quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A COMPLEXIDADE DOS SABERES ESPÍRITAS

Vinícius Lousada

É interessante observar a conexão entre os saberes organizados em O Livros dos Espíritos e as demais obras da Codificação, há entre eles uma inter-relação, ou seja, todos os pontos se correlacionam numa harmonia de conjunto e são filosoficamente interdependentes, uns desaguam nos outros de tal forma que a inteligibilidade acerca de determinado aspecto pede a igual compreensão de outros mais.
Como uma tapeçaria – trata-se de uma metáfora - composta pelo entrelaçamento de seus fios, se nos apresenta o Espiritismo. Seus princípios e conceitos estão conectados, entrecruzam-se formando o todo doutrinário, num fluxo contínuo de informações tecidas dialogicamente entre si.
Emerge a necessidade de serem desdobrados os temas abordados na primeira obra e assim, passam a figurar no painel da Doutrina Espírita, as demais obras da Codificação, tais como: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, A Gênese e O Céu e o Inferno.
Trata-se da execução, no plano terrestre, de um projeto estruturado anteriormente no mundo dos Espíritos por uma equipe vasta de colaboradores, da qual Kardec era um de seus diletos membros, liderados pelo Espírito Verdade. Trata-se da concretização do Consolador anunciado outrora pelo Mestre Nazareno, cujo início pode ser demarcado em 18 de abril de 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos.



Alguns aspectos do conteúdo de O Livro dos Espíritos

Contendo a ciência do infinito, essa obra nos apresenta um estudo, no seu Livro Primeiro, das Causas Primárias – Deus, os elementos gerais do universo, a Criação universal e o princípio vital - contemplando um entendimento sobre intrincadas questões que o dogmatismo religioso não dava conta de esclarecer ante as exigências do emergente culto à racionalidade do século XIX, herdeiro do iluminismo francês.
Vale destacar, por exemplo, a concepção espírita de Deus, da Inteligência Suprema num caráter não-antropomórfico, como a Causa Primeira de todas as coisas. Porém, os Espíritos vão deixar claro nossos limites intelectuais para entender a natureza íntima de Deus.
Certamente, esse apontamento não faz parte da tradição das religiões que comumente apresentam como “mistério da fé” aquilo que a racionalidade humana é incapaz de abarcar dado o seu insipiente desenvolvimento. Os Espíritos Superiores afirmam várias vezes a Allan Kardec que nem mesmo eles conhecem, em profundidade, natureza de Deus, da qual somente podem nos dar uma pálida idéia frente ao reconhecimento sábio da própria ignorância, de seu compromisso com a verdade e, sobretudo, em função de nossos parcos recursos intelectuais.
Somente entenderemos Deus quando estivermos mais desmaterializados e, mediante o nosso aperfeiçoamento, Dele estivermos mais próximos, tal como se pode entender da questão 11 de O Livro dos Espíritos.
Quando Kardec perscruta esses saberes, os Guias da humanidade advertem: “(...) Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos desembaraçardes delas, o que vos será mais útil o que quererdes penetrar o que é impenetrável.”
[1] Mas, das elucidações dos Espíritos, o nobre mestre delineou os atributos da Divindade, um conjunto de qualidades que aproximam as nossas conjecturas de um entendimento possível em referência ao Pai Celeste.
No Livro Segundo da obra fundamental do Espiritismo, a temática que passa a ser estudada é o Mundo Espírita. Nela os Espíritos abordam a questão da nossa natureza espiritual e origem – sendo os meandros dessa última um mistério
[2] até mesmo para os Espíritos Superiores.
No Mundo Espírita encontramos também a escala espírita, que deveria receber maior atenção dos adeptos do Espiritismo, aliás, como toda a obra do Codificador para que se possa ter um entendimento mais coerente e fiel sobre o seu conteúdo doutrinário.
A escala espírita, consistindo numa classificação, não absoluta, das diferentes ordens de Espíritos, leia-se categorias evolutivas de todos nós, em conformidade com as nossas aquisições intelectuais e morais, é uma ferramenta excelente para todos que lidam com a questão da mediunidade.
Kardec considerou a escala espírita como a chave da ciência espírita
[3], como um quadro capaz de ajudar a determinar a ordem ou o grau de elevação ou inferioridade dos Espíritos com os quais venhamos a travar contato, permitindo-nos alinhavar, por conseqüência, o grau de confiança de que são merecedores ou não.
Além de tratar de temas como a desencarnação, a realidade da vida espiritual e os fenômenos de emancipação da alma, as ações interventoras dos Espíritos no mundo corpóreo, suas ocupações e os reinos da Natureza, o Livro Segundo dá a devida atenção ao dogma filosófico da reencarnação.
A reencarnação é um verdade universal que vai ganhar essa terminologia com Allan Kardec, no recolhimento de variadas comunicações espíritas que vão delinear esse princípio. Ela rasga o paradigma da unicidade da existência, postulado pela teologia tradicional, revigorando a lei dos renascimentos, ensinada no seio de algumas tradições espirituais antigas e apresentado por Jesus Cristo naquele célebre diálogo entre o Mestre e o doutor da lei chamado Nicodemos.
Aprendemos que precisamos renascer para evoluir, somente o retorno à conexão com a carne nos permite galgar progressivamente a escala evolutiva rumo à perfeição relativa que somos vocacionados a atingir.
Em seu Livro Terceiro, encontramos as leis morais, mais tarde atendidas em O Evangelho segundo o Espiritismo cujo foco de atenção é a essência moral dos ensinos de Jesus. Na leitura atenta e sem preconceito do iluminado conteúdo dessa terceira parte, apreende-se a perfeita convergência entre o Cristianismo do Cristo – em contraposição ao que dele fizeram os homens – com toda a moral lecionada pelos Espíritos Superiores.
Aqui vale ressaltar, entre outras tantas passagens dignas de relevo, a questão do homem de bem. Fica claro que a categoria “homem de bem” se trata da meta comportamental que deve ser perseguida por todos aqueles que abraçam o Espiritismo como filosofia de vida, buscando num exercício perseverante de auto-aperfeiçoamento, a vivência da lei de justiça, amor e caridade em toda a sua amplitude.
Por fim, no Quarto Livro, podemos verificar que tem atenção o sofrimento e a felicidade nas paragens terrestres e na vida futura, concedendo-nos a compreensão de que somos todos artífices da nossa felicidade nas duas dimensões da vida, que ninguém escapa à lei de retorno, sendo necessário o reencontro educativo da consciência culpada com as conseqüências de suas ações antiéticas, da mesma forma que, aquele que trilha um caminho justo e nobre, recolhe no calhau das experiências, os felizes resultados de suas ações.
A conclusão de O Livro dos Espíritos, perfeitamente sincronizada com as demais partes da obra, não deixa a desejar e aborda, inclusive, três efeitos gerais da compreensão do Espiritismo Filosófico
[4], sendo esses: o desenvolvimento do sentimento religioso; a resignação ante as vicissitudes da vida e a indulgência para com as imperfeições alheias.


(artigo publicado na íntegra na Revista Reencarnação -FERGS - de nº 433, com o título "O Livro dos Espíritos e a Codificação)

[1]KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Especial. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007, questão 14.
[2]KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Especial. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007, questão 78.
[3]KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Especial. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007, questão 100.
[4]KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Especial. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007, p. 635.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

RELIGIÃO, NO SENTIDO FILOSÓFICO...


"[...] o Espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores: No sentido filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em uma simples convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião? Pela razão de que há apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a opinião geral, o termo religião é inseparável da noção de culto, evocando unicamente uma idéia de forma, com o que o Espiritismo não guarda qualquer relação. Se se tivesse proclamado uma religião, o público nele não veria senão uma nova edição, ou uma variante, se quisermos, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios; não o distinguiria das idéias de misticismo e dos enganos contra os quais se está freqüentemente bem instruído.

Não apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz simplesmente uma doutrina filosófica e moral."


Revue Spirite, Dezembro de 1868.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

COMPREENSÃO E AMOR


Zombaram das mesas girantes; jamais zombarão da filosofia, da sabedoria e da caridade que brilham nas comunicações sérias. Elas foram o vestíbulo da Ciência; é nele que, ao entrar, devem ser deixados os preconceitos, como se deixa um manto. Não é demais insistir para que façais de vossas reuniões um centro sério. Que alhures façam demonstrações físicas, vejam, ouçam, que entre vós se compreenda e se ame. Que pensais ser aos olhos dos Espíritos superiores, quando fazeis girar ou erguer-se uma mesa? Escolares. Passará o sábio o seu tempo a recordar o a-bê-ce da Ciência? Ao contrário, vendo que buscais as comunicações sérias, vos consideram como homens em busca da verdade. São Luís

Acrescenta o Sr. Allan Kardec: Não está aqui, senhores, um admirável programa, traçado com essa precisão e essa simplicidade de palavra que caracterizam os Espíritos realmente superiores? Que entre vós se compreenda, isto é, que todos de­vemos aprofundar tudo, para nos darmos conta de tudo; que entre vós se ame, isto é, que a caridade, uma benevolência mútua devem ser o objetivo dos nossos esforços, o laço a nos unir, a fim de mostrar pelo nosso exemplo o verdadeiro objetivo do Espiritismo. Estranhamente nos enganaríamos quanto aos sentimentos da Sociedade, se julgássemos que ela despreza o que se faz alhures. Nada é inútil e as experiências físicas também têm sua vantagem, que ninguém nos contesta. Se não nos ocupamos com elas, não é porque tenhamos outra bandeira. Temos nossa especialidade de estudos, como outros têm a sua, mas tudo isto se confunde num objetivo comum: o progresso e a propagação da Ciência.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Kardec e a Evolução do Espiritismo



As declarações de Kardec, quanto à natureza evolutiva do Espiritismo, têm servido de justificação para muitas confusões doutrinárias. Renovadores encarnados e reveladores desencarnados apóiam-se nas próprias palavras do codificador, para desfigurarem a codificação. E quando alguém se levanta em defesa da pureza da doutrina, é logo acusado de retrógrado. Entretanto, a verdade é que Kardec só admitia a evolução mediante rigoroso controle dos fatos e das comunicações mediúnicas, estas sempre sujeitas ao exame do bom-senso e ao critério da universidade.



Leia na íntegra o artigo clicando no link abaixo:


Kardec e a Evolução do Espiritismo
Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires - 02 de July de 2008



sábado, 21 de junho de 2008

OS FALSOS IRMÃOS E OS AMIGOS INÁBEIS


Assim como demonstramos em nosso artigo precedente, nada poderia prevalecer contra a destinação providencial do Espiritismo. Do mesmo modo que ninguém pode impedir a queda daquele que, nos decretos divinos: homens, povos ou coisas, deve cair, ninguém pode deter a marcha do que deve ir adiante. Esta verdade, com relação ao Espiritismo, ressalta dos fatos realizados, e muito mais ainda de um outro ponto capital. Se o Espiritismo fosse uma simples teoria, um sistema, poderia ser combatido por um outro sistema, mas ele repousa sobre uma lei natural, tudo tão bem quanto o movimento da Terra. A existência dos Espíritos é inerente à espécie humana; não se pode, pois, fazer que não seja, e não se pode mais proibi-los de se manifestar quanto não se pode impedir o homem de caminhar. Não têm necessidade, para isso, de nenhuma permissão, e se riem de todas as proibições, porque não é preciso perder de vista que, além das manifestações mediúnicas propriamente ditas, há manifestações naturais e espontâneas, que se produziram em todos os tempos e se produzem todos os dias, entre uma multidão de pessoas que jamais ouviram falar dos Espíritos. Quem poderia, pois, se opor ao desenvolvimento de uma lei da Natureza? Sendo essa lei obra de Deus, insurgir-se contra ela é se revoltar contra Deus. Estas considerações explicam a inutilidade dos ataques dirigidos contra o Espiritismo. O que os Espíritas têm a fazer, em presença dessas agressões, é continuar pacificamente seus trabalhos, sem fanfarrice, com a calma e a confiança que dá a certeza de chegar ao objetivo.






No entanto, se nada pode deter a marcha geral, há circunstâncias que podem lhe trazer entraves parciais, como uma pequena barragem pode abrandar o curso de um rio sem impedi-lo de correr. Desse número são as providências inconseqüentes de certos adeptos mais zelosos do que prudentes, que não calculam bastante a importância de seus atos ou de suas palavras; por aí produzem, nas pessoas ainda não iniciadas na Doutrina, uma impressão desfavorável, muito mais própria para afastá-las do que as diatribes dos adversários. O Espiritismo, sem dúvida, está muito difundido, mas o seria ainda mais se todos os adeptos tivessem sempre escutado os conselhos da prudência, e sabido conter-se numa sábia reserva. Sem dúvida, é preciso ter em conta a intenção, mas é certo que mais de um justificou o provérbio: Mais vale um inimigo confesso do que um amigo desajeitado. O pior disto é fornecer armas aos adversários que sabem habilmente explorar uma imperícia. Não saberemos, pois, senão recomendar aos Espíritas para refletirem maduramente antes de agir; em semelhante caso a prudência manda não se referir à sua opinião pessoal. Hoje, que de todos os lados se formam grupos ou sociedades, nada é mais simples do que se concordar antes de agir. O verdadeiro Espírita, não tendo em vista
senão o bem da coisa, sabe fazer abnegação do amor-próprio; crer em sua própria infalibilidade, recusar em aceitar a opinião da maioria, e persistir num caminho que se demonstra mau e comprometedor, não é o fato de um verdadeiro Espírita; isto seria dar prova de orgulho, se não for o fato de uma obsessão.




Entre as imperícias, é preciso colocar, em primeira linha, as publicações intempestivas ou excêntricas, porque são os fatos que mais repercutem. Nenhum Espírita ignora que os Espíritos estão longe de terem a soberana ciência; muitos dentre eles sabem disso menos do que certos homens, e, como certos homens também, não têm menos a pretensão de tudo saber. Sobre todas as coisas, têm sua opinião pessoal, que pode ser justa ou falsa; ora, como os homens ainda, são geralmente aqueles que têm as idéias mais falsas que são os mais obstinados. Esses falsos sábios falam de tudo, excitam os sistemas, criam utopias, ditam as coisas mais excêntricas, e ficam felizes de encontrar intérpretes complacentes e crédulos que aceitam suas elucubrações de olhos fechados. Essas espécies de publicações têm gravíssimos inconvenientes, porque o médium engana-se a si mesmo, freqüentemente seduzido por um nome apócrifo, as dá como coisas sérias das quais a crítica se apodera com pressa para denegrir o Espiritismo, ao passo que, com menos presunção, bastar-lhe-ia aconselhar-se com seus colegas para ser esclarecido. É muito raro que, nesse caso, o médium não ceda à injunção de um Espírito que quer, ai! ainda como certos homens, a toda força ser impresso; com mais experiência, saberia que os Espíritos verdadeiramente superiores aconselham, mas não se impõem nem gabam jamais, e que toda prescrição imperiosa é um sinal suspeito.





Quando o Espiritismo for completamente assistido e conhecido, as publicações dessa natureza não terão mais inconvenientes do que os maus tratados de ciências não têm em nossos dias; mas no início, nós o repetimos, elas têm um lado muito deplorável. Não se saberia, pois, em fato de publicidade, trazer mais circunspecção, nem calcular com mais cuidado o efeito que pode ser produzido sobre o leitor. Em resumo, é um grave erro crer-se obrigado a publicar tudo o que ditam os Espíritos, uma vez que, se há os bons e esclarecidos, há os maus e ignorantes; importa fazer uma escolha muito rigorosa de suas comunicações, podando tudo o que é inútil, insignificante, falso ou de natureza a produzir uma impressão má. É preciso semear, sem dúvida, mas semear a boa semente e em tempo oportuno.





Passemos a um assunto mais sério ainda, os falsos irmãos. Os adversários do Espiritismo, alguns pelo menos, porque pode e deve haver os de boa fé, não são, como se sabe, muito escrupulosos sobre a escolha dos meios; tudo é para eles de boa guerra, e quando não se pode tomar uma cidadela de assalto, ela é minada por baixo. Na falta de boas razões, que são as armas leais, se os vê, todos os dias derramar sobre o Espiritismo a mentira e a calúnia. A calúnia é odiosa, eles bem o sabem, e a mentira pode ser desmentida, e também procuram fatos para se justificarem; mas como encontrar fatos comprometedores entre pessoas sérias, se não for os produzidos por si mesmo ou por associados?



O perigo não está nos ataques de viva força; nem está nas perseguições, nem mesmo na calúnia, como vimos; mas está nas astúcias ocultas empregadas para desacreditar e arruinar o Espiritismo por si mesmo. Triunfarão? É o que examinaremos dentro em pouco.



Já chamamos a atenção sobre essa manobra no relatório de nossa viagem em 1862 (página 45), porque, no nosso caminho, recebemos três beijos de Judas dos quais não fomos vítima, embora nada tenham manifestado; de resto deles havíamos sido prevenidos antes de nossa partida, assim como as armadilhas que nos seriam estendidas. Mas ficamos de olho sobre eles, certo de que um dia mostrarão as suas verdadeiras intenções, porque é tão difícil a um falso Espírita arremedar sempre o verdadeiro Espírita, do que um mau Espírita simular um Espírito superior; nem um nem o outro podem sustentar por muito tempo seu papel.



De várias localidades nos assinalam indivíduos, homens ou mulheres, com antecedentes e com relações suspeitas, cujo zelo aparente pelo Espiritismo não inspira senão uma medíocre confiança, e não estamos surpresos de encontrar os três Judas dos quais falamos: há-os no baixo e no alto da escala. De sua parte, freqüentemente, é mais que do zelo; é do entusiasmo, uma admiração fanática. Segundo ele seu devotamento vai até o sacrifício de seus interesses, e apesar disso não atraem nenhuma simpatia: um fluido malsão parece envolvê-los; sua presença nas reuniões ali lança um manto de gelo. Acrescentemos que há os que cujos meios de existência tornam-se um problema, em província sobretudo onde todo o mundo se conhece.



O que caracteriza principalmente esses pretensos adeptos é sua tendência em fazer o Espiritismo sair de seus caminhos de prudência e de moderação pelo seu ardente desejo do triunfo da verdade; a impelir as publicações excêntricas, a se extasiar de admiração diante das comunicações apócrifas mais ridículas, e que eles têm o cuidado de difundir; a provocar, nas reuniões, assuntos comprometedores sobre a política e a religião, sempre para o triunfo da verdade que não precisam ter sob o alqueire; seus elogios sobre os homens e as coisas são golpes de turíbulo a quebrar cinqüenta faces: são os fanfarrões do Espiritismo. Outros são mais adocicados e mais insinuantes; sob seu olhar oblíquo e com palavras melosas, sopram a discórdia, pregando a desunião; lançam jeitosamente sobre o tapete questões irritantes ou ferinas, assunto de natureza a provocar dissidências; excitam um ciúme de preponderância entre os diferentes grupos, e ficam encantados em velos se lançarem pedra, e, em favor de algumas divergências de opinião sobre certas questões de forma e de fundo, o mais freqüentemente provocadas, levantar bandeira contra bandeira.






Alguns fazem, em seu dizer, um excessivo consumo de livros espíritas, do qual os livreiros quase não se apercebem, e uma propaganda exagerada; mas, por efeito do acaso, a escolha de seus adeptos é infeliz; uma fatalidade leva-os a se dirigirem de preferência a pessoas exaltadas, às idéias obtusas, ou que já deram sinais de aberração; depois, apresentando-se ocasião a deploram gritando-a por toda parte, constata-se que essas pessoas se ocupam do Espiritismo, do qual na maior parte do tempo não compreenderam a primeira palavra. Aos livros espíritas que esses apóstolos zelosos distribuem generosamente, freqüentemente, acrescentam não críticas, isso seria imperícia, mas livros de magia e de feitiçaria, ou escritos políticos pouco ortodoxos, ou diatribes ignóbeis contra a religião, a fim de que, apresentando-se a ocasião, fortuita ou não, se possa, numa verificação, confundir o todo reunido.





Como é mais cômodo ter as coisas sob a mão, para ter comparsas dóceis, o que se acha por toda parte, há os que organizam ou fazem organizar reuniões onde se ocupa, de preferência, daquilo que o Espiritismo precisamente recomenda para não se ocupar, e onde se tem o cuidado de atrair estranhos que não são sempre os amigos; ali o sagrado e o profano são indignamente confundidos; os nomes mais veneráveis são misturados às práticas mais ridículas da magia negra, com acompanhamento de sinais e palavras cabalísticas, talismãs, tripés sibilinos e outros acessórios; alguns a isso acrescentam, como complemento, e às vezes como produto lucrativo, a cartomancia, a quiromancia, a marca de café, o sonambulismo pago, etc.; Espíritos complacentes, que ali encontram intérpretes não menos complacentes, predizem o futuro, dizem a sorte, descobrem os tesouros escondidos e os tios da América, indicam, se for preciso, o curso da Bolsa e os números vencedores da loteria; depois, um belo dia, a justiça intervém, ou bem vê-se num jornal o relatório de uma sessão de Espiritismo à qual o autor assistiu e conta o que viu, com seus próprios olhos viu.






Tentareis reconduzir todas essas pessoas a idéias mais sadias? Seria tempo perdido, e se compreende o porquê: a razão e o lado sério da Doutrina não são seu negócio; é o que os mais atormenta; dizer-lhes que prejudica a causa, que dão armas aos seus inimigos, é elogiá-los; sendo seu objetivo desacreditá-la, tendo ar de defendê-la. Instrumentos, não temem nem de comprometer os outros levando-os sob o rigor da lei, e nem de se colocar eles mesmos, porque sabem ali encontrar compensação.






Seu papel não é sempre idêntico; varia segundo sua posição social, suas aptidões, a natureza de suas relações e o elemento que os faz agirem; mas o objetivo é sempre o mesmo. Nem todos empregam meios tão grosseiros, mas que nem por isso são menos pérfidos. Lede certas publicações supostamente simpáticas à idéia, mesmo em aparência defensiva da idéia, pesai-lhes todos os pensamentos, e vede se, às vezes, ao lado de uma aprovação colocada à guisa de cobertura e de etiqueta, não descobrireis, lançado como por acaso, um pensamento insidioso, uma insinuação de duplo sentido, um fato contado de maneira ambígua e podendo se interpretar num sentido desfavorável. Entre eles há os menos velados, e que, sob o manto do Espiritismo, são evidentemente feitos tendo em vista suscitar divisões entre os adeptos. Perguntar-se-nos-ão, sem dúvida, se todas as torpezas das quais acabamos de falar são invariavelmente o fato de manobras ocultas, ou uma comédia representada num objetivo interessado, e se elas não podem ser também o de um movimento espontâneo; em uma palavra, se todos os Espíritas são homens de bom senso e incapazes de se enganar?






Pretender que todos os Espíritas são infalíveis seria tão absurdo quanto a pretensão de nossos adversários de terem, só eles, o privilégio da razão. Mas se há os que se enganam, é, pois, que menosprezam o sentido e o objetivo da Doutrina; nesse caso, sua opinião não pode fazer lei, e é ilógica ou desleal, segundo a intenção, de tomar a idéia individual pela idéia geral, e de explorar uma exceção. Ocorreria o mesmo tomando-se as aberrações de alguns sábios pelas regras da ciência. Àqueles diremos: Se quereis saber de que lado está a presunção de verdade, estudai os princípios admitidos pela imensa maioria, se não for ainda a unanimidade absoluta dos Espíritas do mundo inteiro.





Os crentes de boa fé podem, pois, se enganar, e não consideramos um crime não pensarem como nós; se, entre as torpezas relatadas acima, fossem elas o fato de uma opinião pessoal, não se poderia nisso ver senão desvios isolados, lamentáveis, dos quais seria injusto fazer recair a responsabilidade sobre a Doutrina, que os repudia vivamente; mas se dizemos que podem ser o resultado de manobras interesseiras, é que nosso quadro foi tomado sobre modelos.







Ora, como é a única coisa que o Espiritismo haja, verdadeiramente, que temer no momento, convidamos todos os adeptos sinceros a se manterem em guarda evitando as armadilhas que se poderia estender-lhes. Para esse efeito, não poderiam ser mais circunspectos sobre os elementos a introduzir em suas reuniões, nem repelir com muito cuidado todas as sugestões que tendessem a desnaturar-lhe o caráter essencialmente moral. Mantendo ali a ordem, a dignidade e a seriedade que convém a homens sérios, se ocupando de uma coisa séria, fecharão o acesso aos mal intencionados que se retirarão quando reconhecerem que ali nada têm a fazer. Pelos mesmos motivos, devem declinar toda solidariedade com as reuniões formadas fora das condições prescritas pela sã razão e os verdadeiros princípios da Doutrina, se não podem conduzi-los para um bom caminho.





Como se vê, há uma grande diferença, certamente, entre os falsos irmãos e os amigos desajeitados, mas, sem o querer, o resultado pode ser o mesmo: desacreditar a Doutrina.


A nuança que os separa, freqüentemente, não está senão na intenção, o que faz
que se possa, algumas vezes, confundi-los e, vendo-os servir os interesses do partido adverso, supor que foram ganhados por ele. A circunspecção é, pois, nesse momento sobretudo, mais necessária do que nunca, porque não é preciso esquecer que palavras, ações ou escritos inconsiderados são explorados, e que os adversários se encantam em poderem dizer que isso vem dos Espíritas.





Nesse estado de coisas, compreende-se quais armas a especulação, em razão dos abusos aos quais pode dar lugar, podem oferecer aos detratores para apoiar sua acusação de malabarismos. Isso pode, pois, em certos casos, ser uma armadilha estendida da qual é preciso desconfiar. Ora, como não há malabarismo filantrópico, a abnegação e o desinteresse absoluto dos médiuns tiram aos detratores um de seus mais poderosos meios de difamação interrompendo toda discussão sobre esse assunto.





Levar a desconfiança ao excesso seria um erro muito grave, sem dúvida, mas num tempo de luta, e quando se conhece a tática do inimigo, a prudência se torna uma necessidade que não exclui, de resto, nem a moderação, nem a observação das conveniências das quais jamais se deve desistir. Aliás, não se poderia equivocar-se sobre o caráter do verdadeiro Espírita; há nele uma franqueza de maneiras que desafia toda suspeita, sobretudo quando é corroborada pela prática dos princípios da Doutrina. Que se levante bandeira contra bandeira, como procuram fazê-lo nossos antagonistas, o futuro de cada um está subordinado à soma de consolações e de satisfação moral que trazem; um sistema não pode prevalecer sobre um outro senão com a condição de ser mais lógico, e do qual a opinião pública é o soberano juiz; em todos os casos, a violência, as injúrias e a aspereza são maus antecedentes e uma recomendação pior ainda.


Resta a examinar as conseqüências desse estado de coisas. Essas astúcias podem, sem contradita, momentaneamente, trazer algumas perturbações parciais, por isso é preciso desmanchá-las tanto quanto possível, mas elas não poderiam prejudicar o futuro; primeiro porque não terão senão um tempo, uma vez que são uma manobra da oposição que cairá pela força das coisas; em segundo lugar que, o que quer que se diga e que se faça, não tirará jamais, à Doutrina, seu caráter distintivo, sua filosofia racional nem sua moral consoladora. Será estranho torturá-la e deturpá-la, fazer os Espíritos falarem à sua vontade, ou recolher comunicações apócrifas para lançar contradições como obstáculos, não se fará prevalecer um ensinamento isolado, fosse ele verdadeiro e não suposto, contra aquele que é dado de todas as partes. O Espiritismo se distingue de todas as outras filosofias naquilo que não é o produto da concepção de um único homem, mas de um ensino que cada um pode receber sobre todos os pontos do globo, e tal é a consagração que recebeu O Livro dos Espíritos. Este livro, escrito sem equívoco possível e ao alcance de todas as inteligências, será sempre a expressão clara e exata da Doutrina, e a transmitirá intacta àqueles que virão depois de nós. As cóleras que provoca são um indício do papel que está chamado a desempenhar, e da dificuldade de lhe opor alguma coisa de mais séria.





O que fez o rápido sucesso da Doutrina Espírita são as consolações e as esperanças que ela dá; todo sistema que, pela negação dos princípios fundamentais, tendesse a destruir a própria fonte dessas consolações, não poderia ser acolhido com mais favor.




É preciso não perder de vista que estamos, como dissemos, em momento de transição, e que nenhuma transição se opera sem conflito. Que não se admire, pois, em ver se agitarem as paixões em jogo, as ambições comprometidas, as pretensões frustradas, e cada um tentar recobrar o que vê lhe escapar, aferrando-se ao passado; mas pouco a pouco tudo isso se apaga, a febre se acalma, os homens passam, e as idéias novas ficam.





Espíritas, elevai-vos pelo pensamento, levai vossos olhares vinte anos à frente, e o presente não vos inquietará.


(Revista Espírita, março de 1863
)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

REVERENCIANDO KARDEC

Antes de Kardec, embora não nos faltasse a crença em Jesus, vivíamos na Terra atribulados por flagelos da mente, quais os que expomos:
o combate recíproco e incessante entre os discípulos do Evangelho;
o cárcere das interpretações literais;
o espírito de seita;
a intransigência delituosa;
a obsessão sem remédio;
o anátema nas áreas da filosofia e da ciência;
o cativeiro aos rituais;
a dependência quase absoluta dos templos de pedra para as tarefas da edificação íntima;
a preocupação de hegemonia religiosa;
a tirania do medo, ante as sombrias perspectivas do além-túmulo;
o pavor da morte, por suposto fim da vida.
...
Depois de Kardec, porém, com a fé raciocinada nos ensinamentos de Jesus, o mundo encontra no Espiritismo Evangélico benefícios incalculáveis, como sejam:
a libertação das consciências;
a luz para o caminho espiritual;
a dignificação do serviço ao próximo;
o discernimento;
o livre acesso ao estudo da lei de causa e efeito, com a reencarnação explicando as origens do sofrimento e as desigualdades sociais;
o esclarecimento da mediunidade e a cura dos processos obsessivos;
a certeza da vida após a morte;
o intercâmbio com os entes queridos domiciliados no Além;
a seara da esperança;
o clima da verdadeira compreensão humana;
o lar da fraternidade entre todas as criaturas;
a escola do Conhecimento Superior, desvendando as trilhas da evolução e a multiplicidade das “moradas” nos domínios do Universo.
...
Jesus – o amor.
Kardec – o raciocínio.
Jesus – o Mestre.
Kardec – o Apóstolo.
...
Seguir o Cristo de Deus, com a luz que Allan Kardec acende em nossos corações, é a norma renovadora que nos fará alcançar a sublimação do próprio espírito, em louvor da Vida Maior.


EMMANUEL
(Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião pública da Comunhão Espírita Cristã, na noite de 24-1-69, em Uberaba, Minas.)

domingo, 16 de março de 2008

Atualidade da Doutrina Espírita


Aureci Figueiredo Martins

dirigente do I.E. Terceira Revelação Divina - POA/RS








Lembremos alguns dos princípios básicos da doutrina espírita, dispostos na codificação kardeciana:

· A compatibilização da fé com a razão;
· Deus como inteligência suprema e causa primária de todas as coisas;
· A misericórdia infinita de Deus para com suas criaturas;
· A lei de causa-e-feito regendo todos os fenômenos naturais, físicos e morais;
· As leis morais inscritas na consciência humana;
· Jesus como irmão maior e modelo de perfeição moral;
· A caridade moral como cumprimento da lei de Amor;
· A comunicabilidade dos Espíritos;
· A mediunidade como faculdade natural, educável;
· A evolução dos seres desde a mônada até o arcanjo;
· A imortalidade da alma;
· A imperfeição moral com causa primacial dos sofrimentos humanos;
· A pluralidade dos mundos habitados;
· O homem como espírito encarnado;
· A programação prévia e individualizada das encarnações;
· A reencarnação como lei natural, justa e misericordiosa;
· A encarnação e a desencarnação como fenômenos espirituais;
· O nascimento e a morte como fenômenos meramente somáticos.

A codificação kardequiana é o fruto de um esforço ingente da Espiritualidade Maior no sentido de alcançar ao homem moderno uma cosmovisão tão ampla que só encontra limites na bitola mental de cada um de nós. E cada vez que a consultamos, descobrimos nuanças que nos haviam escapado anteriormente: é uma inigualável síntese do conhecimento passível de assimilação pela inteligência humana.



Com isto, todavia, não se entenda que pretendemos ver o pensamento espírita cristalizado em leituras fundamentalistas, mas que busquemos fazer uma interpretação contextualizada das obras basilares, na qual captemos o ideário espírita no vocabulário da época em que foram escritos.



Nós, os espíritas, é que não podemos nos desatualizar nos avanços culturais da humanidade, pois, no adepto esclarecido, nossa doutrina estará sempre atualizada.

domingo, 27 de janeiro de 2008

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A FÉ







Carolina Lopez Israel
C. E. Mansão da Paz - Rio Grande/RS





Desde seus primórdios o ser humano começou a observar os fenômenos naturais e a se indagar o que eram, assim como também, ao observar a si mesmo realizou profundas conjeturas sobre o que era e qual a finalidade de sua existência. Começou então a estabelecer um sistema de crenças, todas baseadas na certeza da existência de poderes superiores, divinos. Estas crenças sempre estiveram condicionadas ao nível de compreensão daqueles que as professavam.. O ser humano observando a natureza via nela a manifestação de forças poderosas, misteriosas, e por não compreender como as coisas de davam atribuía a cada fenômeno natural a ação de uma divindade. Sendo que, as forças naturais representariam divindades diversas (o raio, o trovão, as águas, o vento, etc.). Com tempo começou a se atribuir uma noção mais abstrata às divindades, ou seja, seriam entidades, deuses que regeriam todos os processos do mundo, assim como, as atividades e vidas humanas. Seriam responsáveis pela família, pelo clã, pelas profissões...


Desse modo, como o ser humano sempre intuiu, de certa forma, uma força divina por trás da Natureza e de sua vida (porque a crença em Deus é inata e consiste na Lei de Adoração
[1]), ele também se perguntava quem era e o que aconteceria depois da morte. De certa forma sempre creu que teria vida imortal, mas esta crença estaria subordinada a um maior ou menor amadurecimento espiritual das criaturas. Esse amadurecimento é adquirido através de inúmeras de experiências, onde acumula conhecimentos – aumentando seu nível de inteligência e sensibilidade – para compreender ou, ao menos, entrever melhor a realidade do Espírito e de Deus.

Tentando explicar os fenômenos da natureza, a razão de sua existência e seu futuro pós-morte, o ser humano começou a estruturar todo um sistema de crenças a fim de encontrar repostas, sempre auxiliado pelos benfeitores da vida maior ou luminares reencarnados.
Então, surgem as mais variadas crenças, indo do politeísmo ao monoteísmo, de uma visão mais antropomórfica da divindade, onde Deus era representado como um ser humano comum com todas nossas imperfeições, mas com um poder ilimitado, à visão mais espiritual de Deus, onde se tem consciência que não podemos adentrar no conhecimento profundo sobre a sua natureza, pois esta difere de tudo o que conhecemos, mas temos idéia a respeito de seus atributos básicos: onisciência, onipotência, toso bondade, justiça e sabedoria, eterno, imutável, imaterial e uno
[2].Em relação a nós mesmos, vários esquemas também foram construídos, sempre mais ou menos limitados.
Toda crença religiosa reflete de certa forma uma parte da verdade (que é una), mas pelas imperfeições humanas sofre inúmeras deturpações e aqueles que detêm o poder de transmiti-la (sacerdotes) geralmente a utilizam em benefício próprio e por tolo orgulho querem monopolizar tais conhecimentos impedindo os outros de pensarem por si mesmos. Enquanto o chamado crente, de qualquer religião, permanece estancado no comodismo de não ter que raciocinar nada por ele mesmo se deixa conduzir cegamente.
A maioria tem em si a fé de forma inata, pois é inerente á natureza humana ter intuição de Deus e de sua essência espiritual e de que a realidade não é apenas o que podemos ver, pois nossos sentidos sendo limitados não podem apreender tudo o que existe.
Antes era a religião ao se equivocar de conceber a fé sem a ciência, mas hoje é a ciência que se equivoca ao ver o mundo sem Deus[3], pois como irá se admitir o fenômeno inteligente sem uma causa igualmente inteligente? Aliás, porque o acaso iria querer vida e mantê-la em cada canto do universo? Num livro de Historia da ciência intitulado “Breve Historia de quase tudo”, de Bill Bryson o autor nos fala da probabilidade do acaso realizar todas as combinações de aminoácidos em nosso organismo é a mesma de um vendaval passar por um depósito de sucata e dali surgir um avião...e olhem que o autor não é religioso.
O Espiritismo vem nos mostrar a fé sem necessidade de um rótulo, dogmas ou cerimônias, uma fé baseada no raciocínio. O que seria esse raciocínio? É saber por que creio no que se baseia minha crença, os fatos nos quais ela está alicerçada. E depois o bom censo desta crença ou não. Se acredito num Deus que castiga, será que há lógica? Porque se Deus é bondade absoluta como ele iria condenar um filho? Se creio que posso comprar os favores divinos com promessas ou cargos religiosos, isto combina com minha crença de que Deus é imparcial e que vê a alma das criaturas e não o externo? E assim por diante...
Aliás, os primeiros espíritas, incluindo Kardec, tiveram a preocupação em analisar e estudar racionalmente os fenômenos que se apresentavam sem a visão fantástica a respeito da espiritualidade que está em voga ainda hoje. Tanto como os mais fúteis viam nas mesas girantes motivo para diversão e chacota hoje ainda se fala em fenômenos e se divulgam os mesmos com extremo sensacionalismo, sem a preocupação por uma reflexão séria sobre as realidades que eles vêm nos apresentar. Assim como o tema da mediunidade, grave responsabilidade e oportunidade de serviço iluminador para seu portador, mas encarada como distintivo de glória efêmera e exclusivista por muitos.
A verdadeira fé é aquela que se baseia nas verdades fundamentais, é ter consciência plena da realidade e da razão de existir sem necessidade de dar-se um nome, como o próprio Kardec diz em A Gênese[4]: haverá um dia em que todos se irmanarão numa mesma crença. Essa crença não tem porque ser o Espiritismo, o Espiritismo nos leva a compreensão de que a realidade é única e o ser humano interpreta de diversas formas segundo seu nível de conhecimentos, sua inteligência e maturidade espiritual.
Haverá um dia no qual o conhecimento de Deus, do Espírito, de nossa destinação e da reencarnação será totalmente natural.
Com o Espiritismo as virtudes deixam de ser uma imposição arbitrária, mas a própria condição de nossa felicidade.
Não haverá mais a figura terrível do pecado, pois o ser será mais consciente de que errou e de que deve que reparar esse erro mediante o bem fazer, o bem pensar e o bem agir.
Não mais aquela felicidade de beatitude inútil ou tormentos eternos, mas o continuo progresso do Espírito mediante o trabalho e o esforço próprio assistido pela infinita misericórdia divina.
Não mais o pensar que é necessário se isolar do mundo porque ele é fonte de pecado, mas estar no mundo sem ser do mundo, pois é necessário aqui estar para progredir e auxiliar os outros.
Não mais pensar que estamos irremediavelmente separados pela morte e sim que sempre se estará unido pelo pensamento e o sentimento, mesmo estando em dimensões diferentes.
A fé faz o homem e a mulher de bem, pois ela eleva a visão que temos da vida, não nos permitindo ficar no pântano das ilusões, naquilo que é passageiro. Cargos, paixões, problemas, doenças, calúnias, ambição e etc.
Ela nos faz ver o objetivo real de aqui estarmos e de que a atenção que damos ao mal se deve ao nosso primitivismo e nossa infantilidade, fazendo-nos almejar coisas mais perenes, como os bens do Espírito. E, também, que os outros as alcancem igualmente, nos livrando de nosso egoísmo exacerbado iremos parar de esperar que os outros sejam aquilo que queremos para ser aquilo que ao outros querem que sejamos, ou seja, iremos parar que exigir compreensão e solidariedade para sermos nós a atender os outros nas dores, na incompreensão... Claro que não seremos santos de uma hora para outra, mas começando nossos esforços hoje já é um passo.
Aquele que tem fé verdadeira, não importando o rótulo, se torna alguém moralmente melhor. Daí nos perguntamos, sinceramente: até onde vai a minha fé? Não no sentido de acreditar que tudo é possível, que meus petitórios sejam todos atendidos mas no sentido de saber até onde minhas ações corroboram minhas crenças. Se descobrirmos que ela ainda é muito pequena (que com certeza ainda o é porque senão estaríamos bem melhores), não nos desesperemos, pois vendo nossa pequenez é que crescemos.
Sejamos então alegres em nos descobrindo eternos aprendizes e cultivando a verdadeira fé em nossos caminhos, pois ela clareia nossa visão, não nos deixando chafurdar na ilusão.



BIBLIOGRAFIA

BRYON, Bill. Breve Historia sobre quase tudo. Companhia das Letras, São Paulo. 2003.

FRANCO, Divaldo. Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia profunda. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Editora Alvorada, Salvador. 2000.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Editora IDE .São Paulo. 1998

KARDEC, Allan.O Evangelho Segundo o Espiritismo. Editora IDE, São Paulo, 1998.

KARDEC, Allan .A Gênese. Editora IDE, São Paulo. 1998.

MACEDO, Cristian, O despertar da alma. Sociedade Espírita Esperança. Gravataí. 2004.

TEIXEIRA, Raul. A carta magna da paz. Pelo Espírito Camilo. Fráter, Niterói. 2002.


[1] KARDEC, Allan. Livro dos Espíritos Capítulo II do livro terceiro[2] KARDEC, Allan. Livro dos Espíritos. Capítulo I.[3] KARDEC, Allan. Evangelho segundo o Espiritismo.[4] KARDEC, Allan. A Gênese, capítulo XVIII ítem 19.

domingo, 13 de janeiro de 2008

VIVER KARDEC

Allan Kardec
Nos estudos,
Nas cogitações,
Nas atividades,
Nas obras
A fim de que a nossa fé não se faça hipnose pela qual o domínio da sombra se estabelece sobre as mentes frágeis acorrentando a séculos de ilusão e sofrimento.
Seja Allan Kardec:
Não apenas crido ou sentido,
Apregoado ou manifestado a nossa bandeira de fé,
Mas suficientemente:
Vivido
Sofrido
Chorado
E realizado em nossas próprias vidas.
Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo espera de nós através de nossa própria unidade.



Bezerra de Menezes


(Página psicografada por Francisco Cândido Xavier, extraída do livro Doutrina e Vida, editado pela Cultura Espírita União)