passo o indivíduo tenha nova compreensão, novos "insights", ou lampejos cada vez mais claros.

Assim é a Fé Espírita, com características próprias e especiais, que a diferencia de qualquer outra Fé. A Fé Espírita não é reducionista, não bloqueia a vontade nem a expressão do ser humano; ao contrário, amplia a vontade e a capacidade de expressão. O indivíduo fica livre para a escolha e com menos possibilidades de ser manobrado ou manipulado.

Daí Allan Kardec dizer que a Fé Espírita "não pode ser prescrita ou imposta, por aquele que a tem, ninguém a poderá tirar e àquele que não a tem ninguém poderá dar". Diz o Codificador que "a Fé é sinal evidente de progresso". O Espiritismo, como Doutrina reencarnacionista e evolucionista, tem na sua Fé uma conseqüência desse progresso que o indivíduo vai pouco a pouco conquistando, vivenciando. O progresso vai facilitando melhores elaborações em estágios sempre renovados.

Portanto, Fé não se consegue como que "por um passe de mágica". Ela é a certeza, a segurança e a confiança já conquistadas e que num dado momento o indivíduo experiência. A Fé está relacionada a obras, assim, uns possuem mais Fé, outros menos. Para a realização das obras - e das conquistas - é necessário estudo e trabalho que resultam em experiência. O que se pode afirmar é que haverá sempre uma nova tarefa a ser executada, a nos provar, a nos testar e, assim, vamos obtendo maior firmeza na execução, ou seja, maior Fé.

Foi dito, "a fé é mãe da esperança e da caridade", o que é facilmente compreensível, porque todo aquele que a possui, conforme a Doutrina Espírita, apresenta um sintoma de que já conquistou estágios importantes e, como tal, ela já está incorporada ao seu acervo tornando-se natural a prática do amor e da caridade.

A importância do Espírita ter esse entendimento da Fé, o levará a vivenciar melhor a atual existência, o aqui e agora, e a pautar todos os seus atos dentro de uma moral e de uma ética elevada. O Espiritismo facilita a reparação dos erros numa experimentação consciente e nisto está o fortalecimento da Fé. Todo este entendimento nos conduzirá à certeza, à confiança e à esperança, proporcionando-nos encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade.

(*)o autor é Psicólogo, e Presidente da Sociedade Espírita Casa da Prece - Pelotas/RS