domingo, 25 de abril de 2010

A pobreza e o atendimento espiritual na Casa Espírita

“Estes princípios, para mim, não existem apenas em teoria, pois que os ponho em prática; faço tanto bem quanto o permite a minha posição; presto serviços quando posso; os pobres nunca foram repelidos de minha porta, ou tratados com dureza; foram recebidos sempre, a qualquer hora, com a mesma benevolência; jamais me queixei dos passos que hei dado para fazer um benefício (...).” - Allan Kardec. (1)


A caridade como paradigma

Na epígrafe acima encontramos um trecho selecionado de pensamentos íntimos do mestre Allan Kardec a respeito da caridade, constante numa obra publicada após a sua desencarnação que, por sua vez, contém a compilação de uma série de manuscritos postumamente apresentados na Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos.

Nesse texto, em especial, vemos Kardec ressaltar que a caridade para ele não era mera máxima ou palavra bem posta nos lábios, era uma práxis, ou seja, uma atitude conectada ao exercício do raciocínio sobre a mesma.

Destaca, ainda, que realizava algo em prol do próximo sempre que possível, denotando que seu diminuto tempo livre era disposto no serviço ao outro e, ainda, numa abertura de coração aos mais pobres cujo acolhimento não tinha hora para acontecer.

terça-feira, 20 de abril de 2010

QUANDO CAI UM SOLDADO


Ao voltar do campo de lutas, recolhendo os bravos que sucumbiram, muitas reflexos nos visitam a alma afeita a estes embates e sempre identificamos que a queda, no mais das vezes, é fruto da solidão.

Os batedores do caminho, aqueles que vasculham e abrem trilhas para que seus predecessores avancem, os que olham o horizonte e tentam desvendar a presença do inimigo e suas estratégias, no afã de conduzir as fileiras em segurança, fazem trajeto solitário e contam apenas com o seu discernimento e capacidade de resistência.



Os companheiros que palmilham estradas, as mais das vezes, abertas por estes vanguardeiros, acomodam-se esquecidos de que lá, no front da luta eles guardam as mesmas fragilidades, medos  e inseguranças dos que marcham nas últimas formações.



São tão humanos e mortais, vulneráveis, ainda que dotados de coragem e iniciativa .



São os grandes esquecidos nos nossos contingentes. As suas horas de apreensão, de incertezas, as suas preocupações sequer são percebidas, porquanto vividas no retiro, distanciado dos seus cômpares, que lhes atribuem, por vezes, o galardão de heróis ou seres imbatíveis.



O longo tempo da espera pelo amigo que se faça presença incondicional, que ajude na vigilância dos acampamentos em que nos retemperamos da  marcha; o anseio pelo olhar fraterno que auxilie a perscrutar o horizonte e os sinais de perigo que se avizinham, provocam o sono comprometedor, quedando-se o batedor vencido e surpreendido pelas emboscadas do caminho.

Contemplá-lo vencido, sentimos o quanto contribuímos para a sua derrota.



A solidão dos líderes. Eis a porta mais vulnerável à investida dos que espreitam nas sombras para disseminarem o caos e impingir derrotas às falanges devotadas ao trabalho de edificação moral na Terra.



Lembremo-nos, todos, de que o mais perfeito dos homens que conhecemos escolheu não caminhar sozinho, ainda que em dados instantes, tenha se consorciado ao abandono, para poupar seus seguidores.



A solidão é enganosa. Provoca a ilusão de fortaleza e produz a sensação de autosuficiência.

No isolamento, a que relegamos os líderes, alimentamos o combustível da vaidade, esta filha dileta do orgulho. Aprofundamos o fosso da distância que passa a reger as relações entre líderes e liderados, uma vez que este contexto das vivências humanas ainda é deficitário no entendimento da humanidade.



Olha para o lutador que tombou e verás a ti mesmo, tantas vezes impotente para continuar, exausto quando todos te pensam gigante.

Recolhe teus bravos. Uma luta perdida não compromete a guerra perene contra as hostes do mal que se aninha em nós. A menos que entreguemos aos seus tentáculos os nossos contendores nas horas difíceis que
experimentarem.

Com fraternal apreço.
Sepé







(Psicografado no Hospital Espírita de Porto Alegre, por Maria Elisabeth Barbieri)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A insensatez do preconceito


VINÍCIUS LOUSADA - EDUCADOR

É tempo de transformar. É tempo de educar. – Camilo





A presença do preconceito na atualidade denota nosso estágio de civilização incompleta que, embora tenha logrado diversos sucessos no campo da ciência e da tecnologia, não avançou suficientemente em desenvolvimento moral.

Fruto do egoísmo, este sentimento mostra-se como uma modalidade da violência que, não obstante o seu caráter simbólico, estigmatiza milhares de criaturas legitimando desigualdades e explicitando um espírito de intolerância pelo qual é veiculado.

O pensamento preconceituoso revela uma racionalidade instrumental, linear, rígida e egocêntrica, historicamente cultivada numa leitura da vida e do outro a partir dos referenciais do observador que, na sua soberba, coisifica os objetos de sua análise.

Assim, o outro, por ser diferente, passa a ser visto como oponente ou alvo de nossa conquista, e para se ter qualquer nível de proximidade, nega-se a existência de seu universo particular, convertendo-o ao nosso, ignorando-o, domesticando-o, na tentativa de destruir a sua identidade.

Tal habitus, apresentado ao longo da história da humanidade, nos processos colonizadores de terras e povos ou nas disputas religiosas e sangrentas, bem caracteriza a demência dos homens e mulheres que nele se enveredam desperdiçando relevantes oportunidades de aprendizado.

Leonardo Boff, numa reflexão muito pertinente sobre a ambigüidade da conduta humana, lembra que a racionalidade do homem moderno, tão elogiada por conquistar, desvendar os mecanismos da natureza e interpretar os sentidos do mundo, é a mesma que apresenta seu “lado de demência, de lobo voraz e de satã da Terra. É o homo demens demens.”(1) A criatura intelectualizada que descobre a cura de enfermidades, que legisla em prol da justiça social, também fomenta armas químicas, produz desigualdades, cultiva preconceitos. Na sua dubiedade comportamental a humanidade é sapiens e é demens, postula a favor da vida, mas também cede ao instinto de destruição.

E na sua escrita instigante, o referido filósofo cristão levanta um questionamento a respeito da possibilidade de se articular estas duas facetas do ser humano, ou seja, de uma síntese capaz de superar esta contradição sapiens/demens, sabedoria/demência, lucidez/estupidez, sugerindo que necessitamos “construir pontes. Criar uma terceira margem. Ultrapassar oposições.”

Acredito que o Espiritismo tem uma notável contribuição neste sentido, pois nos enseja compreender que somos seres imortais inseridos numa caminhada educativa e, por isso, progredindo, via reencarnação, em inteligência e moralidade. Dessa forma, apreendemos que esta dicotomia comportamental, ainda presente em nossa civilização, só será superada, conforme nos assinalam os Espíritos, “(...) quando o moral estiver tão desenvolvido quanto a inteligência.” (2)

Enquanto isso não acontece, o preconceito demonstra o egoísmo que há no psiquismo humano, ainda não totalmente burilado mas que, fatalmente, será levado a cabo no circuito das vidas sucessivas.

“O egoísmo é a persistência em nós desse individualismo feroz que caracteriza o animal, como vestígio do estado de inferioridade pelo qual todos já passamos.”(3) – diz-nos Léon Denis, reafirmando a Codificação que demonstra ser o egoísmo esta herança do primarismo pelo qual já transitou o princípio inteligente nos tempos em que andava na fieira da ignorância.

Vindo o Espírito, ao longo de sua jornada ascensional, aprendendo a domar os instintos pelos mecanismos do sofrimento, alargando a inteligência pelas exigências do trabalho, despertando paulatinamente para a presença e lutas de seus pares, é estimulado a desenvolver os sentimentos nos laços sociais estabelecidos, primeiramente com os membros do grupo consangüíneo, para acordar ao altruísmo que lhe é latente, a fim de atender pelo amor à realidade da grande família universal.

Atravessamos este processo evolutivo pelos reinos da natureza até chegarmos na fase hominal e um dia seremos Espíritos Puros.

Estagiamos nas variadas moradas do universo, reencarnamos em diferentes povos, vivemos em diversos climas, culturas e cores, alternamos a morfologia sexual – conforme as nossas necessidades evolutivas –, ora estivemos ricos, ora pobres... Sabendo disso tudo, a insensatez do preconceito se revela ainda mais patente aos nossos olhos.

Portanto, aprendamos a conviver respeitando as diferenças, rompendo qualquer concepção de racismo, sexismo, fundamentalismo religioso ou político. Optemos, no espaço público, pelo diálogo, pela multiculturalidade, pelo ecumenismo, pela diversidade étnica, pelo pluralismo, todos radicalmente necessários a uma democracia real!

Ao invés da competição, estabeleçamos a cooperação em nossos relacionamentos. Ninguém precisa abrir mão de suas convicções, mas tem de respeitar as dos demais.

Valorizemos a outredade(4) , reafirmada por Paulo Freire como a expressão do “não-eu” do outro. Cada qual possui sua identidade cultural, tem o direito de assumi-la e manifestar-se nela na vida social desde que não fira os direitos alheios.

Não queremos homogeneizar o mundo, correndo o risco de perder a beleza de sua diversidade, ou queremos?

Compreendamos o próximo como sendo outro ser, condutor de sua própria história, com suas razões, vivências, subjetividade e saberes, libertando-nos do desejo doentio de que sua fala seja eco da nossa, sua opinião reflexo da que portamos, ou ainda, que ele seja “clone” de nós mesmos.

“Abolindo os prejuízos de seitas, castas e cores, [o Espiritismo] ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.”(5) Então, tenhamos coragem de desrespeitar a lógica dos preconceitos, educando-nos com os valores que os saberes espíritas nos conferem para uma vida plena de aprendizagens significativas, afastando-nos da miopia do materialismo e fazendo-nos entender onde estão nossos verdadeiros interesses sob o prisma da espiritualidade.



1. BOFF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1988, p. 16, 17.


2. O Livro dos Espíritos, questão 791.

3. DENIS, Léon. Depois da morte. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1987, p. 268.

4. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 14 ed. São Paulo: Paz e Terra, p. 46.

5. O Livro dos Espíritos, questão 799.

sábado, 3 de abril de 2010

Espiritismo no Brasil na opinião de Chico Xavier


No seu modo de entender, como se situa o Espiritismo no Brasil?

Chico Xavier:


- Desde muito, os instrutores desencarnados nos ensinam, por via mediúnica, que o Espiritismo no Brasil é realmente a Doutrina Codificada por Allan Kardec, restaurando os ensinamentos de Jesus, em sua simplicidade e clareza. Enquanto em muitos países diferentes do nosso, a prática espírita se resume a observações puramente científicas e a técnicas mediúnicas, entre nós, brasileiros, o assunto assume características diversas, compreendendo-se que o reconhecimento da imortalidade da alma faz-se acompanhar de conseqüências morais a que não nos será lícito fugir. Aprendemos com Allan Kardec que a Doutrina Espírita é a presença espiritual de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, conclamando-nos à vivência real dos seus ensinamentos de luz e amor.

Em razão disso, o Espiritismo no Brasil é a caridade em ação com a fé raciocinada baseando-lhe as iniciativas e movimentos. Consultemos o acervo das instituições assistenciais do Espiritismo Cristão, espalhadas no Brasil inteiro e observemos a difusão das obras de Allan Kardec, em todo o nosso País, com a supervisão e o devotamento da Federação Espírita Brasileira e ser-nos-á fácil reconhecer em nosso desenvolvimento coletivo a presença do Espiritismo em sua legítima expressão, a definir-se como sendo o retorno das criaturas ao Cristianismo simples e puro.

(Do livro de Elias Barbosa, No Mundo de Chico Xavier, editado pelo Instituto de Difusão Espírita, de Araras, SP)



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Notas Bibliográficas - OS EVANGELHOS EXPLICADOS Pelo Sr. Roustaing


Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos em O Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras exceções, geralmente são claras, elas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; por isso jamais foram assunto de controvérsias religiosas. Foi por esta razão que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita.



Os Quatro Evangelhos, seguidos dos mandamentos explicados em espírito e em verdade pelos evangelistas, assistidos pelos apóstolos.
Recolhidos e coordenados por J.-B. Roustaing, advogado na corte imperial de Bordeaux, antigo bastonário. – 3 vols. In-12. – Preço: 10 fr. 50. – Paris, Librairie centrale, 24, boulevard des Italiens. – Bordeaux, todos os livreiros.


O autor desta nova obra julgou dever seguir outro caminho; em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por conseqüência, lhe deixamos a responsabilidade, bem como aos Espíritos que as comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita.



Quando tratarmos destas questões, fá-lo-emos categoricamente. Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria; é assim que temos feito, toda vez que se trata de formular um princípio capital. Já dissemos cem vezes: Para nós a opinião de um Espírito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma lógica rigorosa, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos.



De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como verdade absoluta se, mais tarde, devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritos?

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns.

Nossas observações assentam sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que ele dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídicoconcretizado, tendo todas as aparências da materialidade, e dele faz um agênere. Aos olhos dos homens que então não tivessem podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado em aparência, expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, para todas as vicissitudes da Humanidade. Assim se explicaria o mistério de seu nascimento: Maria não teria tido senão as aparências da gravidez. Este ponto, posto como premissa e pedra angular, é a base sobre a qual ele se apóia para a explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus.



Sem dúvida nada há nisso de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do invólucro perispiritual. Sem nos pronunciarmos a favor ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errônea, faltando a base, o edifício desabaria.



Esperamos, pois, os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas sérias objeções a essa teoria, e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal.



Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância desta obra, que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com proveito pelos espíritas sérios.



Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e também concorre com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se a obra se tivesse limitado ao estritamente necessário, poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume, com isso ganhando em popularidade.

                                                                        Allan Kardec

(Artigo retirado da Revista Espírita, junho de 1866)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Do ponto de vista religioso...



Do ponto de vista religioso, o Espiritismo tem por base as verdades fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade, as penas e as recompensas futuras; mas é independente de qualquer culto particular. Seu propósito é provar, aos que negam ou duvidam que a alma existe, que ela sobrevive ao corpo, que ela sofre depois da morte as conseqüências ao bem e do mal que fez durante a vida corpórea; ora, isto é de todas as religiões.

Como crença nos espíritos, também não se afasta de qualquer religião, ou de qualquer povo, porque em todo lugar onde há homens há almas ou espíritos; que as manifestações são de todos os tempos, e o relato delas acha-se em todas as religiões, sem exceção. Pode-se, portanto, ser católico, grego ou romano, protestante, judeu ou muçulmano, e acreditar nas manifestações dos espíritos, e conseqüentemente ser Espírita; a prova é que o Espiritismo tem aderentes em todas as seitas.

Como moral, ele é essencialmente cristão, porque a doutrina que ensina é tão-somente o desenvolvimento e a aplicação da do Cristo, a mais pura de todas, cuja superioridade não é contestada por ninguém, prova evidente de que é a lei de Deus; ora, a moral está a serviço de todo mundo.

O Espiritismo, sendo independente de qualquer forma de culto, não prescrevendo nenhum deles, não se ocupando de dogmas particulares, não é uma religião especial, pois não tem nem seus padres nem seus templos. Aos que indagam se fazem bem em seguir esta ou aquela prática, ele responde: Se sua consciência pede para fazê-lo, faça-o; Deus sempre leva em conta a intenção. Em resumo, ele não se impõe a ninguém; não se destina àqueles que têm fé ou àqueles a quem essa fé basta, mas à numerosa categoria dos inseguros e dos incrédulos; ele não os tira da Igreja, visto que eles se separaram dela moralmente em tudo, ou em parte; ele os faz percorrer os três quartos do caminho para entrar nela; cabe a ela fazer o resto.

O Espiritismo combate, é verdade, certas crenças como a eternidade das penas, o fogo material do inferno, a personalidade do diabo, etc.; mas não é certo que essas crenças, impostas como absolutas, sempre fizeram incrédulos e continuam a fazê-los? Se o Espiritismo, dando desses dogmas e de alguns outros uma interpretação racional, devolve à fé aqueles que dela desertaram não está prestando serviço à religião? Assim, um venerável eclesiástico dizia a esse respeito: "O Espiritismo faz acreditar em alguma coisa; ora, é melhor acreditar em alguma coisa que não acreditar em absolutamente nada."

Os Espíritos não sendo senão almas, não se pode negar os Espíritos sem negar a alma. Sendo admitidas as almas ou Espíritos, a questão reduzida à sua mais simples expressão é esta: As almas dos que morreram podem comunicar-se com os vivos? O Espiritismo prova a afirmativa pelos fatos materiais; que prova se pode dar de que isso não é possível? Se assim é, todas as negações do mundo não impedirão que assim seja, pois não se trata nem de um sistema, nem de uma teoria, mas de uma lei da natureza; ora, contra as leis da natureza, a vontade do homem é impotente; é preciso, querendo ou não, aceitar suas conseqüências, e adequar suas crenças e seus hábitos.

Allan Kardec
(trecho do livro "O Espiritismo em sua mais simples expressão")

quinta-feira, 18 de março de 2010

Apreciações sobre a normose*






Vinícius Lousada[1]

Estabelecer técnicas e ética de comportamento psicológico assentadas na experiência com alguns biótipos é conspirar contra a saúde emocional, porquanto os valores que a uns preenchem as carências, para outros, passam sem qualquer significativa emoção. – Joanna de Ângelis[2]



No campo dos estudos orientados pelo paradigma holista – que procura compreender ao mesmo tempo o todo e as partes da realidade – nas últimas décadas, um conceito sobre o caráter patológico da adesão cega de indivíduos a uma concepção hegemônica de normalidade, causadora de sofrimento, passou a ser elaborado por alguns pensadores de forma sincrônica[3] (simultaneamente ou não, sem nexo causal comum), trata-se do termo normose.
A normose pode ser compreendida como uma gama de normas, conceitos, valores, esteriótipos, hábitos de pensar ou de agir, aprovados consensualmente por um grupo social, provocando sofrimento, doença ou morte. “Em outras palavras é algo patogênico e letal, executado sem que seus autores e seus atores tenham consciência de sua natureza patológica.”[4]
A característica marcante da normose é a reprodução comportamental de normas sociais e valores negativos de modo automático e inconsciente. O normótico ignora essa enfermidade moral e crê piamente que quem não se enquadra no conjunto da coletividade nos padrões pré-estabelecidos, mesmo que sejam absurdos, é anormal e infeliz.
            Entretanto, o normótico vive de modo inautêntico. Seu jeito de ser e estar no mundo e com os outros é escravizado pelo que reza o grupo que pertence ou por aquilo que a mídia apregoa, permitindo-se ser docilmente norteado pela lógica do consumismo e pela ilusão do fundamentalismo materialista ou espiritualista ofertado.
A pessoa normótica não tem pensamento, opinião e gosto próprio, segue o “rebanho”, faz como todo mundo faz ou ao menos tenta. Quando não consegue ser igualzinha aos outros se frustra e passa a viver ansiosa em suas tentativas de ser apenas mais uma engrenagem ajustada ao mecanismo da sociedade, entregando-se a uma vida pouco reflexiva e nada criativa.
O problema não é procurar seguir num pensamento e conduta reta, mas, sim, em ser sal insípido[5], conforme nos alertava Jesus, deixando de fazer a diferença quando o propósito mais amplo da existência é multiplicar os talentos que somos portadores, superando as emoções que causam do sofrimento, numa conviviabilidade pautada no bem.
A normose é uma normalidade doentia e se diferencia da normalidade saudável porque ela impede o sujeito de ser mais, é um interdito externo assumido internamente, psicologicamente.
Podemos aproximá-la do conceito de auto-obsessão segundo a escritora espírita Suely Schubert[6] onde, no comportamento normótico, o indivíduo é obsessor de si mesmo, impondo-se uma idéia fixa, um comportamento cristalizado, optando por viver num círculo vicioso que é necrófilo em suas conseqüências.
Manifestada de maneira geral ou em suas versões específicas, estudadas por especialistas no tema, a normose provoca a atitude invejosa, a baixa autoestima, a ansiedade e outros tantos transtornos psicológicos.
A principal ferramenta profilática que temos é o conhecimento de si mesmo que leva à lucidez mental e ao refinamento do livre-arbítrio, de tal forma que o sujeito que se conhece pode ter um olhar mais acurado das possibilidades criativas de que é portador.
No campo da crença cabe o cultivo da liberdade de pensar que significa na definição kardeciana “livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada. Simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física.”[7] O hábito de pensar livremente edifica a autonomia espiritual do indivíduo.
Nesse sentido, aquele que pensa livremente não se permite escravizar pelo pensamento alheio, pois, assume uma posição crítica, uma atitude filosófica no seu cotidiano e previne-se contra o automatismo nas ações.
Aliás, essa parece ser a questão central de nossa busca espiritual: assumir-se instituindo um significado maior ao que fazemos todos os dias, nas diversas áreas em que produzimos a nossa existência.
Somos seres transcendentes com sede de espiritualidade, não de uma espiritualidade rasa, presa a ritos e dogmas ininteligíveis (normose religiosa), mas de um nível mais profundo de realidade em que, como lembra o filósofo Mário Cortella[8], passamos ver as coisas que fazemos não como um fim em si mesmas, mas, com razões para além do plano imediato.







[1] Educador e pesquisador, editor do blog www.saberesdoespirito.blogspot.com
[2] FRANCO, Divaldo. O despertar do espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Leal, 2000, p. 20.
[3] NOVAES, Adenauer. Mito Pessoal e Destino Humano. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2005, p. 69
[4] WEIL, Pierre. Normose: a patologia da normalidade. Pierre Weill, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema. Campinas, SP: Verus Editora, 2003, p. 22.
[5] Mateus 5:13.
[6] SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão/desobsessão: profilaxia e terapêutica espíritas. 16a ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
[7] Revista Espírita, fevereiro de 1867 - Livre-Pensamento e Livre-Consciência.
[8] CORTELLA, Mário Sérgio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética.3.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 13.

(*) Nota explicativa: texto alterado pelo autor em 31/12/12.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Artigos científicos no portal da FEB


No portal da Federação Espírita Brasileira é possível acessar artigos centíficos de diferentes áreas do conhecimento sobre a temática espírita.


Bons estudos!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Médiuns Especiais - Allan Kardec


A experiência prova diariamente quanto são numerosas as variedades da faculdade mediúnica, mas também nos prova que os diversos matizes dessa faculdade são devidos a aptidõesespeciais ainda não definidas, abstração feita das qualidades e dos conhecimentos do Espírito que se manifesta.

A natureza das comunicações é sempre relativa à natureza do Espírito e traz o cunho de sua elevação ou de sua inferioridade, de seu saber ou de sua ignorância. Mas, considerando-se o mesmo mérito, do ponto de vista hierárquico, nele há, incontestavelmente, uma propensão para ocupar-se de uma coisa, em vez de outra. Os Espíritos batedores, por exemplo, quase não saem das manifestações físicas. Entre os que dão manifestações inteligentes, há Espíritos poetas, músicos, desenhistas, moralistas, sábios, médicos, etc. Falamos de Espíritos de uma ordem média, porquanto, chegados a um certo grau, as aptidões se confundem na unidade da perfeição. Mas, ao lado da aptidão do Espírito, há também a do médium que, para o primeiro, é um instrumento mais ou menos cômodo, mais ou menos flexível, e no qual descobre qualidades particulares que não podemos apreciar.

Façamos uma comparação: Um músico muito hábil tem em mãos vários violinos; para o vulgo, são todos bons, mas entre os quais o artista consumado faz uma grande diferença. Capta matizes de extrema delicadeza, que o levam a escolher uns e rejeitar outros, matizes que compreende por intuição, mas que é incapaz de definir. O mesmo se dá em relação aos médiuns: para idênticas qualidades na força mediúnica, o Espírito dará preferência a este ou àquele, conforme o gênero de comunicação que queira dar. Assim, por exemplo, vemos pessoas que escrevem, como médiuns, poesias admiráveis, embora em condições ordinárias jamais tenham conseguido fazer um verso; outros, ao contrário, são poetas, mas, como médiuns, só escrevem prosa, apesar de seu desejo. O mesmo se dá com o desenho, a música, etc. Também há os que, sem conhecimentos científicos próprios, têm uma aptidão toda particular para receber comunicações científicas; outros, para estudos históricos; outros servem mais facilmente de intérpretes aos Espíritos moralistas. Numa palavra, seja qual for a flexibilidade do médium, as comunicações que recebe com mais facilidade têm geralmente um sinete especial. Alguns, até, não saem de um certo círculo de idéias e, quando dele se afastam, só obtêm comunicações incompletas, lacônicas e freqüentemente falsas. Excetuando-se as causas de aptidão, os Espíritos ainda se comunicam, com maior ou menor boa vontade, por tal ou qual intermediário, conforme as suas simpatias. Assim, considerando-se a mesma igualdade de aptidões, o mesmo Espírito será muito mais explícito através de certos médiuns, pelo simples fato de que esses lhes convêm melhor.

Portanto, incorreríamos em erro se, pelo simples fato de termos um bom médium à mão, que escrevesse com facilidade, pudéssemos, por seu intermédio, obter boas comunicações de todos os gêneros. A primeira condição para obter-se boas comunicações é, sem contradita, assegurar-se da fonte de onde emanam, isto é, das qualidades do Espírito que as transmite; mas não é menos importante levar em conta as qualidades do instrumento oferecido ao Espírito. É necessário, pois, estudar a natureza do médium, como se estuda a do Espírito, pois aí estão os dois elementos essenciais para se obter resultados satisfatórios. Há um terceiro que desempenha um papel igualmente importante: a intenção, o pensamento íntimo, o sentimento mais ou menos louvável de quem interroga; e isto se concebe. Para que uma comunicação seja boa, é preciso que emane de um Espírito bom; para que esse Espírito bom possa transmiti-la, é necessário um bom instrumento; para que a queira transmitir, é preciso que o objetivo lhe convenha. Lendo o pensamento, o Espírito julga se a pergunta que lhe é feita merece uma resposta séria e se a pessoa que a dirige é digna de recebê-la. Caso contrário, não perde o tempo em semear bons grãos em terra imprópria; e é então que os Espíritos levianos e zombadores aproveitam o campo, deixado livre, porquanto, pouco se importando com a verdade, não hesitam em fazê-lo, e geralmente são muito pouco escrupulosos quanto aos fins e aos meios.

De acordo com o que acabamos de dizer, compreendesse que deve haver Espíritos, por gosto ou pela razão, mais especialmente ocupados com o alívio da humanidade sofredora; que, paralelamente, deve haver médiuns mais aptos que outros a lhes servirem de intermediários. Ora, como esses Espíritos agem exclusivamente com vistas ao bem, devem procurar em seus intérpretes, além da aptidão que poderia ser chamada fisiológica, certas qualidades morais, entre as quais figuram, em primeira linha, o devotamento e o desinteresse. A cupidez sempre foi, e será sempre, um motivo de repulsa para os Espíritos bons e uma causa de atração para os outros. É admissível possa o bom-senso aceitar que os Espíritos superiores se prestem a todas as combinações de interesse material e que estejam às ordens do primeiro que aparecer, pretendendo explorá-los? Os Espíritos, sejam quais forem, não querem ser explorados; e, se alguns parecem estar de acordo, se mesmo se adiantam a certos desejos demasiado mundanos, quase sempre têm em vista uma mistificação, de que se riem depois, como de uma boa peça pregada a gente muito crédula. Ademais, talvez não seja inútil que alguns queimem os dedos, a fim de aprenderem que não se deve brincar com coisas sérias.

Seria o caso de falarmos aqui de um desses médiuns privilegiados, que os Espíritos curadores parece haverem tomado sob seu patrocínio direto. A Srta. Désirée Godu, que reside em Hennebon (Morbihan), goza, a este respeito, de uma faculdade verdadeiramente excepcional, que utiliza com a mais piedosa abnegação. Sobre isto já dissemos algumas palavras num relatório das sessões da Sociedade, mas a importância do assunto merece um artigo especial, que teremos a satisfação de lhe consagrar em nosso próximo número. À parte o interesse que se liga ao estudo de toda faculdade rara, sempre consideramos como um dever dar a conhecer o bem e fazer justiça a quem o pratica.



(Revista Espírita, fevereiro de 1860)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Educação e Ambiente





 
Vinícius Lousada



A ecologia não deverá ser dissociada da educação, a fim de que alcance os seus enobrecidos objetivos sobre o mundo.- Camilo

A temática ambiental é uma das questões que mais está em voga na atualidade. É pauta de discussões e ações dos movimentos sociais, consiste em conteúdo nas escolas, faz-se tônica na produção de algumas leis em defesa do ambiente, dos seres vivos e, ao mesmo tempo, impõe-se como assunto prioritário nos encaminhamentos e definições sobre desenvolvimento nas sociedades humanas.

Marcada por múltiplas tendências teóricas e metodológicas, pela heterogeneidade de princípios, as ações coletivas que delineiam o ambientalismo têm em comum a defesa e preservação da vida em nossa Casa Planetária.

Infinidade de almas, centradas na concepção da Natureza como um bem, afinadas com um sentimento de profundo respeito em relação à Mãe-Terra, têm se disposto a lutar, mediante suas práxis, pela construção de políticas públicas, de elaboração de órgãos oficiais e não-governamentais de orientação local e global, na tentativa de propor meios alternativos de desenvolvimento sócio-econômico que entenda a vida como um valor em si mesma.

Inspirados por inteligências enobrecidas do mais-além, esses lidadores da questão ambiental vêm estruturando tratados entre governos, cartas de compromisso por parte dos povos, promovendo e pesquisando meios de educar as massas e inverter a lógica egotista do “lucro sem freios” geratriz de tanta destruição, cumprindo todos nobilitantes tarefas junto a esta digna causa.

Esses Espíritos comprometidos com a questão ambiental dão à vida a sua contribuição, tentando sensibilizar seus pares, alertando-os dos riscos do enfraquecimento da camada de Ozônio, do desmatamento da Amazônia e de outras florestas, despertá-los para a realidade da futura escassez da água potável causada pela poluição e desperdício das águas; ou, ainda, à proteção de espécies quase extintas e dos ecossistemas – viveiros naturais de várias espécies, etc.

Quando Allan Kardec interrogou aos Espíritos da Codificação sobre o “Que se deve pensar da destruição, quando ultrapassa os limites que as necessidades e a segurança traçam?” Alcançou uma alarmante resposta da qual reproduzirei a parte que nos interessa na questão. Dizem os Espíritos: “Predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus.(...) [o homem] Terá que prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, pois isso significa que cede aos maus instintos.” (1)

Desta forma, notamos na elucidação dos Espíritos que a humanidade se atira à destruição indevida do seu oikos (casa) porque se deixa dirigir por sua remanescente bestialidade, ou seja, pela animalidade que ainda conduz no imo da alma, herdeira que é da conduta moral que historicamente tem se afeiçoado.

Abusando de sua liberdade de pensar e agir, dando vez à sua inferioridade, é que os homens e as mulheres dão-se ao luxo de agredir seu Planeta, de eliminar a vida em suas formas mais singelas às mais complexas e é assim que acabam por violar a Lei Natural, desequilibrando a harmonia do sistema em que vivem – sistema complexo que não deve ser compreendido apenas como a soma de suas partes, mas também como as inter-relações entre suas partes e destas com a totalidade –, gerando desmedida destruição da qual, pela lei de causa e efeito, receberão as conseqüências no circuito das vidas sucessivas.

Penso que precisamos nos conscientizar de que “Compartilhamos a vida com outros seres da vida, somos todos o todo e a parte de uma mesma dimensão de tudo o que existe.” (2) Vivemos em interdependência relacional com os demais seres vivos existentes e com os outros de nossa espécie, por isso, nesse compartilhar e conviver da existência, influenciamos e somos influenciados pelos outros, pelo nosso ecossistema, bem como pelo produto de nossas ações sobre a Natureza. E em virtude de um axioma básico da vida, desculpem-me a obviedade, colhemos o que plantamos em tudo o que fazemos.

Isto me faz recordar uma célebre afirmação atribuída a um chefe indígena americano que a teria postulado nestes termos: “Tudo está entrelaçado. Tudo o que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra. O homem não teceu a trama da vida, ele é apenas um fio.” (3) Ou seja, por causa de nossa intrincada conexão com a realidade objetiva que nos cerca, toda ação destrutiva, aviltadora dos recursos naturais ou do que é pertinente à vida alheia, cedo ou tarde, chegar-nos-á mediante seus funestos resultados.

Nesta lógica, a crise ambiental vigente é, sem sombra de dúvida, efeito de um racionalismo a serviço de uma lucratividade inconseqüente que, nas atitudes implementadas, tem desconsiderado esse princípio da sabedoria dos povos indígenas.

No entanto, uma consciência ambiental, se assim posso me exprimir, não pode ser forjada com a mera transmissão de informações, ela exige a construção de atitudes mais respeitosas com o ambiente, pede intervenções educativas que considerem os saberes ecológicos e que promovam a assunção dos educandos como sujeitos viventes num mundo com outros seres vivos, sabedores da responsabilidade advinda do reconhecimento de sua natureza espiritual e, da mesma forma, da finalidade educativa de sua estada temporária na Terra.

Outro aspecto que envolve a urgente temática da ecologia é que esta não pode esquecer em seus reclames o ser humano, não somente no sentido de formatar nova mentalidade junto dele, no que toca ao “amor ao verde”, mas também com a própria vida humana em sua complexa presença.

É de importância ímpar que levemos em conta a questão do cuidado com os nossos irmãos em humanidade, sobretudo aqueles a quem a pobreza lhes é impingida, expondo-os facilmente aos riscos da sórdida expansão do egoísmo globalizado.

São estes e estas que algemados ao problema ambiental da fome, da miséria, do trabalho escravo ainda existente, que precisam de uma definição nossa ou daqueles que se dizem cristãos na luta contra o egoísmo, “essa lepra que se deve atribuir o fato de não haver ainda o Cristianismo desempenhado por completo a sua missão.” (4)

Convidados por Cristo a edificarmos o Reino em nossa intimidade, meditemos, pois, nas proposições que nos permitem as reflexões espíritas sobre a temática ambiental, buscando fazer a nossa bestialidade destrutiva ceder à natureza espiritual que possuímos, propulsionadora de dias melhores na História de todos nós.

(1) O Livro dos Espíritos, questão 735.


(2) BRANDÃO, Carlos R. Em campo aberto: escritos sobre a educação e a cultura popular. São Paulo: Cortez, 1995, p. 223.

(3) LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2001, p. 30.

(4) O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XI, item 12.