sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A beneficência

A mulher rica, feliz, que não tem necessidade de empregar o seu tempo nos trabalhos da casa, não pode dedicar algumas horas ao serviço do próximo? Que, com as sobras dos seus gastos felizes, compre agasalhos para o infeliz que tirita de frio; com suas mãos delicadas, confeccione roupas grosseiras, mas quentes, e ajude a mãe pobre a vestir o filho que vai nascer. Se o seu filho, com isso, ficar com alguns rendados de menos, o daquela terá mais calor. Trabalhar para os pobres é trabalhar na Vinha do Senhor.

E tu, pobre operária, que não dispõe de sobras, mas que desejas, no amor por teus irmãos, dar também um pouco do que possuis, oferece algumas horas do teu dia, do teu tempo, que é o teu único tesouro. Faze alguns desses trabalhos elegantes que tentam os felizes, vende o produto dos teus serões, e poderás também proporcionar, a teus irmãos a tua parte de alívio. Terás, talvez, algumas fitas a menos, mas darás sapatos aos que vivem descalços.

E vós, mulheres devotadas a Deus, trabalhai também para as vossas obras piedosas, mas que os vossos trabalhos delicados e custosos não sejam feitos apenas para ornar as vossas capelas, ou para atrair a atenção sobre a vossa habilidade e paciência. Trabalhai, minhas filhas, e que o resultado de vossas obras seja consagrado ao alívio de vossos irmãos em Deus. Os pobres são os Seus filhos bem-amados: trabalhar por eles é glorificá-Lo. Sede os instrumentos da Providência, que diz: Às aves do céu, Deus dá o alimento. Que o ouro e a prata, tecidos pelos vossos dedos, se transformem em roupas e provisões para os necessitados. Fazei isso, e o vosso trabalho será abençoado.

E todos vós, que podeis produzir, dai: dai o vosso gênio, dai as vossas inspirações, dai o vosso coração, que Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que sois lidos somente pela gente de sociedade, preenchei os seus lazeres, mas que o produto de algumas de vossas obras seja destinado ao alívio dos infelizes. Pintores, escultores, artistas de todos os gêneros, que vossa inteligência venha também ajudar os vossos irmãos: não tereis menos glória por isso, e eles terão alguns sofrimentos a menos.

Todos vós podeis dar: a qualquer classe a que pertençais, tereis sempre alguma coisa que pode ser dividida. Seja o que for que Deus vos tenha dado, deveis uma parcela aos que não têm sequer o necessário, pois, em seu lugar ficaríeis contentes, se alguém dividisse convosco. Vossos tesouros da terra diminuirão um pouco, mas vossos tesouros do céu serão mais abundantes: colhereis pelo cêntuplo, lá em cima, o que semeardes em benefícios aqui em baixo.

João


Bordeaux, 1861


(O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XII, item 16)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Revista Espirita (FEB) para download





A FEB acaba de disponibilizar para download gratuito a sua tradução da Revista Espírita publicada pelo mestre Allan Kardec de 1858 a 1869.

Ao leitor que queria ter acesso a esse material que é um verdadeiro curso dinâmico de Espiritismo basta clicar em: http://www.febnet.org.br/site/livros.php?SecPad=370&Sec=406

Bons Estudos!

Estudando Kardec

domingo, 18 de outubro de 2009

O Espiritismo é uma ciência positiva


"O Espiritismo, eu o repito, em demonstrando, não por hipótese, mas por fatos, a e-xistência do mundo invisível, e o futuro que nos espera, muda totalmente o curso das i-déias; dá ao homem a força moral, a coragem e a resignação, porque ele não trabalha mais somente para o presente, mas para o futuro; sabe que se não goza hoje, gozará amanhã. Demonstrando a ação do elemento espiritual sobre o mundo material, alarga o domínio da ciência e abre, por isso mesmo, um novo caminho ao progresso material. O homem terá, então, uma base sólida para o estabelecimento da ordem moral sobre a Ter-ra; compreenderá melhora solidariedade que existe entre os seres deste mundo, uma vez que essa solidariedade se perpetua indefinidamente; a fraternidade não é mais uma pala-vra vã; ela mata o egoísmo em lugar de ser morta por ele, e muito naturalmente o homem, imbuído dessas idéias, nisso conformará às suas leis e suas instituições sociais.


O Espiritismo conduz inevitavelmente a essa reforma; assim se cumprirá, pela força das coisas, o revolução moral que deve transformar a Humanidade e mudar a face do mundo, e isso tudo simplesmente pelo conhecimento de uma nova lei da Natureza que dá um outro curso às idéias, que dá um resultado a esta vida, um objetivo às aspirações do futuro, e faz encarar as coisas de um outro ponto de vista.

Se os detratores do Espiritismo - falo daqueles que militam para o progresso social, dos escritores que pregam a emancipação dos povos, a liberdade, a fraternidade e a re-forma dos abusos - conhecessem as verdadeiras tendências do Espiritismo, a sua impor-tância e seus resultados inevitáveis, em lugar de abafá-lo como o fazem, de lançar sem cessar entraves em seu caminho, nele veriam a mais poderosa alavanca para chegar à destruição dos abusos que combatem; em lugar de lhe serem hostis, o aclamariam como um socorro providencial; infelizmente, a maioria crê mais neles do que na Providência. Mas a alavanca age sem eles e apesar deles, e a irresistível força do Espiritismo nisso será tanto melhor constatada quanto tiver tido mais a combater. Um dia dir-se-á deles, e isso não será à sua glória, o que dizem eles mesmos daqueles que combateram o movimento da Terra e daqueles que negaram a força do vapor. Todas as negações, todas as perseguições, não impediram essas leis naturais de seguir o seu curso; do mesmo modo todos os sarcasmos da incredulidade não impedirão a ação do elemento espiritual que é também uma lei da Natureza.

O Espiritismo, considerado dessa maneira, perde o caráter de misticismo que lhe censuram seus detratores, aqueles pelo menos que não o conhecem; não é mais a ciên-cia do maravilhoso e do sobrenatural ressuscitada, é o domínio da Natureza enriquecido de uma lei nova e fecunda, uma prova a mais do poder e da sabedoria do Criador; são, enfim, os limites dos conhecimentos humanos recuados.

Tal é, em resumo, senhores, o ponto de vista sob o qual é preciso encarar o Espiri-tismo. Nesta circunstância, qual foi o meu papel? Não foi nem o de inventor, nem o de criador; eu vi, observei, estudei os fatos com cuidado e perseverança; coordenei-os e lhes deduzi as conseqüências: eis toda a parte que nisso me toca; o que fiz, um outro teria podido fazê-lo em meu lugar. Em tudo isso fui um simples instrumento dos desígnios da Providência, e dou graças a Deus e aos bons Espíritos por terem consentido em se servirem de mim; é uma tarefa que aceitei com alegria, e da qual me esforço para me tornar digno, rogando a Deus me dar as forças necessárias para cumpri-la segundo a sua santa vontade. No entanto, esta tarefa é pesada, mais pesada do que ninguém pode crer; se ela tem para mim algum mérito, é que tenho a consciência de não ter recuado diante de nenhum obstáculo, nem de nenhum sacrifício; essa será a obra de minha vida até meu último dia, porque diante de um objetivo tão importante, todos os interesses materiais e pessoais se apagam, como os pontos diante do infinito.

Termino esta curta exposição, senhores, dirigindo felicitações sinceras àqueles de nossos irmãos da Bélgica, presentes ou ausentes, cujo zelo, devotamento e perseverança contribuíram para implantar o Espiritismo neste país. As sementes que depositaram nos grandes centros populacionais, tais como Bruxelas, Anvers, etc., não terão sido, disso estou seguro, lançadas sobre um solo estéril."
 
(Trecho do artigo "O Espiritismo é uma ciência positiva" de Allan Kardec na Revista Espírita de novembro de 1864)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A Melancolia


25 – Sabeis por que uma vaga tristeza se apodera por vezes de vossos corações, e vos faz sentir a vida tão amarga? É o vosso Espírito que aspira à felicidade e à liberdade, mas, ligado ao corpo que lhe serve de prisão, se cansa em vãos esforços para escapar. E, vendo que esses esforços são inúteis, cai no desânimo, fazendo o corpo sofrer sua influência, com a languidez, o abatimento e uma espécie de apatia, que de vós se apoderam, tornando-vos infelizes.


Acreditai no que vos digo e resisti com energia a essas impressões que vos enfraquecem a vontade. Essas aspirações de uma vida melhor são inatas no Espírito de todos os homens, mas não a busqueis neste mundo. Agora, que Deus vos envia os seus Espíritos, para vos instruírem sobre a felicidade que vos está reservada, esperai pacientemente o anjo da libertação, que vos ajudará a romper os laços que mantém cativo o vosso Espírito. Pensai que tendes a cumprir, durante vossa prova na Terra, uma missão de que já não podeis duvidar, seja pelo devotamento à família, seja no cumprimento dos diversos deveres que Deus vos confiou.

E se, no curso dessa prova, no cumprimento de vossa tarefa, virdes tombarem sobre vós os cuidados, as inquietações e os pesares, sede fortes e corajosos para os suportar. Enfrentai-os decisivamente, pois são de curta duração e devem conduzir-vos junto aos amigos que chorais, que se alegrarão com a vossa chegada e vos estenderão os braços, para vos conduzirem a um lugar onde não têm acesso às amarguras terrenas.


(O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. V)

domingo, 27 de setembro de 2009

Para adquirir conhecimento da Doutrina Espírita



"Temos dito que a melhor maneira de uma pessoa adquirir conhecimentos sobre o Espiritismo é estudar-lhe a teoria. Os fatos virão depois, naturalmente, e serão compreendidos, qualquer que seja a ordem em que os tragam as circunstâncias. Nossas publicações têm sido feitas com o propósito de favorecer esse estudo. Aqui está a ordem em que o aconselhamos:


O que primeiro se deve ler é este resumo, que oferece o conjunto e os pontos cardiais da ciência. Com ele estará possibilitada a formação de uma ideia. Também estará feita a convicção de que, no fundo, o Espiritismo contém alguma coisa de sério. Nesta rápida exposição nos propusemos indicar os pontos em que, particularmente, deve fixar-se a atenção do observador. A ignorância dos princípios fundamentais é causa das falsas apreciações da maior parte dos que julgam o que não compreendem, ou que o fazem com base em ideias preconcebidas.


Se essa primeira leitura despertar o desejo de aprender mais, ler-se-á O Livro dos Espíritos, onde se acham amplamente desenvolvidos os princípios da doutrina. Depois, O Livro dos Médiuns, que abrange a parte experimental e é destinado a servir de guia aos que por si mesmos querem operar bem, como aos que desejam dar-se conta dos fenómenos.

Seguem-se, imediatamente, as obras em que estão desenvolvidas as aplicações e consequências da doutrina. E tais são: O Evangelho segundo o Espiritismo, o Céu e o Inferno, a Génese, etc.

A Revue Spirite é, de certa maneira, um curso de aplicação, pêlos numerosos exemplos que oferece e os desenvolvimentos que encerra, sobre a parte teórica e a parte experimental.

Às pessoas de respeito, que realizam um estudo preliminar, teremos o prazer de dar, verbalmente, as explicações necessárias sobre as partes que não tenham sido suficientemente compreendidas."

(Trecho extraído do Livro "O que é o Espiritismo?" de Allan Kardec. Obs: o título da postagem é nosso)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os anjos da guarda

Comunicação espontânea obtida pelo Sr. L., um dos médiuns da Sociedade


Há uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos, por seu encanto e por sua doçura: a dos anjos da guarda. Pensar que tendes sempre junto a vós seres que vos são superiores, que aí estão sempre para vos aconselhar, para vos sustentar, para vos ajudar a subir a áspera montanha do bem, que são os amigos mais certos e mais dedicados que as mais íntimas ligações que possais estabelecer na Terra, não é uma idéia consoladora? Estes seres aí estão por ordem de Deus; foi Ele quem os pôs ao vosso lado; aí se acham por amor a Ele e junto a vós realizam bela e penosa missão. Sim; onde quer que estejais, estarão con­vosco: os calabouços, os hospitais, os lugares de deboche, a solidão - nada vos separa destes amigos que não vedes, mas cujos suaves impulsos; vossa alma sente, como lhes escuta os sábios conselhos.


Se conhecêsseis melhor esta verdade, quantas vezes ela vos ajudaria nos momentos de crise! Quantas vezes ela vos salvaria das mãos dos maus Espíritos! Mas em pleno dia esse anjo do bem muitas vezes vos poderá dizer: “Eu não te disse? E tu não o fizeste. Não te mostrei o abismo? E nele te precipi­taste. Não te fiz ouvir na consciência a voz da verdade? E seguiste os conselhos da mentira.” Ah! interrogai os vossos anjos da guarda; estabelecei com Eles essa terna intimidade, que reina entre os melhores amigos. Nada penseis ocultar-lhes, pois Eles tem o olhar de Deus e não os podereis enganar. Pensai no futuro e procurai avançar nesta vida: vossas provas serão Assim mais curtas e vossas existências mais felizes. Eia! homens, coragem: lançai para longe, de uma vez por todas, os pre­conceitos e os pensamentos ocultos; entrai na nova via que se abre à vossa frente; marchai, marchai, pois tendes guias a quem deveis seguir: o alvo não vos pode frustrar porque esse alvo é o próprio Deus.


Aos que pensassem ser impossível a Espíritos realmente ele­vados ater-se a uma tarefa tão laboriosa e de todos os instan­tes, diremos que influenciamos vossas almas mesmo estando a milhões de léguas de vós: para nós nada é o espaço e, mesmo vivendo num outro mundo, nossos Espíritos conservam suas ligações com o vosso. Desfrutamos de qualidades que não podeis compreender, mas ficai certos de que Deus não nos impôs uma tarefa acima de nossas forças e de que não vos abandonou na Terra sem amigos e sem apoio. Cada anjo da guarda tem o seu protegido, sobre o qual vela como um pai sobre o filho; é feliz quando o vê seguir o bom caminho e sofre quando seus conselhos são desprezados.



Não temais fatigar-nos com as vossas perguntas. Ao con­trário, ficai sempre em contato conosco: sereis mais fortes e mais felizes. São estas comunicações de cada um com seu Espí­rito familiar que fazem todos os homens médiuns - médiuns hoje ignorados, mas que se manifestarão mais tarde e que se espalharão como um oceano sem limites para afugentar a incre­dulidade e a ignorância. Homens instruídos, instruí; homens de talento, educai os vossos irmãos. Não sabeis que obra assim realizais: é a obra do Cristo, que Deus vos impõe. Por que Deus vos deu inteligência e a ciência, se não para as repartirdes com os vossos irmãos, para os adiantar no caminho da ventura e da felicidade eterna?


São Luís e Santo Agostinho



Observação: A doutrina dos anjos da guarda, que velam sobre os seus protegidos, apesar da distância que separa os mundos, nada tem de surpreendente: é, ao contrário, grandiosa e sublime. Não vemos na Terra um pai velar sobre seu filho, mesmo à distância, ajudando-o com seus conselhos por correspondência? Que haveria, pois, de estranho em que os Espíritos pudessem guiar aos que tomam sob sua proteção, de um mundo a outro, de vez que, para Eles, a distância que separa os mundos é, menor que aquela que na Terra separa os continentes?
(Revista Espírita 01/1859)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

UMA RECONCILIAÇÃO PELO ESPIRITISMO

Muitas vezes provou o Espiritismo sua benéfica influência restabelecendo a harmonia entre famílias e indivíduos. Disso temos numerosos exemplos, na maioria casos íntimos que nos foram confiados, por assim dizer, sob o selo da confissão e que, por isso, não podem ser revelados. Já não temos o mesmo escrúpulo para o que segue, de tocante interesse.



Um capitão da marinha mercante do Havre, nosso conhecido pessoal, é excelente espírita e bom médium. Havia iniciado ao Espiritismo vários homens de sua equipagem e só tinha motivos para se felicitar pela ordem, disciplina e bom comportamento. Tinha a bordo seu irmão de dezoito anos e um piloto de dezenove, ambos bons médiuns, animados de fé viva e que recebiam com fervor e reconhecimento os sábios conselhos dos Espíritos protetores. Uma noite, porém, discutiram. Das palavras foram a vias de fato. Assim, acertaram lugar e hora para se baterem a bordo, na manhã seguinte. Tomada a decisão, separaram-se. A noite sentiram vontade de escrever e, cada qual de seu lado, recebeu dos guias invisíveis, uma séria admoestação sobre a futilidade de sua discussão e conselhos sobre a felicidade da amizade, com um convite à reconciliação, sem preconceitos. Movidos pelo mesmo sentimento, os dois jovens deixaram simultaneamente seu lugar, e vieram chorando lançar-se nos braços um do outro. Desde então nenhuma nuvem turvou a sua mútua compreensão.



O próprio capitão nos fez o relato. Vimos o seu caderno de comunicações Espíritas, bem como os dos dois jovens, onde lemos aquela de que acabamos de falar.



O fato seguinte ocorreu ao mesmo capitão, numa de suas travessias. Temos o prazer de o transcrever, posto que alheio ao assunto.



Foi em alto mar, com o melhor tempo do mundo, quando ele recebeu a seguinte comunicação:



“Toma todas as precauções; amanhã às duas horas cairá uma borrasca e teu navio correrá grande perigo.” Como nada deixava prever o mau tempo, o capitão logo pensou numa mistificação. Contudo, para nada ter a censurar-se, ao acaso tomou medidas. Foi bom: à hora certa desencadeou-se violenta tempestade e durante três dias o navio enfrentou os maiores perigos que jamais lhe ocorreram. Graças, porém, às precauções tomadas, safou-se sem acidentes.

O fato da reconciliação sugeriu-nos as seguintes reflexões.



Um dos resultados do Espiritismo bem compreendido — e insistimos na expressão bem compreendido — é o desenvolvimento do sentimento de caridade. Mas, como se sabe, a própria caridade tem um conceito muito elástico — desde a simples esmola até o amor aos inimigos, que é o sublime da caridade. Pode-se dizer que ela resume todos os nobres impulsos da alma para com o próximo. O verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, pode ter inimigos. Não os teve o Cristo? Mas não é o inimigo pessoal, pois está sempre apto a perdoar e a pagar o mal com o bem. Se dois espíritas tiverem tido outrora motivos para recíproca animosidade, sua reconciliação será fácil, porque o ofendido esquece a ofensa e o ofensor reconhece a sua sem-razão. Desde então não mais querelas, porque serão reciprocamente indulgentes e farão mútuas concessões. Nenhum deles procurará impor ao outro um perdão humilhante, que irrita e fere mais do que acalma.



Se, em tais condições, duas criaturas podem viver em boa harmonia, o maior número também o pode. E, então, serão tão felizes quanto é possível sê-lo na Terra, porque a maior parte de nossas atribulações surge do contato com os maus. Suponhamos uma nação inteira imbuída de tais princípios: não será a mais feliz do mundo? Aquilo que apenas é possível para os indivíduos — dirão uns — é utopia para as massas, a menos que se dê um milagre. Ora! Tal milagre fá-lo o Espiritismo muitas vezes, em pequena escala, nas famílias desunidas, onde restabelece a paz e a concórdia. O futuro provará que o pode fazer em larga escala.
(Revista Espírita, setembro de 1862)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Ponto de Vista - Allan Kardec

5. A idéia clara e precisa que se faz da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem conseqüências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo qual eles encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não é mais do que rápida passagem, uma breve permanência num país ingrato. As vicissitudes e as tribulações da vida são apenas incidentes que ele enfrenta com paciência, porque sabe que são de curta duração e devem ser seguidos de uma situação mais feliz. A morte nada tem de pavoroso, não é mais a porta do nada, mas a da libertação, que abre para o exilado a morada da felicidade e da paz. Sabendo que se encontra numa condição temporária e não definitiva, ele encara as dificuldades da vida com mais indiferença, do que resulta uma calma de espírito que lhe abranda as amarguras.



Pela simples dúvida sobre a vida futura, o homem concentra todos os seus pensamentos na vida terrena. Incerto do porvir, dedica-se inteiramente ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da terra, ele se porta como a criança que nada vê além dos seus brinquedos e tudo faz para os obter. A perda do menor dos seus bens causa-lhe pungente mágoa. Um desengano, uma esperança perdida, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que for vítima, o orgulho ou a vaidade feridas, são tantos outros tormentos, que fazem da vida uma angústia perpétua, pois que se entrega voluntariamente a uma verdadeira tortura de todos os instantes.



Sob o ponto de vista da vida terrena, em cujo centro se coloca, tudo se agiganta ao seu redor. O mal que o atinge, como o bem que toca aos outros, tudo adquire aos seus olhos enorme importância. É como o homem que, dentro de uma cidade, vê tudo grande em seu redor: os cidadãos eminentes como os monumentos; mas que, subindo a uma montanha, tudo lhe parece pequeno.



Assim acontece com aquele que encara a vida terrena do ponto de vista da vida futura: a humanidade, como as estrelas no céu, se perde na imensidade; ele então se apercebe de que grandes e pequenos se confundem como as formigas num monte de terra; que operários e poderosos são da mesma estatura; e ele lamenta essas criaturas efêmeras, que tanto se esfalfam para conquistar uma posição que os eleva tão pouco e por tão pouco tempo. É assim que a importância atribuída aos bens terrenos está sempre na razão inversa da fé que se tem na vida futura.



6. Se todos pensarem assim, dir-se-á, ninguém mais se ocupando das coisas da Terra, tudo perigará. Mas não, porque o homem procura instintivamente o seu bem-estar, e mesmo tendo a certeza de que ficará por pouco tempo em algum lugar, ainda quererá estar o melhor ou o menos mal possível. Não há uma só pessoa que, sentindo um espinho sob a mão, não a retire para não ser picada. Ora, a procura do bem-estar força o homem a melhorar todas as coisas, impulsionado como ele é pelo instinto do progresso e da conservação, que decorre das próprias leis da natureza. Ele trabalha, portanto, por necessidade, por gosto e por dever, e com isso cumpre os desígnios da Providência, que o colocou na Terra para esse fim. Só aquele que considera o futuro pode dar ao presente uma importância relativa, consolando-se facilmente de seus revezes, ao pensar no destino que o aguarda.



Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos, em prejuízo dos interesses da alma. É contra esse abuso que se previnem os que compreendem estas palavras de Jesus: O meu reino não é deste mundo.



Aquele que se identifica com a vida futura é semelhante a um homem rico, que perde uma pequena soma sem se perturbar; e aquele que concentra os seus pensamentos na vida terrestre é como o pobre que, ao perder tudo o que possui, cai em desespero.



7. O Espiritismo dá amplitude ao pensamento e abre-lhe novos horizontes. Em vez dessa visão estreita e mesquinha, que o concentra na vida presente, fazendo do instante que passa sobre a Terra o único e frágil esteio do futuro eterno, ele nos mostra que esta vida é um simples elo do conjunto harmonioso e grandioso da obra do Criador, e revela a solidariedade que liga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Oferece, assim, uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma, no momento do nascimento de cada corpo, faz que todos os seres sejam estranhos uns aos outros. Essa solidariedade das partes de um mesmo todo explica o que é inexplicável, quando apenas consideramos uma parte. Essa visão de conjuntos, os homens do tempo de Cristo não podiam compreender, e por isso o seu conhecimento foi reservado para mais tarde.

(Trecho extraído de O Evangelho Segundo o Espiritismo )


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Divulgação

Clique na imagem para ampliar o cartaz.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

INTERCÂMBIO MEDIÚNICO


Aureci Figueiredo Martins
aureci@globo.com

1. Introdução

A comunicabilidade dos habitantes dos planos extrafísicos com seus irmãos encarnados é um fenômeno de ordem psíquica que ocorre desde que o homem surgiu na crosta planetária. Trata-se de um fato natural e encontradiço, inarredável da existência humana.


Essa interação interdimensional, generalizada e sutil em sua feição telepática, também pode acontecer em sua forma ostensiva através dos médiuns, que são pessoas comuns dotadas de uma aptidão especial que lhes permite captar e transmitir mensagens dos agentes invisíveis. Há igualmente os chamados fenômenos de efeitos físicos, nos quais os desencarnados podem fazer-se visíveis e até palpáveis mediante a utilização de substância ectoplásmica cedida, quase sempre inconscientemente, por doadores encarnados: os médiuns de efeitos físicos.


Cabe ressaltar que a ciência espírita, cujo objeto de estudo é a natureza espiritual do ser humano, também aborda e orienta a prática do intercâmbio mediúnico, mas não pode ser confundida com a mediunidade, visto que esta constitui um fenômeno de todos os tempos enquanto que a doutrina espírita surgiu apenas na segunda metade do século dezenove com a codificação publicada por Allan Kardec. Assim, nem todos os médiuns são espíritas, bem como nem todos os espíritos, que nada mais são do que as almas imortais de pessoas cujos corpos morreram.


2. Necessidade da vigilância

Dirigimo-nos agora aos coidealistas, que tanto dentro como fora dos arraiais espiritistas têm o dever de consciência de vivenciar a moral crística, conduzindo-se com ética e sincera humildade, sem interesses outros que não o de servir à causa do bem e da verdade.

No tocante à prática mediúnica, a prudência deve nortear a conduta daqueles que dirigem tão complexa atividade. Nada pode ser mais temerário do que a aceitação passiva de mensagens mediúnicas, por mais respeitáveis que pareçam ser médiuns e espíritos comunicantes.

Aventurar-se no complexo campo da fenomenologia espirítica sem observância da metodologia recomendada por Kardec, especialmente em “O Livro dos Médiuns”, é atitude incompatível com o perfil do verdadeiro espírita.

Há quem estranhe, todavia, a postura cautelosa e prudente adotada pelas instituições realmente espíritas diante de certas “novidades” mediúnicas ou não. Esquecem-se tais pessoas de que nossas instituições têm indeclinável compromisso com a preservação do valiosíssimo patrimônio de que são depositárias: a consoladora doutrina do Espírito da Verdade, codificada por Allan Kardec. Alerta-nos o Codificador na Revista Espírita - 1859, p.32: “Se não quisermos ser enganados por espíritos levianos, devemos julgá-los, e para isso possuímos um critério infalível: o bom senso e a razão.”

Vale lembrar, por oportuno, que Kardec foi alvo da antipatia de muitos médiuns cujas produções não passavam pelo seu apurado crivo, pois “observar, comparar e julgar” foi sua regra áurea no trato com o fenômeno mediúnico.

Em 1863, de 3600 comunicações que lhe chegaram às mãos, menos de trezentas foram consideradas publicáveis e, destas, apenas cem julgadas excelentes. Era a aplicação do que recomenda o espírito de Erasto no item 230 d’O Livro dos Médiuns: “É preferível rejeitar dez verdades do que admitir uma única falsidade...”

Bem a propósito, lembremos a recomendação “Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito. Examinai primeiro se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas surgiram no mundo” (João, 4-1)

3. Consequências da invigilância

É notório que, preocupados com a crescente divulgação do ideário espírita e a conseqüente desobsessão das criaturas humanas, os espíritos refratários à Verdade mobilizam-se organizadamente para desprestigiar o Espiritismo, logrando aqui e ali ludibriar grupos e indivíduos invigilantes. A princípio, esses agentes do mal se fingem humildes e caridosos para ganhar a confiança do grupo. Em seguida, sugerem discretamente terem animado personalidades de relevo na sociedade humana. Entram, então, na fase verborrágica: mensagens alongadas, repetitivas, afirmações de “grande alcance”... A certa altura, o grupo, completamente fascinado pela lábia dos enganadores, já não analisa nada: tudo o que os “guias” dizem é aceito sem crítica alguma. Isola-se então o grupo, por recomendação “superior”, para melhor desempenhar sua “elevada missão”. Não se aceitam interferências; detestam-se censuras. Senhores, então, da situação, os “mentores” apontam suas armas para o alvo que sempre visaram: pessoas e instituições espíritas.

Encontradiços, tais acontecimentos, extremamente lamentáveis, seriam evitados se todos os dirigentes de grupos mediúnicos atentassem para as recomendações nas obras da codificação espírita, tais como a que encontramos no livro “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no item 10 do cap. XXI, atinente aos falsos profetas desencarnados: “... para melhor fascinarem aqueles a quem desejam iludir, para darem mais peso às suas teorias, se apropriam sem escrúpulos de nomes que só com muito respeito os homens pronunciam. São eles que espalham o fermento dos antagonismos entre os grupos, que os impelem a isolarem-se uns dos outros e a olharem-se com prevenção. Isso por si só bastaria para os desmascarar, pois, procedendo assim, são os primeiros a dar formal desmentido às suas pretensões. Cegos, portanto, são os homens que se deixam cair em tão grosseiro embuste.”

Cabe lembrar, ainda, que os espíritos realmente elevados não se incomodam quando suas mensagens são questionadas e analisadas criticamente, pois entendem nossa preocupação com a imagem da doutrina que nos irmana.

De qualquer forma, que ninguém se considere invulnerável às arremetidas do mundo espiritual inferior, pois que a realidade do homem terreno não sugere qualquer laivo de superioridade moral. E, como sabemos, a única autoridade que os espíritos inferiores respeitam é a de cunho moral; nossos títulos e diplomas mundanos, que aqui nos podem dar notoriedade e poder, para nada servem no trato com nossos irmãos desencarnados.

Mas, perguntarão alguns, por que os bons espíritos não protegem tais médiuns?
E responderemos: Sim! Eles se esforçam por orientar as pessoas, médiuns ou não, mas o fazem de maneira sutil, pois os espíritos benévolos usam de persuasão; jamais dão ordens, nunca violentam o livre-arbítrio de ninguém. Os mistificadores, estes sim, gostam de ditar normas e prescrever atitudes, e se irritam quando não são prontamente atendidos pelos incautos que lhes dão crédito.

4. Humildade

Como pano de fundo da instalação de tais processos obsessivos, está a falta de humildade. Certos médiuns e diretores, despreparados para a delicada tarefa da interação mediúnica, deixam-se iludir pela presunção de uma auto-suficiência inexistente.

Humildade! Virtude que nasce da reflexão madura, fruto do autoconhecimento. Sem humildade, médiuns ou não, seremos facilmente vitimados pelo assédio dos irmãos desencarnados de baixo padrão evolutivo.

Certamente, foi a tal respeito que Tiago nos alertou para o fato de que “cada um é tentado, quando atraído e enganado pela sua própria imperfeição moral.” (Tiago, 1-14)

Daí a permanente atualidade da recomendação de Jesus: “Vigiai e orai..."