domingo, 27 de janeiro de 2008

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A FÉ







Carolina Lopez Israel
C. E. Mansão da Paz - Rio Grande/RS





Desde seus primórdios o ser humano começou a observar os fenômenos naturais e a se indagar o que eram, assim como também, ao observar a si mesmo realizou profundas conjeturas sobre o que era e qual a finalidade de sua existência. Começou então a estabelecer um sistema de crenças, todas baseadas na certeza da existência de poderes superiores, divinos. Estas crenças sempre estiveram condicionadas ao nível de compreensão daqueles que as professavam.. O ser humano observando a natureza via nela a manifestação de forças poderosas, misteriosas, e por não compreender como as coisas de davam atribuía a cada fenômeno natural a ação de uma divindade. Sendo que, as forças naturais representariam divindades diversas (o raio, o trovão, as águas, o vento, etc.). Com tempo começou a se atribuir uma noção mais abstrata às divindades, ou seja, seriam entidades, deuses que regeriam todos os processos do mundo, assim como, as atividades e vidas humanas. Seriam responsáveis pela família, pelo clã, pelas profissões...


Desse modo, como o ser humano sempre intuiu, de certa forma, uma força divina por trás da Natureza e de sua vida (porque a crença em Deus é inata e consiste na Lei de Adoração
[1]), ele também se perguntava quem era e o que aconteceria depois da morte. De certa forma sempre creu que teria vida imortal, mas esta crença estaria subordinada a um maior ou menor amadurecimento espiritual das criaturas. Esse amadurecimento é adquirido através de inúmeras de experiências, onde acumula conhecimentos – aumentando seu nível de inteligência e sensibilidade – para compreender ou, ao menos, entrever melhor a realidade do Espírito e de Deus.

Tentando explicar os fenômenos da natureza, a razão de sua existência e seu futuro pós-morte, o ser humano começou a estruturar todo um sistema de crenças a fim de encontrar repostas, sempre auxiliado pelos benfeitores da vida maior ou luminares reencarnados.
Então, surgem as mais variadas crenças, indo do politeísmo ao monoteísmo, de uma visão mais antropomórfica da divindade, onde Deus era representado como um ser humano comum com todas nossas imperfeições, mas com um poder ilimitado, à visão mais espiritual de Deus, onde se tem consciência que não podemos adentrar no conhecimento profundo sobre a sua natureza, pois esta difere de tudo o que conhecemos, mas temos idéia a respeito de seus atributos básicos: onisciência, onipotência, toso bondade, justiça e sabedoria, eterno, imutável, imaterial e uno
[2].Em relação a nós mesmos, vários esquemas também foram construídos, sempre mais ou menos limitados.
Toda crença religiosa reflete de certa forma uma parte da verdade (que é una), mas pelas imperfeições humanas sofre inúmeras deturpações e aqueles que detêm o poder de transmiti-la (sacerdotes) geralmente a utilizam em benefício próprio e por tolo orgulho querem monopolizar tais conhecimentos impedindo os outros de pensarem por si mesmos. Enquanto o chamado crente, de qualquer religião, permanece estancado no comodismo de não ter que raciocinar nada por ele mesmo se deixa conduzir cegamente.
A maioria tem em si a fé de forma inata, pois é inerente á natureza humana ter intuição de Deus e de sua essência espiritual e de que a realidade não é apenas o que podemos ver, pois nossos sentidos sendo limitados não podem apreender tudo o que existe.
Antes era a religião ao se equivocar de conceber a fé sem a ciência, mas hoje é a ciência que se equivoca ao ver o mundo sem Deus[3], pois como irá se admitir o fenômeno inteligente sem uma causa igualmente inteligente? Aliás, porque o acaso iria querer vida e mantê-la em cada canto do universo? Num livro de Historia da ciência intitulado “Breve Historia de quase tudo”, de Bill Bryson o autor nos fala da probabilidade do acaso realizar todas as combinações de aminoácidos em nosso organismo é a mesma de um vendaval passar por um depósito de sucata e dali surgir um avião...e olhem que o autor não é religioso.
O Espiritismo vem nos mostrar a fé sem necessidade de um rótulo, dogmas ou cerimônias, uma fé baseada no raciocínio. O que seria esse raciocínio? É saber por que creio no que se baseia minha crença, os fatos nos quais ela está alicerçada. E depois o bom censo desta crença ou não. Se acredito num Deus que castiga, será que há lógica? Porque se Deus é bondade absoluta como ele iria condenar um filho? Se creio que posso comprar os favores divinos com promessas ou cargos religiosos, isto combina com minha crença de que Deus é imparcial e que vê a alma das criaturas e não o externo? E assim por diante...
Aliás, os primeiros espíritas, incluindo Kardec, tiveram a preocupação em analisar e estudar racionalmente os fenômenos que se apresentavam sem a visão fantástica a respeito da espiritualidade que está em voga ainda hoje. Tanto como os mais fúteis viam nas mesas girantes motivo para diversão e chacota hoje ainda se fala em fenômenos e se divulgam os mesmos com extremo sensacionalismo, sem a preocupação por uma reflexão séria sobre as realidades que eles vêm nos apresentar. Assim como o tema da mediunidade, grave responsabilidade e oportunidade de serviço iluminador para seu portador, mas encarada como distintivo de glória efêmera e exclusivista por muitos.
A verdadeira fé é aquela que se baseia nas verdades fundamentais, é ter consciência plena da realidade e da razão de existir sem necessidade de dar-se um nome, como o próprio Kardec diz em A Gênese[4]: haverá um dia em que todos se irmanarão numa mesma crença. Essa crença não tem porque ser o Espiritismo, o Espiritismo nos leva a compreensão de que a realidade é única e o ser humano interpreta de diversas formas segundo seu nível de conhecimentos, sua inteligência e maturidade espiritual.
Haverá um dia no qual o conhecimento de Deus, do Espírito, de nossa destinação e da reencarnação será totalmente natural.
Com o Espiritismo as virtudes deixam de ser uma imposição arbitrária, mas a própria condição de nossa felicidade.
Não haverá mais a figura terrível do pecado, pois o ser será mais consciente de que errou e de que deve que reparar esse erro mediante o bem fazer, o bem pensar e o bem agir.
Não mais aquela felicidade de beatitude inútil ou tormentos eternos, mas o continuo progresso do Espírito mediante o trabalho e o esforço próprio assistido pela infinita misericórdia divina.
Não mais o pensar que é necessário se isolar do mundo porque ele é fonte de pecado, mas estar no mundo sem ser do mundo, pois é necessário aqui estar para progredir e auxiliar os outros.
Não mais pensar que estamos irremediavelmente separados pela morte e sim que sempre se estará unido pelo pensamento e o sentimento, mesmo estando em dimensões diferentes.
A fé faz o homem e a mulher de bem, pois ela eleva a visão que temos da vida, não nos permitindo ficar no pântano das ilusões, naquilo que é passageiro. Cargos, paixões, problemas, doenças, calúnias, ambição e etc.
Ela nos faz ver o objetivo real de aqui estarmos e de que a atenção que damos ao mal se deve ao nosso primitivismo e nossa infantilidade, fazendo-nos almejar coisas mais perenes, como os bens do Espírito. E, também, que os outros as alcancem igualmente, nos livrando de nosso egoísmo exacerbado iremos parar de esperar que os outros sejam aquilo que queremos para ser aquilo que ao outros querem que sejamos, ou seja, iremos parar que exigir compreensão e solidariedade para sermos nós a atender os outros nas dores, na incompreensão... Claro que não seremos santos de uma hora para outra, mas começando nossos esforços hoje já é um passo.
Aquele que tem fé verdadeira, não importando o rótulo, se torna alguém moralmente melhor. Daí nos perguntamos, sinceramente: até onde vai a minha fé? Não no sentido de acreditar que tudo é possível, que meus petitórios sejam todos atendidos mas no sentido de saber até onde minhas ações corroboram minhas crenças. Se descobrirmos que ela ainda é muito pequena (que com certeza ainda o é porque senão estaríamos bem melhores), não nos desesperemos, pois vendo nossa pequenez é que crescemos.
Sejamos então alegres em nos descobrindo eternos aprendizes e cultivando a verdadeira fé em nossos caminhos, pois ela clareia nossa visão, não nos deixando chafurdar na ilusão.



BIBLIOGRAFIA

BRYON, Bill. Breve Historia sobre quase tudo. Companhia das Letras, São Paulo. 2003.

FRANCO, Divaldo. Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia profunda. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Editora Alvorada, Salvador. 2000.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Editora IDE .São Paulo. 1998

KARDEC, Allan.O Evangelho Segundo o Espiritismo. Editora IDE, São Paulo, 1998.

KARDEC, Allan .A Gênese. Editora IDE, São Paulo. 1998.

MACEDO, Cristian, O despertar da alma. Sociedade Espírita Esperança. Gravataí. 2004.

TEIXEIRA, Raul. A carta magna da paz. Pelo Espírito Camilo. Fráter, Niterói. 2002.


[1] KARDEC, Allan. Livro dos Espíritos Capítulo II do livro terceiro[2] KARDEC, Allan. Livro dos Espíritos. Capítulo I.[3] KARDEC, Allan. Evangelho segundo o Espiritismo.[4] KARDEC, Allan. A Gênese, capítulo XVIII ítem 19.

domingo, 13 de janeiro de 2008

VIVER KARDEC

Allan Kardec
Nos estudos,
Nas cogitações,
Nas atividades,
Nas obras
A fim de que a nossa fé não se faça hipnose pela qual o domínio da sombra se estabelece sobre as mentes frágeis acorrentando a séculos de ilusão e sofrimento.
Seja Allan Kardec:
Não apenas crido ou sentido,
Apregoado ou manifestado a nossa bandeira de fé,
Mas suficientemente:
Vivido
Sofrido
Chorado
E realizado em nossas próprias vidas.
Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo espera de nós através de nossa própria unidade.



Bezerra de Menezes


(Página psicografada por Francisco Cândido Xavier, extraída do livro Doutrina e Vida, editado pela Cultura Espírita União)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

CELEBRAÇÃO DO NATAL


Larissa Carvalho
Historiadora, expositora espírita e
colaboradora do Projeto Estudando Kardec/POA-RS


Natal!
Nestes tempos acelerados em que nos movimentamos, o Natal é uma data que chega tão rápido a cada ano! Passa o carnaval, inicia o ano letivo, em seguida chega o mês de agosto, as comemorações cívicas... o Natal, novamente o Natal. Então, temos que comprar os presentes, não podemos nos esquecer de ninguém, todos precisam estar em nossas listas. "E se o namorado da minha prima comparecer à ceia? Compro um presente para ele?" Para os entes queridos mais próximos, presentes melhores, para os que não são tão próximos, lembrancinhas.

Para os filhos... Bom, esses, hoje em dia, escolhem seus presentes antes da véspera do Natal; em geral àqueles brinquedos que brincam pelas crianças: Bonecas que falam e que não permitem que as meninas exercitem a imaginação criando diálogos nem supostas necessidades dos seus bebês. Robôs que andam, conversam, brincam sozinhos e os meninos ficam apenas observando, se assim o quiserem.

Sem falar nos preparativos da própria ceia natalina. Perus, doces, tâmaras e os supermercados ficam abertos até a noite da véspera do Natal para atender às solicitações de todos os clientes. Preços exorbitantes, jovens senhoras de família digladiando umas com as outras pelos últimos exemplares dos seres desencarnados que serão servidos na ceia de Natal. Filas enormes, principalmente quando vamos comprar o refrigerante esquecido, quase à hora do jantar.

À hora da ceia natalina, da chegada dos familiares, amigos, os queridos do nosso coração, estamos cansados, verdadeiramente esgotados. Os preparativos foram tantos, tão desgastantes, que a alegria do Natal, a espera da passagem das horas, os abraços e sorrisos parecem terem se perdido no tempo de nossas infâncias. Apenas nossas crianças ainda sonham.

Mas, afora os saudosismos, será que ainda sabemos o real objetivo do Natal? Alguns dirão, inopinadamente, que é o nascimento de Jesus. Pois bem! Mas o que isso significa nas nossas vidas?

Jesus foi o ser mais perfeito que Deus permitiu viver na terra até nossos dias com o intuito de nos auxiliar a progredir enquanto Espíritos imortais. Somente por isso o Seu nascimento é uma dádiva para a Humanidade. Mas além disso, a celebração do nascimento de Jesus, como nós a organizamos em nossa sociedade, deveria ser uma celebração do sentimento de família.

Jesus nasceu em local simples, rodeado de animais, como conta a história dos Hebreus, sem luxo, sem pompa, sem jantar fausto, mas rodeado de sua família. Não nos importa se a família de Jesus contava somente com três ou havia mais pessoas, o que realmente importa é que ele estava com sua família, seu pai, sua mãe, os pastores amigos. Em Seu nascimento Jesus celebrou a família.

E não olvidemos que os laços de família, conforme nos exortam os Espíritos em resposta à Kardec na questão 775 d’O Livro dos Espíritos, fortemente consolidados fazem com que o egoísmo que viceja em nós não recrudesça, não se intensifique. E quanto mais forte tornamos esses laços, mais enfraquecido fica o nosso egoísmo, essa chaga da Humanidade.
Natal! Celebração do nascimento do Cristo! Celebração do sentimento de família! Celebração da futura conquista da família universal. Procuremos não encontrarmo-nos demasiadamente cansados na véspera do Natal pela correria na compra dos presentes, na preparação do jantar, na arrumação da decoração. Reservemos energia, motivação para sorrir e sentirmo-nos felizes com a chegada dos familiares, dos amigos, dos entes queridos. Vivamos a alegria do Natal, a esperança de sermos felizes, sem nos esquecer de que sem a nossa família a ceia, os presentes não teriam sentido e que Jesus nasceu no seio de uma família exortando a humanidade, pelo exemplo, a não olvidar os laços divinos da família que iniciam a trama milenar que vem tecendo na Terra, paulatinamente, o Amor Universal.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A GERAÇÃO NOVA

27. Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente ao bem se dediquem. Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta transformado, serão excluídos, porque, senão, lhe ocasionariam de novo perturbação e confusão e constituiriam obstáculo ao progresso. Irão expiar o endurecimento de seus corações, uns em mundos inferiores, outros em raças terrestres ainda atrasadas, equivalentes a mundos daquela ordem, aos quais levarão os conhecimentos que hajam adquirido, tendo por missão fazê-las avançar. Substituí-los-ão Espíritos melhores, que farão reinem em seu seio a justiça, a paz e a fraternidade.

A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas.

Tudo, pois, se processará exteriormente, como sói acontecer, com a única, mas capital diferença de que uma parte dos Espíritos que encarnavam na Terra aí não mais tornarão a encarnar. Em cada criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem.

Muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que de uma nova geração de Espíritos. Sem dúvida, neste sentido é que Jesus entendia as coisas, quando declarava: “Digo-vos, em verdade, que esta geração não passará sem que estes fatos tenham ocorrido.” Assim, decepcionados ficarão os que contem ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos.

28. A época atual é de transição; confundem-se os elementos das duas gerações. Colocados no ponto intermédio, assistimos à partida de uma e à chegada da outra, já se assinalando cada uma, no mundo, pelos caracteres que lhes são peculiares.

Têm idéias e pontos de vista opostos as duas gerações que se sucedem. Pela natureza das disposições morais, porém, sobretudo das disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo.

Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e a crenças espiritualistas, o que constitui sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, já tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as idéias progressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração.

O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasados é, em primeiro lugar, a revolta contra Deus, pelo se negarem a reconhecer qualquer poder superior aos poderes humanos; a propensão instintiva para as paixões degradantes, para os sentimentos antifraternos de egoísmo, de orgulho, de inveja, de ciúme; enfim, o apego a tudo o que é material: a sensualidade, a cupidez, a avareza.

Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento dos que se obstinam em não emendar-se; porque são incompatíveis com o reinado da fraternidade e porque o contacto com eles constituirá sempre um sofrimento para os homens de bem. Quando a Terra se achar livre deles, os homens caminharão sem óbices para o futuro melhor que lhes está reservado, mesmo neste mundo, por prêmio de seus esforços e de sua perseverança, enquanto esperem que uma depuração mais completa lhes abra o acesso aos mundos superiores.

(Itens do cap. XVIII do livro A GÊNESE, de Allan Kardec, 1868)

domingo, 25 de novembro de 2007

domingo, 18 de novembro de 2007

O LIVRO DOS ESPÍRITOS E A CODIFICAÇÃO - I

Vinícius Lousada(1)


Contendo em si os princípios da Doutrina Espírita e abordando com profundidade e clareza, jamais vistas, as temáticas da imortalidade da alma, a natureza dos Espiritos e suas relações com a humanidade reencarnada, as leis morais, a vida presente, aspectos da vida futura e do porvir dos seres humanos, O Livro dos Espíritos (L. E.) se apresenta como obra magna da Codificação Espirita.

Essa obra foi produzida a partir de uma metodologia própria, nascida do diálogo com o paradigma científico em vigor, mas, aberta sensivelmente aos caminhos metodológicos que a fenomenologia espírita exigia e, obviamente, sob a coordenação dos Espíritos Superiores.

Nos diálogos com os Imortais, Kardec extrapola o materialismo científico para recolher um conjunto de informações que se configuraria num corpo de doutrina capaz de ser caracterizada, ao mesmo tempo, como uma ciência da vida espiritual, uma filosofia transcedente com consequências religiosas, ou seja, que conduz o indivíduo no caminho da “religião natural, a que parte do coração e vai direto a Deus, (...).”2

Esclarece o Codificador, no primeiro item da sua Introdução, que o Espiritismo tem por princípio a relação do mundo material com os Espiritos; explicitando ainda que, na sua especialidade, O Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita, ou seja, nele encontramos os saberes que dizem respeito à origem e natureza dos Espiritos e à sua relação com o mundo físico. Por outro lado, em sua generalidade, nos lembra Allan Kardec, o referido livro está relacionado à Filosofia Espiritualista, enquanto corrente do pensamento humano, como uma de suas fases mesmo.


A METODOLOGIA KARDEQUIANA

O mestre lionês concebia que a fenomenologia espírita constituia uma ordem de fenômenos radicalmente diferente daqueles estudados sob a égide do modelo positivista de ciência, até então. Assim como coisas novas pedem palavras novas, fenômenos inusitados merecem, no olhar do pesquisador lúcido, a utilização de um novo método capaz de apreender o objeto científico na sua totalidade, indo além do que já afirmava o jeito materialista de fazer ciência e as leis descobertas, combinando os dados oriundos dos diálogos com os Espíritos juntamente com a observação metódica, atenta e perseverante dos fatos.

Aliás, percebecemos, ao passarmos os olhos sob as páginas da Revista Espírita, quando por ele editada, que os colóquios com os Espíritos não se estabeleciam sem questionamentos. Os ditados do além, trazidos pela mediunidade caracterizada por efeitos inteligentes, não ficavam sem novos e insistentes questionamentos. Era a marca do sábio pesquisador, Prof. Rivail, levantar dúvidas e problematizar as teses propostas pelos Espíritos.

O que diziam o Espíritos não era considerado verdade, pura e simplesmente, por se tratar da palavra de alguém domiciliado no mundo dos Espíritos, como erroenamente muita gente ingênua imagina ainda hoje, apesar das reiteradas advertências do hábil Codificador.

Nem os médiuns e nem os Espiritos foram considerados por Allan Kardec como seres infalíveis. Tanto uns como os outros são dotados de saberes relativos, condicionados sempre à sua condição evolutiva e matizados por suas matrizes culturais, sociais e históricas.

No caso dos médiuns, não podemos desconhecer o quanto suas matrizes conceituais têm presença na filtragem mediúnica, como se pode conceber ao estudarmos o papel do médiun nas comunicações inteligentes, conforme o exposto em O Livro dos Médiuns, como o sendo de verdadeiro intérprete, e, aquele que interpreta empresta ao objeto de sua interpretação elementos de sua subjetividade.

Individualmente, a produção mediúnica tem um valor relativo a uma opinião de um Espírito fornecida por um médium. Caso a Doutrina Espírita tivesse sido assim concebida, não seria dotada da autoridade científica e filosófica que possui, se trataria de mais um sistema de idéias espiritualistas como tantos outros ou como as religiões que, de forma geral, conferem autoridade somente à letra das escrituras.

Os sábios - como eram chamados os cientistas no século XIX, nem sempre tão sábios quanto pareciam ser –, presos ao paradigma dominante de fazer ciência, eram incapazes de verem na fenomenologia espírita motivo para uma completa observação dos fatos, normalmente, as análises que atribuíam descrédito a tais fenômenos eram superficiais e precipitadas.

Ignorando os limites metodológicos das ciências positivas que abraçavam, muitos pesquisadores, embora honestos, invalidavam os fatos espíritas por que esses simplesmente não atendiam aos seu critérios de repetição, medição e verificação em laboratório sob a ação exclusiva da sua vontade e não se assujeitavam a leis já conhecidas.

Os membros das corporações científicas desconheciam que esses fatos, revelando uma das forças da Natureza, eram tão antigos quanto a humanidade, vindo, naquela época, a se reproduzir vertiginosamente, em vários pontos do globo, atendendo a uma intencionalidade certamente superior.

Do mesmo modo, se esqueciam de que, em se tratando de inteligências invisíveis, elas eram dotadas de vontade própria, não sendo possível subjulgá-las, cegamente, ao desejo do cientista. Essa postura tão própria do dogmatismo científico é qualificadamente criticada por Kardec na introdução de O Livro dos Espíritos, no item VII, ao dizer inclusive que “o Espiritismo não é da alçada da Ciência.”3

Allan Kardec, por sua vez estabeleceu uma metodologia capaz de verificar e validar as informações obtidas pelas entrevistas que encetava junto aos Guias da humanidade, partindo da observação, da indução que constrói a generalização a partir dos fatos empiricamente observados e da dedução, que no caminho inverso, sugere como ponto de partida verdades universais rumo a outras mais particulares.


Mas foram os Espíritos que se revelaram como tais, essa descoberta não foi fruto de uma hipótese elaborada por Kardec em seu escritório, diferentemente do que acontecia no campo nas ciências exatas.

E ainda, vale lembrarmo-nos de que o fenômeno transitou das mesas girantes, das batidas e diferentes manifestações físicas para as cestas e pranchetas com lápis, para culminar na escrita psicográfica, por sua vez, muito mais veloz e útil para dar materialidade ao conteúdo filosófico que os Espíritos estavam incumbidos de revelar.


Para entendermos, de maneira adequada, qual a metodologia criada e empregada por Allan Kardec para a sistematização da Doutrina dos Espíritos num livro, que, posteriormente, vai ser desdobrada noutras obras, é preciso visitarmos as páginas de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Na introdução dessa obra extraordinária, em que encontramos a substância religiosa do Espiritismo de modo mais detalhado, onde Kardec se ocupa de trazer reflexões dos Espíritos Superiores e as suas próprias acerca da moral cristã, da aplicação ética dos ensinos de Jesus Cristo em todas as circunstâncias da vida, é que podemos apreender o controle universal do ensino dos Espíritos – a metodologia científica empreendida pelo Codificador.


Essa metodologia pode ser sintetizada assim: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.”4

Para Kardec, o primeiro crivo a respeito de qualquer conteúdo trazido por alguns Espíritos era a análise da razão e do bom senso para, a seguir, verificar a veracidade de qualquer princípio, contando com a contribuição de diálogos com outros Espíritos através de médiuns diferentes, que não fizessem parte do mesmo agrupamento espírita.

Somente aqueles princípios revelados coletivamente e que atendiam aos reclames da razão vieram a ser coletados por Kardec e acolhidos no corpo da Doutrina dos Espíritos. Os que careceram do aval do ensino coletivo não figuravam no rol dos saberes genuinamente espíritas, ficaram sendo considerados apenas como hipóteses e, o leitor atento verificará nas obras da Codificação que, quando o eminente professor se ocupa de uma hipótese ele a distingue claramente do que está firmado no ensino coletivo dos Espíritos.


Na concordância universal é que reside a melhor comprovação do que ensinam o Espíritos e mais, para que não hajam falhas em seu emprego, devem ser levada em conta as condições apontadas por Kardec. È nela que reside a autoridade da Doutrina dos Espíritos, como é fácil ver nos esclarecimentos a seu respeito que constam nas páginas introdutórias de O Evangelho segundo o Espiritismo.

As matérias que compõem as obras da Codificação foram elaboradas atendendo a esse critério, o do controle universal do ensino dos Espíritos. Naturalmente, vamos contar com as profundas reflexões e a genialidade de Kardec na sistematização e no desdobramento dos princípios da Doutrina dos Espíritos.
(Continua...)