quinta-feira, 11 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
A marcha dos que estão indignados
Vinícius Lima Lousada*
Nos anos 90, em uma belíssima carta pedagógica, Paulo Freire tece considerações sobre o direito que os homens e mulheres tem de intervir na realidade em que vivem para mudar o mundo, fazer história.
Sua expectativa era de que o povo se organizasse em marchas objetivando democratizar várias instâncias de nosso país, bem como, os direitos fundamentais que historicamente são negados aos que vivem no abismo provocado pela desigualdade social.
Nessa carta o educador conclama à marcha todos os sobrantes, como se referiria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em relação àqueles que sobram no projeto de globalização capitalista. Em nossos dias assistimos uma marcha (ou será uma contramarcha?). Multidões se articulam pelas redes sociais e se aglutinam em marchas pela decência e reforma política, pelo respeito aos trabalhadores, pela saúde, trabalho, moradia, segurança e educação de qualidade para todos e todas. Eles e elas marcham pela dignidade com que o povo merece ser tratado, onde os interesses do bem comum devem estar acima do egotismo de alguns setores da classe dirigente. Muitas são as bandeiras, as intencionalidades que convergem na defesa da ética no trato da coisa pública e da renovação na práxis política.
Muitas marchas se fizeram numa – em diversas cidades – que parece transcender o sectarismo partidário e o seu recado se constitui em um grande basta (!) aos abusos perpetrados pela corrupção e o jogo de interesses que historicamente se firmaram na organização política de nosso país. Enfim, vimos as pessoas organizadas em ações coletivas onde o povo disse a sua palavra clamando à classe dirigente, nas diferentes esferas de gestão pública, a edificação da boa política, firmada na ética a favor das gentes, da vida, da retidão na vida pública.
Outrora as ações coletivas foram alvo de pesquisa do sociólogo e psicólogo italiano Alberto Melucci em seus estudos sobre os novos movimentos sociais. Identifica-se, segundo ele, uma inadequação de formas tradicionais de representação política nas sociedades complexas e, desse modo, outras formas de mobilização social acabam por emergir com o potencial de revigorar o tecido social a partir de indivíduos que se agregam em sintonia de demandas, conquistando inserção e visibilidade na esfera pública.
Essas ações coletivas constituem-se em entrelaçamentos dinâmicos, flexíveis e móveis de indivíduos e grupos em torno de suas demandas que acabam por formar uma agenda comum. Além disso, há o revezamento democrático de tarefas como alternativa diante das demandas e metas dos atores coletivos, o que nos faz compreender porque nessas marchas, Brasil a fora, o movimento era destituído de representantes institucionalizados.
Outro aspecto pertinente das ações coletivas, para o momento, diz respeito à sua latência. Os movimentos comportam-se como redes submersas em estado de latência que emergem quando mobilizados pelas circunstâncias em que os indivíduos vivem. E seu caráter gregário está relacionado à rede de sentidos produzida pelos sujeitos mediante suas relações, à identidade entre demandas coletivas e individuais, anseios afetivos, necessidades comunicativas e aos laços de solidariedade entre os membros do movimento em questão, voltados a resultados de curto prazo. Em outras palavras, o movimento que tomou conta do país é da cidadania que apenas parecia adormecida, contudo, ela veio para o cenário da esfera pública movida pela agenda da defesa da ética e da legalidade no trato com os bens e recursos públicos.
Caso não vejamos mudanças significativas no cenário político, essa ação coletiva continuará a emergir da aparente quietude. A eficácia política das ações coletivas se fundamenta na abertura, receptividade e eficiência das modalidades de representação política do sistema social vigente. Logo, esse “movimento dos indignados” com os rumos políticos do país precisa avançar no sentido do acolhimento de suas propostas pela atual classe política, eleita por todos nós, e sua concretização em breve. Caso continuemos a assistir os mesmos problemas políticos a respeito dos quais se exigiu superação será preciso demonstrar no voto, nas próximas eleições, o peso político de nossa indignação, além dos protestos pacíficos, civilizados de uma coletividade cidadã.
Caso não vejamos mudanças significativas no cenário político, essa ação coletiva continuará a emergir da aparente quietude. A eficácia política das ações coletivas se fundamenta na abertura, receptividade e eficiência das modalidades de representação política do sistema social vigente. Logo, esse “movimento dos indignados” com os rumos políticos do país precisa avançar no sentido do acolhimento de suas propostas pela atual classe política, eleita por todos nós, e sua concretização em breve. Caso continuemos a assistir os mesmos problemas políticos a respeito dos quais se exigiu superação será preciso demonstrar no voto, nas próximas eleições, o peso político de nossa indignação, além dos protestos pacíficos, civilizados de uma coletividade cidadã.
*Professor de Educação Básica, Técnica e Tecnológica do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS).
sábado, 22 de junho de 2013
Clamor social: o clímax e a indiferença dos governantes
Divaldo Franco - educador, médium e orador espírita
Quando as injustiças sociais atingem o clímax e a indiferença dos
governantes pelo povo que estorcega nas amarras das necessidades
diárias, sob o açodar dos conflitos íntimos e do sofrimento que se
generaliza, nas culturas democráticas, as massas correm às ruas e às
praças das cidades para apresentar o seu clamor, para exigir respeito,
para que sejam cumpridas as promessas eleitoreiras que lhe foram
feitas...
Já não é mais possível amordaçar as pessoas, oprimindo-as e
ameaçando-as com os instrumentos da agressividade policial e da
indiferença pelas suas dores.
O ser humano da atualidade encontra-se inquieto em toda parte,
recorrendo ao direito de ser respeitado e de ter ensejo de viver com o
mínimo de dignidade.
Não há mais lugar na cultura moderna, para o absurdo de governos
arbitrários, nem da aplicação dos recursos que são arrancados do povo
para extravagâncias disfarçadas de necessárias, enquanto a educação, a
saúde, o trabalho são escassos ou colocados em plano inferior.
A utilização de estatísticas falsas, adaptadas aos interesses dos
administradores, não consegue aplacar a fome, iluminar a ignorância,
auxiliar na libertação das doenças, ampliar o leque de trabalho digno em
vez do assistencialismo que mascara os sofrimentos e abre espaço para o
clamor que hoje explode no País e em diversas cidades do mundo.
É lamentável, porém, que pessoas inescrupulosas, arruaceiras, que vivem
a soldo da anarquia e do desrespeito, aproveitem-se desses nobres
movimentos e os transformem em festival de destruição.
Que, para esses inconsequentes, sejam aplicadas as corrigendas
previstas pelas leis, mas que se preservem os direitos do cidadão para
reclamar justiça e apoio nas suas reivindicações.
O povo, quando clama em sofrimento, não silencia sua voz, senão quando
atendidas as suas justas reivindicações. Nesse sentido, cabe aos jovens,
os cidadãos do futuro, a iniciativa de invectivar contra as infames
condutas... porém, em ordem e em paz.
* Divaldo Franco escreve às quintas-feiras, quinzenalmente
Fonte: http://atarde.uol.com.br/opiniao/materias/1512342-clamor-social-o-climax-e-a-indiferenca-dos-governantes
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Espiritismo, do que se trata mesmo?
Então, o que
é o Espiritismo?
Oportunamente,
o professor Herculano Pires teve o ensejo de afirmar: “O Espiritismo, nascido
ontem, nos meados do século passado, é hoje o Grande Desconhecido dos que o
aprovam e o louvam e dos que o atacam e criticam.”[2] Essa
afirmativa acaba por nos fazer entender que essa jovem filosofia espiritualista
ainda é ignorada, seja por parte de seus adeptos seja pelos seus detratores.
Ao tempo de Kardec, como ainda
hoje, aqueles que nada sabem do Espiritismo tendem a tomá-lo pelo que ele não
é: mais uma religião ou seita, com seus mistérios, supostos sacerdotes
dedicados a consultar na penumbra os mortos para os fins mais variados,
conforme a prodigalidade da imaginação do crítico, por sua vez, incapaz de ser
levado a sério até mesmo pelo mais caridoso adepto do Espiritismo, em função da
falta de compromisso da crítica infundada com a verdade. Opinar sobre o que se
desconhece revela a leviandade do opinante.
Por outro lado, a afirmação de
Herculano está a nos dizer que os espíritas necessitam conhecer bem o
Espiritismo, estudando a fundo a doutrina kardequiana para assim edificar na
alma a convicção dos princípios filosóficos que dizem adotar, aproveitando-os
para o seu progresso espiritual.
Mas,
para atender a questão proposta no título desse texto é importante considerar
as anotações de Allan Kardec no sentido de formular uma conceituação da
Doutrina dos Espíritos: diz o mestre: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma
ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste
nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia,
compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações.”[3]
Aliás, em O Livro dos Espíritos, ele define o Espiritismo numa tríade. Diz ele: “O Espiritismo
se apresenta sob três aspectos diferentes: o das manifestações, o dos
princípios e da filosofia que delas decorrem e o da aplicação desses princípios.”[4] O aspecto
das manifestações consiste no ângulo experimental ou científico onde estas são
objeto de observação, e está relacionado ao paradigma das ciências positivas do
século XIX, embora Kardec não se confine nele ao estruturar as bases de uma ciência
delineada na colaboração interexistencial[5], cujo
método e consequências filosóficas nascem na parceria estabelecida por ele com
médiuns e Espíritos na pesquisa perseverante das comunicações espontâneas ou daquelas
obtidas mediante a evocação de Espíritos.
Vejamos que o conceito apontado
assinala o Espiritismo como uma ciência filosófica com consequências morais e,
como nos escritos de Allan Kardec nenhuma palavra é vã, hábito do educador
Rivail que procurava ter exatidão no que escrevia para bem comunicar suas ideias, procuremos estudar aqui as categorias de pensamento “ciência”,
“filosofia” e “moral” para construirmos um entendimento sobre a natureza do
Espiritismo, tendo em vista a pergunta geradora dessa reflexão.
Para tanto, tomo a liberdade de
recorrer a um dicionário de filosofia que considero didático e cuja
familiaridade com o mesmo nasce do cotidiano do meu ofício de professor. Trata-se
do Dicionário Básico de Filosofia[6].
Ciência
Espírita
Ali encontramos um conceito mais
clássico e outro que pode ser considerado moderno sobre o verbete ciência. Os
autores do dicionário consideram ciência como um conjunto de conhecimentos
adquiridos metodicamente, sistematizados e capazes de serem transpostos
didaticamente para o ensino, tendo em vista sua apropriação e difusão.
Ciência pode ser concebida como uma modalidade de saber formada por uma gama de
aquisições intelectuais que pretende dar uma explicação racional e objetiva da
realidade, ou de algum fenômeno. E eu acrescentaria: através do controle,
experimentação e universalização de resultados.
Vale lembrar, como diz Edgar
Morin, que “As teorias científicas surgem dos espíritos humanos no seio de uma
cultura hic et nunc.”[7] Desse
modo, a parte experimental do Espiritismo, em sua fundação, está mergulhada em
um contexto que lhe matiza com as tintas da racionalidade científica daquela
época, que era de viés positivista, nada obstante, Kardec extrapole de forma
produtiva os limites impostos pelo paradigma científico então dominante.
O
Espiritismo, sendo ciência de observação, tem por objeto de investigação as
relações dos Espíritos com o mundo corpóreo, como asseverou outrora Kardec na
obra O que é o Espiritismo. Sua
metodologia de pesquisa está bem descrita por ele em O Livro dos Médiuns, de onde se depreende um modo seguro de lidar
com os Espíritos em reuniões sérias. Através dessa metodologia foi tirado o véu
que encobria parte da percepção do mundo invisível e fez-nos entrever a
imortalidade da alma atestada pelos fatos que a mediunidade apresenta.
Pelos registros presentes em a
Revista Espírita, publicada por Kardec de 1858 a 1869, compreende-se que nas
reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada pelo mestre em
1858, o diálogo com os Espíritos tinha finalidade educativa bem clara, sendo a
mesma um princípio orientador da metodologia empregada. O mestre, ao dirigir os
trabalhos mediúnicos, evocava Espíritos Superiores para questioná-los sobre temas
filosóficos de grande profundidade, através dos médiuns que atuavam na Sociedade.
Doutras vezes as comunicações se apresentavam de forma espontânea. Até mesmo
com os Espíritos sofredores, ao colaborar com a educação deles pela palavra
fraternal e esclarecedora, Kardec pinçava saberes úteis para a caminhada do ser
humano no mundo, tendo em vista a evolução espiritual de encarnados e
desencarnados.
Jamais tomou qualquer Espírito
como revelador privilegiado e nem as teses deles como verdades absolutas. Fazia
comparação dos ensinamentos, tanto aqueles colhidos nas reuniões em Paris como os
oriundos de correspondência com outros grupos, recebidos através de médiuns
desconhecidos daqueles primeiros. Outras vezes o ensino espontâneo em diversos grupos
de localidades distintas convergia para a sociedade de Paris e, em todos os
casos, o mestre empreendia o exame racional e a comparação das comunicações,
extraindo desse modo, no elemento comum, um postulado filosófico do Espiritismo
ou um ensinamento digno de se dizer espírita, por não se tratar de um sistema
de ideias particular de um Espírito ou de um só médium. Kardec chamou esse meio
de verificação de controle universal do ensino dos Espíritos[8].
Outro elemento interessante da
Ciência Espírita decorre do fato de ela ser apresentada como progressista, na
base kardequiana, e dialógica em relação às ciências ordinárias. Nesse sentido
apontou o insigne mestre: “O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais
será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro
sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade
se revelar, ele a aceitará.”[9]
Filosofia
Espírita
Para tornar inteligível o aspecto
filosófico do Espiritismo parece ser conveniente conceituar filosofia, muito
embora, essa também não seja tarefa simples. É possível ver a filosofia como exercício
de busca ou “amor da sabedoria” (Pitágoras). Dessa forma, no dicionário já
referido, encontramos a filosofia retratada como uma busca pela apropriação dos
princípios em que se estriba um saber. Na tradição filosófica, ao longo de sua
História, a filosofia chegou a ser entendida como a totalidade do saber.
Na Idade média foi posta como serva
da Teologia que procurava dar-lhe fundamento sem que a atividade filosófica
devesse questioná-la. Já na modernidade a filosofia aparece como a aventura da
emancipação do pensamento religioso, estabelecendo-se como
investigação dos “primeiros princípios”, e assim contribuindo com a ciência em
seus fundamentos, consequências e com a análise das razões da ação humana.
Contemporaneamente, a filosofia propõe a dúvida, o ceticismo saudável, e o
pensamento crítico em torno do ser humano, do mundo, do próprio saber...
A Filosofia Espírita surge com a
publicação de O Livro dos Espíritos,
de onde se depreendem os princípios e os desdobramentos filosóficos, depois
desenvolvidos nas demais obras fundamentais[10]
trazidas a lume. É uma filosofia que ensina o autoconhecimento como instrumento
indispensável à evolução intelecto-moral do Espírito e “Sendo o Espiritismo uma
nova visão do homem e do mundo, caracteriza-se como um pensar filosófico, como
uma filosofia estruturada na pesquisa do conhecimento, do ser e do universo.
Tendo base experimental, seu filosofar é existencial, atua no mundo para
modificá-lo.”[11]
E, acrescentaríamos, tem um profundo potencial para transformar o mundo a
partir do indivíduo. “Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à
razão, ao bom-senso.”[12]
Logo, o aspecto filosófico
retrata os princípios e ensinamentos dos Espíritos Superiores recolhidos e
organizados por Allan Kardec, somados ao seu contributo nas reflexões e
desdobramentos que propõe às lições dos imortais nas obras fundamentais da
Doutrina. O Espiritismo desencadeia, a partir da apreciação que podemos ter dos
princípios que exara, uma moral que conduz o adepto à ética do amor lecionada por
Jesus. Essa moral não está enclausurada nas teologias do cristianismo dos
homens, mas está viva na espiritualidade subjacente ao Cristianismo do Cristo, presente
no conteúdo da Filosofia Espírita.
Prof. Herculano Pires
Moral
Espírita
A
palavra moral se refere aos costumes de uma sociedade ou cultura, em um sentido
restrito. Já, em um significado mais amplo, como assinala o Dicionário Básico de Filosofia, pode ser
vista como sinônimo de ética, como teoria dos valores que regulam a conduta
humana, de forma normativa ou prescritiva. Pode ser distinguida em uma moral do
bem e do dever, ou seja, o que define o que é o bem para o ser humano e o que
ele deve fazer.
Em
O Livro dos Espíritos, encontramos
uma conceituação de moral que está na sintonia do que se verifica na explicitação
do termo acima, da moral como ética que nos aponta o sentido do bem e como
realizá-lo. Dizem os Espíritos interlocutores de Kardec: “A moral é a regra de
bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da
lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque
então cumpre a lei de Deus.”[13] Vejamos
que essa definição estabelece a moral na prática do bem, na vivência da
razoabilidade ética que diferencia o bem do mal, fundamentada nas Leis Divinas,
cujo parâmetro do que se deve fazer está na consideração do que é o bem da
coletividade.
Cabe
ao indivíduo, no areópago da própria consciência, fazer uso da inteligência
para diferenciar o que é bem e o que é mal[14]. Um
recurso disponível para evitar possíveis enganos nessa diferenciação no plano
das relações humanas está na aplicação do que Kardec chamou de lei da solidariedade
ou reciprocidade[15].
Aliás, o mestre afirmou em um momento: “A moral dos Espíritos superiores se
resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Fazer aos outros o que
desejamos que os outros nos façam", ou seja, fazer o bem e não o mal. O
homem encontra nesse princípio a regra universal de conduta, mesmo para as menores
ações.”[16]
Todavia,
no procedimento para consigo mesmo, onde essa máxima não teria alcance, o parâmetro
para o bem é o limite da necessidade que a Lei Natural impõe. Quando é
ultrapassado esse limite o autor da ação lhe sofre as consequências, como
simples resultado da ausência de contenção. O sofrimento causado pela ausência
de limites é de acordo com a ação empreendida, cabendo a cada um preveni-lo na
conduta moderada em tudo. Já disse a sabedoria ancestral: nada em excesso!
Encontramos
proposições para a aplicação da moral espírita na análise que Allan Kardec faz
da conduta da pessoa de bem, apresentando didaticamente a ética que decorre dos
ensinamentos espíritas. Vale a pena meditar sobre esse texto e perceber os
caminhos possíveis de uma conduta equilibrada e sábia que o mestre sintetiza
nessa frase: “O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de
amor e de caridade, na sua maior pureza.”[17]
Para bem avaliarmos o quanto
essa ética orienta a nossa conduta, consideremos que o conhecimento de si mesmo
é saber fundamental, verdadeira “chave do progresso individual”[18].
Praticar a ética do homem de bem, que é a ética de Jesus, e analisar-se em
vista do aprimoramento pessoal são ações que, juntas, formam indubitavelmente um
excepcional roteiro para quem deseja entender o Espiritismo em profundidade e
dar atenção ao objetivo essencial de sua proposta filosófica que é tornar
melhor o ser humano.
[1] Educador e pesquisador.
[2] PIRES,
Herculano. Curso dinâmico de
Espiritismo: o grande desconhecido. São Paulo: Paideia, 1979, p. 11.
[3] KARDEC,
Allan. O Espiritismo em sua expressão
mais simples e outros opúsculos de Kardec. Tradução Evandro Noleto Bezerra.
2. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2007, p. 63.
[4]
O Livro dos Espíritos. Conclusão,
item VII.
[5]
PIRES, Herculano. Curso dinâmico de
Espiritismo: o grande desconhecido. São Paulo: Paideia, 1979, p. 58.
[6]
JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário
básico de filosofia. 4. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
[7]
MORIN, Edgar. Ciência com consciência.
13. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010, p. 25.
[8]
O Evangelho segundo o Espiritismo,
Introdução, item II.
[9]
A Gênese: os milagres e as previsões
segundo o espiritismo. Cap. I, item 55.
[10]
Caso o leitor queira saber mais sobre as obras fundamentais do Espiritismo,
convido-o a ler o artigo de nossa autoria intitulado “Por que ler Kardec?”,
acessível em http://saberesdoespirito.blogspot.com.br/2009/06/por-que-ler-kardec.html.
[11]
RÉGIS, Jaci. Kardec foi um
filósofo?. In: A Reencarnação. n º
401 - Ano L. Porto Alegre: FERGS, 1984.
[12]
O Livro dos Espíritos, Conclusão,
item VI.
[13]
O Livro dos Espíritos, questão 629.
[14]
O Livro dos Espíritos, questão 631.
[15]
O Livro dos Espíritos, questão 633.
[16] O Livro dos Espíritos, Introdução ao
Estudo da Doutrina Espírita, item VI.
[17]
O Evangelho segundo o espiritismo,
cap. XVII, item 3.
[18]
O Livro dos Espíritos, questão
919-a.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
FAMÍLIA E VIDA CONJUGAL FELIZ
Larissa Camacho
Carvalho[1]
Vinícius Lima Lousada[2]
A construção social da família
Ao longo dos anos em que a
humanidade aperfeiçoou-se, no processo de evolução ditado pela Lei Divina do
Progresso, a constituição da família foi umas das mais significativas
instituições formadas pelos homens. Inicialmente, quando mulheres e homens da
era paleolítica agrupavam-se em bandos garantindo sua defesa pessoal e,
respeitando a Lei de Preservação, multiplicavam-se através da procriação, pouco
raciocinavam sobre suas ligações com os indivíduos do grupo. A união era útil,
respeitava as Leis Divinas, o instinto de sobrevivência, sem, no entanto,
centrar-se nos sentimentos elevados da abnegação, da fraternidade, da caridade,
do amor ao próximo.
O desenvolvimento da inteligência no
homem, aliado ao das instituições por ele formadas criaram a necessidade de
instituírem-se laços diferenciados entre os indivíduos e as uniões responsáveis
pela procriação ganharam um estatuto distinto. Este estatuto não foi somente
direcionado para o casal que procriava, mas estendia-se a todos os descendentes
deste par, reunidos todos na mesma casa matriarcal ou patriarcal, dependendo da
cultura que foi sendo construída em cada sociedade.
Esses laços diferenciados exigiam,
como compromisso dos indivíduos que constituíam esses pequenos núcleos,
reciprocidade em todos os aspetos da vida, lealdade, protecionismo, cuidado,
defesa, deferência e como consequência do progresso moral inevitável,
sentimentos mais elevados de cuidado, carinho, amor. Este último
desenvolvendo-se, intensivamente, entre os sujeitos com papéis de mães e
filhos, depois, também, entre pais e filhos, irmãos, o casal e assim por
diante.
No entanto, durante muito tempo
assistimos essa instituição ser manipulada por indivíduos, com grande progresso
intelectual, mas pouquíssimo desenvolvimento moral e espiritual, como moeda de
troca, de barganha de cargos sociais ou títulos nobiliárquico por dinheiro ou
riquezas torpes de todo tipo, desconsiderando, esses espíritos adoecidos e
adormecidos das Leis Divinas, os sentimentos elevados já conquistados pelos
homens com a contribuição dessa nobre e inspirada construção social.
Nomeamos essa instituição de família,
que antes de ser uma construção social, faz parte do plano de Deus para que as
criaturas na Terra tenham um auxílio valioso em seu inevitável progresso moral.
Na questão 775 d'O Livro dos Espíritos, Kardec –
conhecendo a ignorância humana e percebendo que a família, na Terra, embora com
enorme potencial edificador, passou e ainda passa por abalos que desestabilizam
sua redentora missão – questiona aos benfeitores espirituais “qual seria, para
a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de família”, ao que os
espíritos respondem que seria “uma recrudescência do egoísmo”. De vital
importância essa questão, pois considerando que o egoísmo é a chaga da nossa
sociedade, conforme questão 913 do mesmo O
Livro dos Espíritos, nossa ferida aberta enquanto grupo social, se o
relaxamento dos laços de família intensificará o egoísmo na Terra isto
significa, em contrapartida, que para desenvolvermos o altruísmo, o amor, os sentimentos
nobilitantes que nos conduzirão ao progresso moral anelado, temos que
fortificar os laços de família na nossa sociedade.
A resposta dos espíritos também
esclarece que a instituição família é o bendito instrumento de Deus para que
possamos vencer o causador de todas as desditas humanas que é o egoísmo que
nutrimos e que nos afasta das bençãos Divinas ao nos alijar dos sentimentos de
fraternidade, solidariedade, altruísmo e amor que somente a convivência com o
próximo pode nos oferecer.
Na família aprendemos a compartilhar
com abnegação, porque nutrimos afeto por aqueles que compartilham nosso
dia-a-dia, aprendemos a compreender o outro, porque conhecemos suas lutas
passadas e presentes, sabemos seus sonhos de futuro, felicitamo-nos com suas
conquistas e enternecemo-nos com seus incentivos para com nossas lutas. Na
família aprendemos a repartir, dividir, mas também multiplicar sonhos,
participar da felicidade alheia, fruir da companhia doce de quem amamos e com
quem vamos intensificando esse sentimento Divino do Amor. É na família que
vamos construir as bases do Amor Universal que nos lembra Jesus quando diz que
um dia seremos um só rebanho e haverá um só Pastor.
Mas a convivência em família não é
algo que possamos adjetivar de fácil. Há muitos percalços, muitas
dificuldades, muitos desentendimentos e muito a transformar em nós mesmos para
conseguirmos manter relações saudáveis em família. Deparamo-nos, no lar, com
parentes muito diferentes de nós. Se somos organizados, por vezes defrontamos
um irmão desleixado que não organiza seu próprio espaço íntimo. Convivemos com
uma mãe super-protetora, com um pai controlador. Mas o amor nos faz aprender a
conviver bem com cada personalidade que comunga do nosso mesmo lar.
Assim é que aprendemos a conviver,
por exemplo, com um colega do escritório que é tão desorganizado quanto nosso
irmão, ou com o chefe que é controlador a maneira de nosso pai e assim por
diante. Enfim, todos os desafios da vida familiar são eminentemente educativos
ao Espírito imortal, vocacionado ao progresso cuja a convivência na
micro-sociedade que é a família contribui sobremaneira, em todas as funções que
venha a ocupar o indivíduo, seja como pai, mãe, filho, tia, avô, etc. Todas
essas funções na unidade familiar trazem consigo aprendizagens muito
significativas ao nosso amadurecimento espiritual e nos cabe vivê-las com
sabedoria, ou seja, aproveitando cada lição que tenhamos a oportunidade de
vivenciar
O Amor em Família engendra o Amor
Universal. O Amor em Família vai aniquilando a carga egoística da nossa
sociedade. O Amor em Família contribui, poderosamente, para o progresso
individual e para o progresso de toda a humanidade. Assim é que necessitamos
empenharmo-nos em defender a instituição familiar nos tempos que se apresentam
ao nosso trabalho, pois que se ela configura-se construída socialmente, com
certeza o plano inspirador pertence ao Pai Maior que pede nosso auxílio para
protegê-la, santificá-la e concretizar seu objetivo superior: a instauração do
Amor Universal entre os Homens.
Vida conjugal
Lembra-nos o Benfeitor Espiritual
Camilo[3]
que todos trazemos necessidades educativas para esse mundo e carecemos, no campo
das vivências afetivas, de uma complementação
psíquica e emocional que nos impulsiona na busca do encontro de uma alma
cuja afinidade espiritual favoreça essa permuta de energias e nos preencha essa
lacuna psíquica. Não se trata do mito das “metades eternas” desmitificado por
Allan Kardec sem equívoco e, nem tampouco, da tese romântica das almas gêmeas.
Simplesmente, somos seres transcendentes
portadores de uma porção de aprendizados indispensáveis ao nosso paulatino
progresso espiritual. Na multidão de Espíritos reencarnados na Terra, são
vários os que são portadores de uma configuração de aprendizados comuns que
lhes são oportunos, bem como, com uma certa identidade no que se refere à
trajetória espiritual e desenvolvimento moral e intelectual, nas suas mais
diversas gradações e pelas leis da sintonia, nos encontramos nos caminhos
terrestres e, a partir do sentimento de simpatia recíproca desperta-se à
comunhão afetiva, ou ainda, pela afinidade dos próprios limites espirituais,
vamos ver uniões nascerem entre seres que se fazem instrumento de progresso
doloroso ou tropeço, um do outro, em simbioses psíquicas perturbadoras.
Noutros casos, que não podemos
ignorar, percebemos almas irmanadas nos propósitos de renovação e amor
reencontrarem-se na Terra, tendo em vista a realização dos ideais enobrecidos
no campo do amor, do casamento e da família, e esses casos não são tão raros
como, de forma pessimista, muita gente imagina. Esses realizam muito bem o que
recomenda o Espírito Bernard Palissy, conforme a anotação kardeciana em a
Revista Espírita: “Uni-vos, pois, não apenas pelo amor, mas para o bem que
podeis fazer a dois.”[4]
Cabe ao casal, nesse caso, cumprir
com dedicação o programa reencarnatório estabelecido na vida espírita, antes do
renascimento, junto de seus Guias Espirituais, objetivando a concretização da
tarefa delineada para a sua espiritualização e para o seu contributo, por menor
que se faça, ao progresso da família humana.
Tendo em vista orientar os cônjuges
para o êxito da vida conjugal, ao analisar os ângulos espirituais da família, o
Espírito Camilo declara que “O essencial
que os indivíduos que se lançam na formação de uma nova família, assumissem
compromisso de com o conhecimento de si mesmos.” [5]
O conhecimento de si mesmo que cada
indivíduo deve cultivar, para que jamais transfira ao outro a responsabilidade
de suas andanças e o respeito ao projeto de auto-realização do outro, a fim de
que o casamento não se institua numa relação asfixiante da outra alma ou numa
masmorra de desamor.
O autoconhecimento é recurso
sobejamente conhecido pelos espiritistas, entretanto, para que atenda o seu
desiderato feliz é fundamental que o apliquemos cotidianamente, tal como
recomenda Santo Agostinho em O Livro dos
Espírito, fazendo um balanço problematizador de nosso cotidiano,
verificando as aprendizagens conquistadas e as experiências equivocadas que
merecem correção de rumo, em função de querermos jornadear conscientemente num
rumo crescente para Deus.
Quando não exercitamos o
autoconhecimento, podemos deixar-nos subjugar pelo ego e seus mecanismos de fuga.
Segundo Novaes[6] o
ego é “a representação do Espírito no mundo externo. Ele é, de um lado, a
síntese momentânea da personalidade integral, do outro, uma função que permite
a ligação da consciência com os conteúdos conscientes.” Enfim, no delineamento
da psique elaborado por Jung, o ego tem um lugar central no consciente, nada
obstante, a sua incompletude ante o ser integral, ocupa-se da questão da
manutenção da identidade do indivíduo, de sua personalidade atual e de mediação
entre o campo da consciência e inconsciente, devendo obedecer a regulação do eu
profundo.
Entre os mecanismos de fuga do ego, o
eminente psiquiatra Alírio de Cerqueira Filho, destaca o de projeção. Nesse
caso, é comum que o indivíduo ainda não identificado mais profundamente consigo
mesmo passe a querer responsabilizar os outros em relação aos seus insucessos e
frustrações. Nesse caso, diz-nos que “A única forma de se libertar da projeção
é interromper esse mecanismo de transferência, aceitando os seus defeitos e
responsabilizando-se pelos seus erros e acertos e, com isso, tornar-se uma
pessoa melhor.”[7]
Vejamos que para a saúde espiritual
da relação conjugal, tanto quanto, para a dos cônjuges, como individualidades
extracorpóreas conectados ao corpo físico pelos mecanismos da reencarnação e
vocacionados à plenitude, é indispensável o exercício continuado do
autoconhecimento para que, superando-se os ditames do ego infantil, a autorealização
promova o bem-estar e o autoamor que deságua no amor ao outro, com serenidade e
contentamento, na convivência conjugal.
O casamento se fundamenta no amor
dos seres que se unem que, para ser amor, não pode ser edificado na anulação da
identidade do outro e nem na perseguição egotista de uma felicidade aparente,
calcada fruição de conquistas individualistas sem consideração para com a
partilha da existência com o outro. Precisamos encontrar convergência nos
projetos pessoais e parceria na edificação positiva do lar cujos pilares são os
Espíritos que o formam ligados pelo mais genuíno amor.
O amor no lar, novamente
A relação conjugal estabelecida no
autoconhecimento gera o respeito profundo ao outro que se estende, quando
chegarem, aos filhos. É na exemplificação do entendimento dos próprios limites
que alguém consegue desenvolver a indulgência com as alheias imperfeições e no
autoperdão que aprendemos a arte de perdoar nossos seres queridos.
De forma equilibrada, quem ama a si
mesmo, que não é a mesma coisa que egolatria, aprende a amar o outro e o seu
livre-arbítrio, sem aquele ímpeto de domínio da vontade alheia, comum a
Espíritos de mentalidade estreita e apóia, sem medo, os projetos edificantes
elegidos pela alma com a qual está a partilhar essa vida.
Na lealdade, probidade e consciência
plena das responsabilidades sedimenta-se o amor familiar que irá acolher seus
hóspedes, os filhos de Deus que temporariamente recebe por rebentos seus cuja
missão é fazê-los exitosos sobre si mesmos, ante as suas programáticas
espirituais. Adentrando o lar o amor ilumina a todos, instituindo um clima de
respeito profundo, boa vontade e presença positiva nas lutas comuns.
O amor em casa, tal como o
preconizado por Jesus de Nazaré, é o que dá rumo seguro à família como
educandário sublime cujo altruísmo é a lição fundamental. O amor é o caminho do
êxito da instituição familiar, jamais ultrapassada, constituindo-se, inclusive,
na terapêutica mais excelente para a solução de intrincados conflitos, oriundos
da incompreensão de hoje ou dos desenganos morais perpetrados no passado e
condicionante de nossas ações na atualidade, pedindo a educação pessoal para o
bem de todos os partícipes do campo doméstico.
Para pensar:
“A união e a afeição que existem
entre pessoas parentes são um índice da simpatia anterior que as aproximou. Daí
vem que, falando-se de alguém cujo caráter, gostos e pendores nenhuma
semelhança apresentam com os dos seus parentes mais próximos, se costuma dizer
que ela não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma verdade mais profunda
do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram essas encarnações de
Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de servir de prova
para uns e, para outros, de meio de progresso.”[8]
[1] Historiadora,
Doutora em Educação. E-mail: camachocarvalho@yahoo.com.br.
[2] Professor, Doutor em Educação. E-mail: vlousada@gmail.com.
[3] TEIXEIRA, J. Raul. Desafios da Vida Familiar. Pelo
Espírito Camilo. 2.ed. Niterói, RJ: Fráter Livros Espíritas, 2003, p. 46.
[4] KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano Primeiro – 1858. Rio
de Janeiro, RJ: FEB, 2004, p. 513.
[5] TEIXEIRA, J. Raul. Nos passos da vida terrestre. Pelo
Espírito Camilo. Niterói, RJ: Fráter Livros Espíritas, 2005, p.
[6] NOVAES, Adenauer. Psicologia do Espírito. 2. Ed. Salvador:
Fundação Lar Harmonia, 2003, p. 99.
[7] CERQUEIRA FILHO,
Alírio de. Saúde espiritual. Santo
André, SP: Editora Bezerra de Menezes, 2005, p. 75-76.
[8] KARDEC, Allan. O evangelho
segundo o espiritismo. 120. Ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2002, p. 108.
domingo, 5 de maio de 2013
ALLAN KARDEC EM PARIS: guia de viagem - Glauco Adams
Depois de muitas pesquisas, incluindo viagens a Paris, foi publicado meu livro ALLAN KARDEC EM PARIS.
É um guia de viagem para o turista que vai a Paris e tem interesse em Kardec. Mas destina-se, também, a quem NÃO irá a Paris: o livro pode ser uma viagem virtual junto comigo.
Embarque em uma viagem pelos pontos relacionados com Allan Kardec em Paris, em um guia repleto de fotos.
Viva a emoção de seguir os passos de Allan Kardec na capital francesa. Veja por onde ele andou, por onde ele olhou, onde ele morou. Conheça os locais relacionados com o Espiritismo. Saiba um pouco da história e como chegar a cada um deles.
O livro está disponível em edição iBooks, compatível com iPad; em edição Kindle; e em edição PDF. A edição iBooks é mais moderna, com visual mais atrativo, e traz alguns vídeos.
Maiores informações: http://viagemehistoria.com/allan-kardec-em-paris-guia-turistico/
segunda-feira, 22 de abril de 2013
A METODOLOGIA KARDEQUIANA
Prezado leitor, conheça o artigo METODOLOGIA KARDEQUIANA publicado na Revista Reformador (FEB) de junho de 2010. Clique em: http://www.sistemas.febnet.org.br/acervo/revistas/2010/WebSearch/page.php?pagina=232
Boa leitura!
quinta-feira, 18 de abril de 2013
ABRADE - o verdadeiro papel de Kardec
Série de artigos escritos por pesquisadores e especialistas espíritas sobre o verdadeiro papel de Allan Kardec na Codificação Espírita, e em homenagem ao aniversário de 156 anos do lançamento da obra pioneira, "O livro dos espíritos", em 18.04.1857.
domingo, 24 de março de 2013
TRISTEZA, VAZIO EXISTENCIAL E ESTRATÉGIAS DE SUPERAÇÃO
Casa de Pedra - VLL
Vinícius Lousada[1]
“Sabeis por que, às vezes, uma vaga tristeza se
apodera dos vossos corações e vos leva a considerar amarga a vida?”[2]
A melancolia
segundo os Espíritos
A
mim muito impressiona, cada vez que releio uma página, a atualidade das obras
fundamentais do Espiritismo. São atuais quanto ao seu conteúdo porque a leitura
pode revelar conceitos de uma profundidade filosófica e psicológica que vão ao
encontro dos conflitos existenciais de nossos dias, apesar de transcorrido
tanto tempo de sua publicação.
Um
exemplo do que me refiro acima está na mensagem “A melancolia”, publicada por
Allan Kardec em O Evangelho segundo o
Espiritismo, no item 25 de seu capítulo quinto. Nessa obra em que o mestre
se dedica a apresentar um estudo do Evangelho de Jesus numa leitura mais
espiritual do que as religiões tradicionais vinham apresentando, notadamente
com a chave do ensino dos Espíritos Superiores, destaca-se essa página
psicológica a respeito da qual me proponho meditar aqui.
O
Espírito François de Genéve, em uma página ditada provavelmente em um grupo
espírita bordelense, se dedica a caracterizar a melancolia delineando as marcas
que deixa na alma, sua causa espiritual e apresenta também estratégias de
superação desse sentimento, concitando o seu portador ao uso enérgico da
vontade para escapar do estado de prostração que a melancolia deixa naquele que
a cultiva.
Em
síntese, o autor espiritual caracteriza a melancolia como um sentimento de
tristeza que se apodera do coração levando o indivíduo a identificar a vida com
amargor. Em se demorando nessa postura sombria, pode-se cair na apatia,
lassidão e profundo abatimento sob o domínio da alma triste. Nessa condição,
julgamo-nos por demais infelizes.
Contudo,
o Espírito, autor do texto, não deixa de considerar que a aspiração por
liberdade é comum no Espírito reencarnado. As condições existenciais concretas em
que vivemos nos fazem desejar, inconscientemente, o gozo da liberdade
espiritual – experimentada muitas vezes nas atividades de emancipação da alma –,
na ânsia de afastarmo-nos dos problemas que enfrentamos, nada obstante, o fato
de que estes não passem de provas e expiações no roteiro do nosso progresso
espiritual, como depreendemos na Filosofia Espírita.
As provas consistem nas lutas
enfrentadas na vida corporal que são necessárias ao desenvolvimento do Espírito
em inteligência e moralidade. Por sua vez, as expiações consistem em
experiências mais exigentes nascidas em atitudes tomadas em desacordo com as
Divinas Leis. Desse modo, diante da “opressão” dos desafios da vida corpórea nos
sentimos abafados em nossas possibilidades e a realidade extrafísica pode parecer
mais atrativa por força do que a respeito dela trazemos nos arcanos do
inconsciente.
Certamente que uma demorada reflexão
acerca de si mesmo permite ao indivíduo perceber que a grande gênese de seus
conflitos está no seu planeta interno e
ele os conduz em qualquer dimensão da vida, a morte não elimina as dores da
alma. Allan Kardec, como pioneiro dos estudos psicológicos a luz da Ciência
Espírita pôde registrar, conforme encontramos na obra O Céu e o Inferno, que cada qual vive o estado de felicidade íntima
na vida espiritual conforme esse já se apresentava porque ninguém sofre mágica
transformação com o fenômeno da desencarnação.
Aliás, ensinam os Espíritos
co-autores de O Livro dos Espíritos
que “O homem é quase sempre o obreiro da sua própria infelicidade. Praticando a
lei de Deus, a muitos males se forrará e proporcionará a si mesmo felicidade
tão grande quanto o comporte a sua existência grosseira.”[3] Todavia,
deve ficar evidente que precisamos verificar o nível de tristeza que nos
invade, se está relacionada com o constrangimento que o corpo estabelece ao
Espírito ou se estamos experimentando um sentimento oriundo de dores morais
edificadas por nós, cabendo-nos o trabalho pessoal de superação dessa mazela.
A vontade de liberdade da alma
não deve significar desejo de morte, muito pelo contrário, deveria se instituir
em um impulso para instigar o ser na busca de saberes, ações e aspirações
elevadas em sintonia com o desenvolvimento dos seus próprios potenciais,
mobilizando-o ao crescimento e felicidade possível na Terra. Por outro lado, o
desejo funesto de morte revela um aprofundamento da tristeza que se configura
na patologia identificada como depressão, bem catalogada na medicina cujos
recursos terapêuticos o indivíduo, com o apoio de seus familiares, deve buscar.
A depressão, como vemos em interessante
artigo da terapeuta transpessoal Iris Sinoti[4], é
diferenciada da tristeza normal e pode ser compreendida como um distúrbio de
humor que desequilibra o universo emocional da pessoa. Consiste em uma
experiência subjetiva muito dolorosa, produtora de um sentimento profundo de
perda que degrada a psique do indivíduo. Os processos depressivos estão
marcados pela ausência de sentido existencial e alteram o modo com que a pessoa
lida com a sua subjetividade e com o mundo. Também, a depressão pode ser
encarada como um alerta da alma a fim de endereçar o enfermo para a busca de
sentido, o conhecimento de si mesmo e o cultivo do autoamor, estratégias
psicológicas necessárias para o encontro saudável consigo mesmo.
O vazio
existencial e a ausência de sentido
No século passado, ao se
dedicar a entender a solidão e a ansiedade do homem moderno, o psicólogo
americano Rollo May (2011) apontou o vazio existencial como um dos problemas
fundamentais da época. Ao se referir à “gente vazia”, ele se ocupa de
reflexionar sobre as razões psicossociais desse fenômeno em uma sociedade como
a nossa, infelizmente pautada em valores consumistas, onde muitas pessoas são assoladas
por aqueles conflitos em razão do descuido para com a própria subjetividade. “O
vácuo interior é o resultado acumulado, a longo prazo, da convicção pessoal de
ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a
atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência sobre o mundo
que nos rodeia”[5]
Destaca, ainda com muita propriedade, firmada no cotidiano de sua práxis, que
as pessoas que sofrem desse vazio não somente ignoram o que querem, como
também, o que sentem. O que equivale a dizer que os vitimados pelo vazio
existencial em nossa sociedade desconhecem a si mesmos, experimentando, por
consequência, uma vida sem sentido forjada na direção imposta pela coletividade.
Para tanto, o grupo social estabelece valores erigidos como metas a serem
perseguidas inquestionavelmente que, por sua vez, funcionam como reguladores da
vida e do valor do indivíduo, mesmo que as suas consequências éticas sejam
pouco lúcidas ante o exame do bom senso.
Rollo May
Sobre
esse fenômeno psicológico do vazio existencial, é bom ter em conta que, ao desconhecer-se,
o indivíduo adere aos valores e normas sociais de um modo que a contrapartida
inevitável é a desagregação da própria identidade ante as determinações da “ditadura”
das vontades externas à sua. Nesse contexto, a falta de autonomia conduz o
indivíduo à necessidade de adaptar-se mais do que autorealizar-se, prática que
recalca a criatividade e as potencialidades do ser. A pessoa simplesmente se
ajusta de forma pouco reflexiva e nada criativa à sociedade enferma, perde a
referência de quem é e passa agir de forma normótica[6], passando
viver a patologia normalidade do grupo social.
Um caminho de superação da
desidentificação com o self[7] está
assinalado em O Livro dos Espíritos,
na questão[8] em que
os Benfeitores da Humanidade nos convocam, conforme o registro do mestre Allan
Kardec, ao conhecimento de nós mesmos mediante a problematização diária de
nossa conduta e suas razões. Trata-se de uma viagem necessária à saúde mental
tanto quanto ao nosso progresso espiritual. Suponho que o conhecimento de si
mesmo consiste em conquista que permite ao Espírito atribuir sentido à atual
reencarnação, colocando-a em um nível de vivência autoeducativa e, por esse
entendimento, de significado profundo e transcendente. Todavia, o sentido existencial
referido aqui deve ser atribuído pelo indivíduo em um exercício permanente de
autoconhecimento – não por outrem –, nada obstante a consciência esteja repleta
de significados construídos culturamente na vida atual e em outras.
Ao desenvolver
a Logoterapia a partir de suas vivências de prisioneiro em um campo de
concentração nazista, Victor E. Frankl[9]
também identificou o vazio existencial como um fenômeno do século XX, aliás,
que se alonga até o nosso. Segundo esse psiquiatra austríaco, entre as do vazio
existencial estariam a perda de alguns dos instintos básicos de nossa
ancestralidade ao longo da evolução da espécie humana e, mais recentemente, a
redução da importância das tradições como suporte para a definição das escolhas
dos indivíduos. Nesse caso específico, vivemos dias de uma pós-modernidade que
questiona as grandes narrativas, as formas fechadas de explicação do mundo e
nos incita à autonomia intelectual, muito embora, muita gente se entregue ao
entorpecimento da consciência ou ao niilismo nesse contexto desafiante à
racionalidade que se dobra sobre si mesma cobrando uma reforma de pensamento ou
mudança de paradigma em nível pessoal e coletivo.
Victor Frankl
Para
Frankl, o vazio existencial costuma se apresentar no tédio que algumas pessoas
sentem, quando identificam a falta de conteúdo de suas vidas a partir de
momentos de quebra de rotina que acabam, de algum modo, por ensejar que reflitam
a respeito. O vazio existencial, nessa linha de raciocínio, também está na base
da depressão. Há casos em que o indivíduo procura compensar a vontade de
sentido frustrada no poder ou no prazer e, naturalmente, na ausência desses uma
crise se instala convocando-o a repensar a existência e pode facilitar a busca
por terapia especializada. Aí estaria uma contribuição da Logoterapia: convidar
o indivíduo a ser responsável pela sua vida, dito de outra forma, a ser sujeito
da própria história.
Estratégias
para a superação da tristeza
Pôr-do-sol no Cassino - VLL
Algumas estratégias para que
a alma supere a tristeza comum, a partir da reflexão proposta pelo Espírito
François de Genéve, podem ser resumidas da seguinte forma: a) resistência
enérgica às impressões que nos enfraquecem a vontade; b) considerando os
ensinamentos dos Espíritos Superiores registrados por Kardec, aguardar com
paciência o retorno para a vida espiritual que um dia virá, inevitavelmente; c)
ter em vista a nossa missão na presente reencarnação, seja na família ou
cumprindo as diversas obrigações que Deus nos confiou; d) Força, coragem para
suportar àquelas impressões, encarando-as com determinação. Frente ao exposto,
façamos uma breve meditação em torno dessas recomendações logo abaixo:
Quando
a tristeza comum ou melancolia se achegar podemos tentar resistir, como propõe
o benfeitor espiritual, com energia, ou seja, com uma disposição da alma de não
se entregar a esse quadro emocional até porque temos razões de compreender, a
luz do pensamento espírita, o significado do momento presente como aprendizagem
para o ser imortal que somos. A vontade, que é uma das potencias da alma, deve
estar fortalecida pela energia que empreendemos em seu favor para que, com
objetivo esclarecido, modifiquemos a paisagem que se delineia em nós mesmos.
Aqui um recurso útil seria a prática da meditação[10].
Ao
considerar a brevidade da reencarnação e a certeza de nossa ancianidade e
imortalidade, as agruras dessa vida são quase um nada porque observadas de um
ponto de vista mais amplo podem ser compreendidas como acidentes de percurso
que carregam consigo lições ao aprendiz atento que procura aproveitar de cada
experiência aquilo que pode lhe enriquecer a alma. Esses saberes, quando
devidamente apropriados, promovem a paciência que, a seu modo, conduz paulatinamente
à paz interior. E é de gente apaziguada com força interior suficiente para
pacificar que o nosso mundo precisa.
Ainda cabe considerar que, nessa
reencarnação, temos uma variedade de deveres para conosco e para com o próximo
a começar pelo nosso lar e extensivo à sociedade. Tenhamos em mente, quando a
tristeza quiser se aprofundar e inspirar patologicamente algum desejo de morte,
que Deus concede “A cada um a sua missão, a cada um o seu trabalho.”[11]
Assim sendo, conhecendo-nos traçamos objetivos em sintonia com o que somos e a
forma pela qual podemos contribuir com o progresso coletivo, fazendo-nos
agentes transformadores da realidade a começar pelo nosso mundo íntimo.
Por fim, ante as investidas
sombrias do pessimismo e da tristeza recordemo-nos da lição do farol, ainda que
as noites sejam de tormenta, mantém-se impoluto diante da violência das vagas
suportando-as sem tombar e iluminando a jornada dos que prosseguem no mar. O
farol assinala um porto-seguro. A pessoa que procura lidar com a tristeza sem
deixar dominar-se demoradamente por ela – senti-la é normal e saudável – pode
acender luz nesses dias de transição e ausência aparente de referenciais
apaziguadores. Ela pode iluminar caminhos, sem que tenha essa pretensão, pela
luz que acende em sua alma projetando-se corajosamente em um processo de
evolução consciente nas lutas da vida.
[1] Educador, pesquisador e editor do blog SABERES DO
ESPÍRITO.
[2] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. V, item 25.
[3] O Livro dos Espíritos, questão 921.
[4] SINOTI, Iris. Depressão: uma luz na escuridão. In:
Núcleo de Estudos Psicológicos Joanna de Ângelis. Refletindo a alma: a psicologia espírita de Joanna de Ângelis.
Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada Editora, 2011, p. 291-317.
[5] MAY, Rollo. O
homem a procura de si mesmo. 36. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011, p. 23.
[6]
Sobre esse tema vide o meu artigo “Apreciações
sobre a normose” em: http://saberesdoespirito.blogspot.com.br/2010/03/apreciacoes-sobre-normose.html.
[7] O Self deve ser compreendido como um arquétipo do
potencial humano em sua plenitude e tem a função de ordenar a vida psicológica
do indivíduo. Roberto (2004, p. 52) assim o define: “sentido orientador
fundamental, fonte criadora e reguladora de nossa vida psíquica, centro
ordenador e unificador da psique. (Vide: ROBERTO, Gelson Luis. Aquém e além do tempo: uma visão
psicológica e espírita das etapas da vida. Editora Letras de Luz, 2004.)
[8]
O Livro dos Espíritos, questão 919.
[9] FRANKL, Viktor E..
Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25. Ed. São
Leopoldo: Sinodal, Petrópolis: Vozes, 2008, p. 131-134.
[10] Caso o leitor queira refletir um pouco mais sobre o
tema da meditação, numa perspectiva espírita, sugiro o texto “Medite sempre”,
acessível em: http://saberesdoespirito.blogspot.com.br/2012/02/medite-sempre.html
[11]
O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. I, item
10.
Assinar:
Postagens (Atom)


.jpg)








