quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Na vereda da mediunidade



Vinícius Lousada


A mediunidade, assim, corresponde a bendito instrumento para a felicidade e para a redenção e não motivo de sofrimento e aflição no mundo.- Camilo



Perpassando as páginas fulgurantes de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, é possível colher a sábia orientação de Allan Kardec quando destaca que a “mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente.” (1)

Verifica-se nesta proposta do Codificador que a prática da mediunidade deve ser realizada de forma desinteressada, em virtude de sua santa finalidade de educar as criaturas dos dois âmbitos da vida, despertando desencarnados e encarnados à consciência de sua própria imortalidade e à responsabilidade dela advinda.

A experiência mediúnica séria consiste numa sala de aula interexistencial em que, como partícipes, ensinamos e aprendemos ao ouvirmos os dramas daqueles que se desnortearam nos rumos que deram às suas vidas.

Ocorrem também produtivas trocas de informações naquelas proveitosas tertúlias em nossas sociedades espíritas, nas quais dedicamo-nos à orientação dos libertos do escafrando corporal, contribuindo assim para a mudança de hábitos daqueles que são aconselhados e dos que nos fazemos esclarecedores; sem, contudo, nos descuidarmos das justas orientações de nossos Benfeitores Espirituais para com a nossa tarefa auto-educativa.

A vivência da mediunidade equilibrada, eivada de espírito de renúncia, educará o médium que, na sua condição de intérprete dos Espíritos, realiza a filtragem dos conteúdos que veicula, como agente transmissor do recado do além, oportunizando-se amplo aprendizado, no que tange aos postulados espíritas, às Leis da Vida e à ação amorosa da Providência Divina em prol da realização plena dos filhos de Deus.

Ao experimentar como co-partícipe a comunicação espiritual, se atento à sua educação, muito embora busque um estado de passividade mental para a boa consecução do fenômeno medianímico, o médium será capaz de meditar mais tarde a respeito dos registros que foram feitos, sobre o porquê dos complexos pugilatos morais e estertores que enfrentam os Espíritos sofredores, sua relação com as atitudes impensadas que tomaram, com base em seu próprio livre-arbítrio, justificando-se nas mais variadas razões, sem contudo observarem a Lei de Amor.

O servidor da mediunidade notará que tudo ocorre dentro das normas divinas, por conta do Código Penal da Vida Futura(2), de forma que, se Deus jamais deserda seus filhos, nunca anui com o erro, como o fariam os mais prestimosos educadores terrestres, concedendo aos que agem no mal, oportunidade de, ao se arrependerem, expiarem suas faltas e repararem, mediante a realização da caridade, seus erros.

Por outro aspecto, verificamos que os Bons Espíritos não se cansam de apontar o caminho do bem como único roteiro capaz de divisar-nos um estado de felicidade na vida futura e destacar o egoísmo como a raiz de todos os males(3), como é possível apreender no estudo da Codificação Kardequiana.

É nesse circuito do exercício de doação da aparelhagem orgânica e de recursos fluídicos, num autêntico serviço de enfermagem espiritual, que o medianeiro tem farto material de estudo prático a ser cruzado com a bagagem teórica – estabelecida previamente e de aprimoramento contínuo –, convidando-o incessantemente a encetar esforços na conquista dos tesouros que os ladrões não furtam e nem as traças e a ferrugem podem corroer (4), mesmo que as dificuldades assomem à sua volta, por querer ser ético, honesto e justo num mundo ainda demarcado pelo utilitarismo.

Provavelmente sentirá, na vereda da mediunidade, a palavra do Rabi Galileu ordenando-lhe ao coração, como o fez com Lázaro: Acorda Lázaro! “Vem para fora!”(5) Dizendo-lhe também: Desperta médium! Serve! A caridade aguarda tua cota de participação a fim de diminuir a dor e o abandono no planeta!

Despertando assim, para os compromissos iluminativos da mediunidade com Jesus, surgirá na pauta de seus estudos, se almejar ser médium responsável, O Livro dos Médiuns, que se configura, na atualidade, como o maior e mais lúcido tratado que norteia e aprofunda a experimentação das faculdades espirituais da criatura humana, exaltando o devotamento e o desinteresse pessoal com o qual esse campo do Espiritismo deve ser pesquisado e vivenciado.

Allan Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade, apresenta para o edifício da Religião dos Espíritos esse guia dos médiuns e evocadores, naquele ambiente de primeiras horas do Espiritismo, em que o racionalismo materialista impunha aos médiuns o estigma de desordens mentais e que o absolutismo clerical, que teimava em dominar vidas, erguia a chibata do escárnio para desfigurar o verdadeiro caráter da mediunidade, conferindo-lhe origem demoníaca.

“O Livro dos Médiuns” deixa-nos um vasto espaço para a reflexão do que venha a ser a tarefa mediúnica aliada aos serviços de transformação na Terra, sob a direção de Jesus.

E é nesse Guia Prático que Kardec vai reiterar a missão do espírita no mundo, alertando aos medianeiros de boa-vontade esclarecida que: “O verdadeiro espírita não deixará jamais o bem por fazer; corações aflitos a aliviar, consolações a dar, desesperos a acalmar, reformas morais a operar, aí está sua missão; nisso também encontrará sua verdadeira satisfação.”(6)

Cabe-nos, então, a tarefa de estender o bem onde possamos, o quanto possamos, sempre que possamos, apresentando ao mundo – através de nossa conduta – que o médium estudioso do Espiritismo não é uma figura esquisita, caricata, cheia de chiliques ou mistérios, disfarçando seus recalques ou bengalas psicológicas num ar de ser privilegiado.

O médium espírita nem pode ser confundido com aqueles que comercializam a fé, porque labora em regime de voluntariado e considera imoral qualquer benefício recebido em virtude do exercício mediúnico.

Todo aquele que se dispuser a servir na mediunidade, sob a ingente orientação do Espiritismo, carece de se educar para viver espiritualmente no corpo, lutando por vencer as más inclinações, conduzindo-se moralmente segundo a luz da fé raciocinada que possui, experimentando o altruísmo para, finalmente, caminhar com Cristo na senda de nossa própria libertação.
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(1) O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XXVI, item 10.
(2) O Céu e o Inferno, Livro I, 1ª Parte, Cap. VII.
(3) O Livro dos Espíritos, questão 913.
(4) Mateus  6:19.

(5) João 11:43.
(6) O Livro dos Médiuns, item 30.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Livro dos Médiuns em seus 150 anos



Vinícius Lousada (1) 

Na atualidade, não há compêndio de Espiritismo experimental mais oportuno que O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores de autoria do mestre Allan Kardec. Vindo a lume nos dias iniciais de janeiro de 1861 e editado pelo Sr. Didier essa obra, segundo o Codificador (2), consistia no complemento de O Livro dos Espíritos, com o seu caráter científico. Mais tarde, Kardec vai considerá-la no rol das obras fundamentais do Espiritismo.

Ao seu tempo, podia ser adquirida na Livraria do Sr. Didier, tanto quanto, no escritório da Revista Espírita na passagem Saint-Anne, em Paris, em grande volume in-18, de 500 páginas. Em poucos meses do mesmo ano o livro teve uma segunda edição, com nova formatação e inteiramente revisada pelos Espíritos com numerosas observações valorosas de sua lavra, de tal forma que as palavras de Kardec manifestam que a obra era tanto deles quanto de seu autor (3).

Fico a imaginar a emoção, em 1861, de médiuns e dirigentes de grupos espíritas sérios ao encontrarem na produção kardequiana orientação segura para o desenvolvimento e direcionamento feliz da mediunidade, a serviço de uma compreensão mais profunda do mundo invisível porque iluminada pelos saberes produzidos na colaboração interexistencial entre o mestre lionês e os Espíritos Superiores, por sua vez, comandados pelo Espírito de Verdade.

Um guia seguro para lidar com a mediunidade

Não se trata somente de mais um livro, é uma obra indispensável no campo de estudos e meditações em torno da mediunidade para que o seu exercício se torne serviço ao semelhante, seja pela constatação veraz da imortalidade da alma e a identificação de nossa natureza espiritual, seja pelo diálogo criativo e moralizante com os sempre vivos, e ainda, pelo esclarecimento que se pode dar aos sofredores desencarnados, cuja infelicidade a que se atrelaram aguarda a terapêutica do Evangelho de Jesus no verbo fraterno dos reencarnados, sob os auspícios dos Benfeitores Espirituais.

Esse trabalho levado a bom termo por Allan Kardec é resultado de uma longa pesquisa experimental com Espíritos e médiuns, onde o cientista, aos estabelecer um método de experimentação em consonância com o objeto pesquisado – o mundo dos Espíritos e a filosofia ensinada pelos Imortais –, considera seus informadores espirituais não como reveladores pré-destinados, mas, como parceiros de estudos, cada qual contribuindo relativamente em seu patamar evolutivo.

Em O Livro dos Médiuns o Codificador exitosamente esclarece tudo que era referente às manifestações espíritas físicas e intelectuais, em seu contexto histórico, de acordo com os Espíritos Superiores a fim de desenvolver uma teoria espírita explicativa dos fenômenos, os mais variados, produzidos pelos habitantes do Mais Além; como também, das condições de sua reprodução e controle metodológico.

No anúncio que faz da obra na Revue Spirite, destaca que “sobretudo a matéria relativa ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade mereceu de nossa parte uma atenção toda especial.” (4)

Desse modo, já nessa consideração do autor somos convidados a levar em conta que, sobretudo os espíritas, podemos recolher em seu conteúdo um norte para o desenvolvimento seguro da mediunidade (no sentido kardequiano é um processo educativo do médium), e para o uso saudável dessa pré-disposição orgânica, natural e radicada no Espírito em sua capacidade comunicativa, quando manifesta de forma ostensiva.

O leitor estudioso dessa obra nela encontra condições de compreender a fenomenologia que cerca a mediunidade que possa ser portador, os recursos teóricos para lidar com sucesso na vereda da convivência lúcida com os Espíritos e para o enfrentamento adequado de seus desafios e obstáculos que, ao serem encarados sem o devido conhecimento, geram decepções e tristes resultados como a obsessão ou o uso imoral da mediunidade.

Por outro lado, na formação do dirigente e/ou do “doutrinador” (evocador, como Kardec designava o responsável por dialogar com os Espíritos nas reuniões espíritas) a obra é igualmente de sumo valor para que levemos com retidão os diálogos sempre instrutivos que se pode obter com os desencarnados, sendo possível apresentar-lhes questões em prol do esclarecimento moral e intelectual de todos nós, para o que nos orienta Kardec (5).

Enfim, o espiritista convicto encontra nesse livro subsídio para entender melhor o Espiritismo, em sua complexidade, na medida em que a obra revela aspectos essenciais do caráter experimental da Doutrina dos Espíritos, não raramente desconsiderados.

Em prol da Moral e da Filosofia Espírita

Com o advento de O Livro dos Espíritos o Espiritismo abandonava seu período de curiosidade, caracterizado pela especulação nem sempre séria, em nível de entretimento em que eram colocados os fenômenos espíritas por muita gente, na Europa do século XIX, e adentrava seu período de observação ou filosófico no qual “O Espiritismo é aprofundado e se depura, tendendo à unidade de doutrina e constituindo-se em Ciência.” (6)

Kardec via o Espiritismo como uma Ciência Moral (7) e, ao escrever O Livro dos Médiuns, deixa um legado inolvidável e previa de antemão as críticas ciumentas ou personalistas que queriam fazer valer sistemas particulares para a condução das lides mediúnicas, ou ainda, na explicação exclusivista destas, sem a chancela do ensino coletivo dos Espíritos.

Ainda, o cientista do invisível dá uma razão de ser grave à fenomenologia mediúnica para que se recolha com os Espíritos ensinamentos sérios e úteis à nossa felicidade na vida espiritual, evitando-se o desvio do fim providencial da mediunidade nas práticas espíritas.

Respondendo aos seus críticos que talvez supusessem desnecessária a severidade de princípios e conselho obtidos nessa obra, sem querer fundar escola, mas, propagar o direcionamento dado pelos Espíritos Superiores à mediunidade no Espiritismo, Kardec coloca na fachada principal dessa proposta o seu caráter moral e filosófico, sobretudo, em prol dos que se percebem necessitados das esperanças e consolações que podem haurir na Doutrina e nos resultados da atividade mediúnica sob a orientação maior de Jesus.

Nesse ano de comemorações do sesquicentenário de O Livro dos Médiuns procuremos estudar com profunda gratidão, no plano individual e coletivo, esse livro essencial no campo da mediunidade com Jesus e Kardec.

Estudando Kardec

“Nós mesmos pudemos constatar, em nossas excursões, a influência salutar que esta obra exerceu sobre a direção dos estudos espíritas práticos; assim, as decepções e mistificações são muito menos numerosas do que outrora, porque ela ensinou os meios de frustrar as artimanhas dos Espíritos enganadores.” (8)
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(1) Pedagogo, palestrante e escritor espírita. E-mail: vlousada@hotmail.com.
(2) KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano IV. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, pág. 22.
(3) Idem, pág. 518.
(4) Idem.
(5) KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 71. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2003, Cap. XXVI.
(6) KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano I. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, pág. 369.
(7) LOUSADA, Vinícius. Em busca da sabedoria. Porto Alegre: Editora Francisco Spinelli, 2010, p. 104.
(8) KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano IV. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006, pág. 517.

http://www.oconsolador.com.br/ano4/193/especial.html

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

COMPANHIAS ESPIRITUAIS



Vinícius Lousada



No século em que o eminente Louis Pauster revelava a ação de microorganismos, invisíveis a olho nu, na produção da fermentação de certas substâncias ou na decomposição de organismos, Allan Kardec apontava as sondas do quefazer científico para outra realidade não percebida pelos sentidos ordinários.

Fez de fenômenos que eram mote de distração na alta sociedade parisiense e, ao mesmo tempo, promovidos pela onda do moderno espiritualismo nascido na América, um objeto científico, passível de ser observado por um controle metodológico exigente.

Arguto pesquisador, se lhe revela a chave de graves questões da humanidade: quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos? Suas conclusões partiram das narrativas dos habitantes do mundo invisível livres do corpo como pássaros que se destinam ao espaço abandonando suas gaiolas.

A primeira aprendizagem de Kardec como pesquisador foi a de que, sendo os Espíritos nada mais e nada menos que nós mesmos, apartados do corpo, cada qual apresentava saber e moral referente à sua condição evolutiva, não sendo, nenhum deles, dotado de saber universal.

Assim, jamais o Codificador colocou ingenuamente os Espíritos na condição de gurus absolutos, mas de co-participantes de sua pesquisa sobre as leis que regem a vida espiritual. Eles eram apenas informadores ou instrutores, cada qual com a sua parcial contribuição sempre disposta ao crivo da razão.

Em O Livro dos Espíritos, encontramos uma categorização dos Espíritos, segundo suas condições evolutivas, onde pesam o predomínio ou não da matéria e a sua propensão para o mal ou bem. Essas categoriais mais gerais são divididas em Espíritos Inferiores, Bons Espíritos e Espíritos Superiores.

Ainda, segundo o Codificador, em a Revista Espírita, vamos perceber que

Sendo a Terra um mundo inferior, isto é, pouco adiantado, resulta que a imensa maioria dos Espíritos que a povoam, tanto no estado errante, quanto encarnados, deve compor-se de Espíritos imperfeitos, que fazem mais mal que bem. Daí a predominância do mal na Terra. (1)

Mas é na constatação de nossas relações interexistenciais que está uma das grandes contribuições do Espiritismo em nossas vidas. Estamos mergulhados em diferentes níveis vibratórios e em constante interação com o mundo dos Espíritos do qual o corpo relativamente nos resguarda. Por nossas faculdades espirituais, como a da transmissão e captação do pensamento, somos protagonistas da realidade espiritual.

Possuímos companhias desencarnadas que são definidas pela sintonia que estabelecemos, radicada em nossa natureza moral. Aliás, esse consiste num oportuno saber lecionado pelos Guias da Humanidade a fim de que não nos façamos, por ignorância, marionetes de outras inteligências já domiciliadas no mundo dos Espíritos, capazes de influir negativamente sobre as nossas escolhas.

Dentre as companhias espirituais de um indivíduo estão os Espíritos Familiares, simpáticos cujos laços de afeto os interligam formando uma mesma família espiritual, os Espíritos afins aos propósitos e ocupações do encarnado (para sua felicidade ou não) e, por fim, o seu Espírito Protetor, o amorável Anjo da Guarda pertencente a uma ordem elevada (2) e responsável por tutelar o sujeito numa constante e crescente inserção no campo do bem, em prol de sua evolução consciente. Em alguns casos, o Anjo de Guarda além de acompanhar o seu tutelado na erraticidade pode guiá-lo em outras vidas.

Ninguém na Terra há que não possa contar desde o nascimento com a assistência de seu Benfeitor Espiritual cujo compromisso é a educação mesmo de seu protegido. Os Espíritos Luminares resumem a missão do Anjo de Guarda como sendo a de “um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida.” (3)

Contudo, não podemos desconsiderar que o Anjo da Guarda pode estender a sua ação fraterna sobre outras almas não se restringindo apenas a um único tutelado; como também, pela hierarquia espiritual em que se encontra, dedicar-se a variadas tarefas enobrecidas conforme suas características pessoais forjadas na historicidade de suas vivências.

Cônscios disso tudo, procuremos estabelecer pelas boas obras a sintonia com o nosso Amigo Espiritual, a fim de que, dignos de sua presença e receptivos aos seus nobres conselhos, sigamos felizes em nossos afazeres nesta vida.

Estudando Kardec:



“Aos que considerem impossível que Espíritos verdadeiramente elevados se consagrem a tarefa tão laboriosa e de todos os instantes, diremos que nós vos influenciamos as almas, estando embora muitos milhões de léguas distantes de vós. O espaço, para nós, nada é, e, não obstante viverem noutro mundo, os nossos Espíritos conservam suas ligações com os vossos. Gozamos de qualidades que não podeis compreender, mas ficai certos de que Deus não nos impôs tarefa superior às nossas forças e de que não vos deixou sós na Terra, sem amigos e sem amparo. Cada anjo de guarda tem o seu protegido, pelo qual vela, como o pai pelo filho. Alegra-se, quando o vê no bom caminho; sofre, quando ele lhe despreza os conselhos.” (4)

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(1) Revista Espírita, dezembro de 1862 - Estudos sobre os possessos de Morzine causas da obsessão e meios de combatê-la.


(2) O Livro dos Espíritos, questão 490.

(3) O Livro dos Espíritos, questão 491.

(4) O Livro dos Espíritos, questão, 495.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Regra Universal


Jesus, o Mestre de todos nós, esteve conosco há mais de dois mil anos apresentando uma doutrina radicalmente fundamentada no amor incondicional ao próximo. Em suas atitudes, tão eloqüentes quanto as suas palavras, o meigo Rabi elevou aos olhos daquela sociedade sectária a condição dos pobres, dos oprimidos, dos estigmatizados culturalmente, da mulher, do diferente, enfim.

Tanto que colocou como símbolo da máxima compaixão a figura do samaritano que, ao contrário dos sacerdotes do templo, conforme a parábola, ao invés de se omitir ante o sofrimento do viajante, deixou-se tocar pelo sofrimento alheio, sensibilizando-se e trabalhando por lhe restituir o equilíbrio, fazendo o seu melhor pelo próximo.

Pedagogo insuperável trazia em sua prática educativa junto ao povo simples estórias oriundas do cotidiano, comparações que encerravam ensinamentos profundos somente compreensíveis àquelas almas dispostas a aprender como uma criança curiosa e aberta à boa notícia de alegria.


Os que têm ouvidos de ouvir e olhos de ver, em todas as épocas da História da humanidade, seguem seus passos amando e servindo, trabalhando e crescendo no bem, inspirados em seus exemplos de sabedoria e caridade.

Cristo ampliou a compreensão da família. Quando buscado pelos seus – achavam que Ele estava fora do juízo –, afirmou serem de sua família aqueles que faziam a vontade do Pai, permitindo-nos inferir que Ele concebia todos os homens e as mulheres como seus irmãos e irmãs; pois nada e ninguém na Terra escapa ao influxo da Vontade Divina que se manifesta em tudo e todos mediante suas leis.

O Nazareno foi, em sua encarnação, a presença constante do amor na vida daqueles que com Ele conviveram, fizeram contato ou ouviram, tocando a todos nas fibras íntimas da alma por causa de sua amorosidade infinita.

Foi o Mestre que nos legou uma máxima que deveria ser reconsiderada e meditada por todo aquele que se identifica com o ideal de uma vida nobre e de um mundo melhor: fazer aos outros o que queremos que estes nos façam.

Essa máxima não é apenas um aforismo que pode nos emocionar, parece-me mesmo uma necessidade ética a sua observação, sobretudo se considerarmos os danos que estão sendo produzidos pelos seres humanos na vida uns dos outros e da Natureza em função da falta de contenção.

A ausência da prática da contenção tem demarcado a ocorrência de atitudes as mais violentas. E, por causa isso, estamos dando vazão excessiva à nossa sombra interior, ou seja, aos pensamentos e condicionamentos inferiores que nos vinculam à fera que fomos no passado distante.

A máxima lecionada por Jesus é o princípio supremo da ética cristã que, por sua vez, é igualmente apontada pela Doutrina Espírita como fundamental à felicidade da criatura, convocando todos que se acercam dos seus saberes à sua vivência cotidiana.

Pensar em fazer ao outro o que eu gostaria que o outro me fizesse consiste num exercício reflexivo que pode reorientar saudavelmente o meu agir perante o outro.

Ao me perguntar sobre isso, sou levado automaticamente a considerar a felicidade do outro como um projeto paralelo e tão válido como o meu projeto pessoal de felicidade.


Dessa forma, passo a ter por critério ético de minhas atitudes as conseqüências do meu agir na felicidade alheia. Esse critério conduz-me à necessidade da contenção, para não perturbar a vida do próximo, e à dúvida quanto a validade das minhas próprias intenções.

Tudo isso provoca o hábito da análise ética do meu modo de estar no mundo e que me revela algo muito simples: somente quando a minha motivação é o bem, meus atos poderão ser bons e as suas conseqüências também.

Aliás, parece que todo o indivíduo com perfeita saúde mental deseja o bem a si próprio, não acha? Então, ao reorientar meu jeito de agir pelo modo como desejaria que outrem agisse para comigo, naturalmente vou focar a minha atenção no bem o qual gostaria que fosse-me endereçado.

Ao concentrar a mente no bem estou cultivando virtude, materializando-a nas ações concretizadas ao longo do tempo e na felicidade que provoco na jornada existencial do outro.

Como somos o que pensamos, mergulhar a mente no bem, juntamente com atitudes concernentes, torna-nos, pouco a pouco, melhores, mais éticos e felizes.

Querer bem aos outros conecta-nos ao amor que transpira no universo, cria uma disposição interna que se manifesta em nossa psicosfera. Passamos a sintonizar com o bem e atraímos a presença dos que vibram nesse sentido.

Pensando no bem, fazemos escolhas eticamente mais corretas e construímos possibilidades cada vez maiores de felicidade e paz nas circunstâncias que se desdobram em nossa vida terrestre.

A observação da regra universal postulada por Jesus de Nazaré é o segredo da plenitude íntima, da felicidade nos inter-relacionamentos e provável fator desencadeador de acontecimentos enriquecedores para o Espírito imortal.


PARA PENSAR:

“A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontra o homem uma regra universal de conduta, mesmo para as suas menores ações.”.[2]

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[1] Pedagogo, colaborador da União Espírita Bageense. E-mail:vlousada@hotmail.com.

[2]O Livro dos Espíritos, introdução, item VI.

domingo, 21 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Campos de ação da mente alerta



“É a consciência de si mesmo que constitui o principal atributo do Espírito.” (1)


O monge zen-budista e pacifista Thich Nhat Hanh(2) recorda, num de seus livros, um diálogo de Buda com um interlocutor que lhe indagou sobre o que ele e seus discípulos faziam, talvez esperando saber se realizavam algo fora do normal.

Buda teria respondido o seguinte: “Nós nos sentamos, nós andamos, nós comemos.” Ao que o inquiridor redargüiu em seguida, um tanto desapontado: “Mas senhor, qualquer um senta, anda e come.”

E o ex-príncipe Sidartta fecha o diálogo com um ensinamento: “Quando sentamos, sabemos que estamos sentados. Quando andamos, sabemos que estamos andando. Quando comemos, sabemos que estamos comendo.”

Essa passagem demonstra o significado da mente alerta, ou seja, trata-se de um estado de espírito em que temos consciência plena do que estamos fazendo no momento atual.

Em função das correrias da vida moderna, muitas das nossas atividades rotineiras são realizadas por automatismos, estamos tão ocupados em ganhar dinheiro que é de se perguntar se estamos realmente vivendo.

Acordamos pela manhã, fazemos a higiene, vestimo-nos, alimentamo-nos e saímos. Muitas vezes sequer sentimos o prazer de despreguiçar, a água do banho correr por nosso corpo, o cheirinho da roupa limpa que vestimos ou o sabor do que comemos no café da manhã. Daí muita gente nem lembrar do que comeu ou vestiu ontem. Agimos como autômatos.

E nas relações pessoais? Não raramente falamos alguns monossílabos, estamos sempre com pressa, mas não sentimos a presença do outro ao nosso lado. Desatentos, ouvimos sua fala sem absorver o significado, sentimentos expressos, o estado de espírito de quem nos dirige a palavra.

Nos percursos de automóvel, ou a pé mesmo, tememos assaltos, atrasos ou imprevistos e, por isso, poucas vezes, observamos os painéis humanos e naturais à nossa volta. O vento a acariciar nosso cabelo, o calor vivificante ou o friozinho que nos pede certa quietude.

Produzimos, geramos bens, recursos e consumimos sem “saborearmos” a vida e as suas bênçãos. Vemo-nos como uma peça desplugada do universo, da Natureza e das pessoas. Esquecemos de viver e compartilhar a vida com os que nos cercam através de diálogos e vivências criativas e enriquecedoras.

Praticar a mente alerta consiste numa atitude de acordar a alma para o aqui e o agora tendo sempre em pauta o momento atual como o mais maravilhoso e a presença do outro como uma jóia divina. É viver sabendo que se está vivo.

Focada num objeto de análise - sem julgamento, culpa ou discriminação - a mente alerta permite ao indivíduo perceber atentamente o estado geral da sua mente e do seu coração, ou seja, que formações mentais habitam seus pensamentos, quais sentimentos vêm sendo nutridos diariamente ou emoções às quais está habituando.

Da mesma forma, a prática da mente alerta dá ensejo à identificação dos conteúdos que formam a natureza moral do sujeito, muitas vezes materializados em atitudes, além de escutar os fenômenos que o corpo experimenta neste exato instante.

Ao observar a natureza das idéias que fazem a sua cabeça, aquele que pratica a mente alerta é capaz de discernir a respeito de quais vale a pena cultivar, tendo em vista a sua essência espiritual e o seu propósito, afastando do “jardim” da mente o que for de conteúdo negativo.

Quando são rastreados sentimentos venenosos como a raiva, o ciúme, a inveja ou apego, o Espírito deve reconhecê-los, não se dando ao luxo de enganar-se, procurando estabelecer caminhos possíveis de sua superação para, através dos recursos ao seu alcance, vivenciar sentimentos saudáveis curando-se aos poucos das imperfeições.

Olhando vigilante as emoções que se manifestam n'alma, o ser é capaz de gerenciá-las sem se deixar dominar por emoções destrutivas, procurando orientar as energias para a criação de um estado mental de serenidade e contentamento.

Na hora em que a mente alerta cuida do corpo, a racionalidade escapa à oposição mente-corpo para entender essa relação de maneira complementar, não dicotômica. A saúde do corpo depende da saúde do Espírito e as agressões ao corpo marcam, variando ao infinito, a mente em sua complexidade.

O corpo é um templo sagrado portador de elementos cuja identidade se mistura com a do cosmos. Emprestado pelo Grande Arquiteto do Universo, merece nosso cuidado e preservação equilibrada. A mente alerta não quer descaso nem culto ao corpo, somente pede cuidado com ele como com a alma.

O cultivo da mente alerta leva ao despertar da consciência do Espírito que passa a reconhecer o estágio impermanente das coisas e a sua própria transcendência em relação ao ciclo nascimento-morte.

Plenamente atento ao que se passa no planeta interno, o Espírito pode fazer escolhas mais acertadas, condizentes com o desejo de fazer o bem a todos os seres.

A mente atenta o conduz à reverência à vida em todas as suas formas de manifestação, afastando o sujeito do ímpeto de destruição que tem demarcado a conduta de uma coletividade regida pelo utilitarismo, o qual vê o ambiente natural como uma arca de tesouros infindáveis consumindo-a irresponsavelmente.

Ao conscientizá-lo das dores do mundo, causadas pela violência, o estado de mente alerta convida o indivíduo à promoção da paz interior como forma possível de engajamento num movimento em prol da paz no Planeta.

Diante da presença do outro, aquele que se esforça em alertar a sua mente, abre-se ao diálogo que lhe ensina uma escuta compassiva e profunda que deverá ser sempre seguida de uma fala verdadeiramente amorosa.

Da manifestação do amor, que a mente alerta suscita, nasce a responsabilidade afetiva que não usa o outro ao seu bel prazer, mas zela pela sua felicidade.

Esse amor se desdobra no amor a si, aos demais seres da vida, à Terra-mãe e leva o Espírito, hospedado temporariamente nessas paragens, a consumir com discernimento e a viver com simplicidade, libertando-o das ilusões do consumismo que inventa necessidades artificiais.

Viver com a mente alerta consiste, enfim, no exercício de estar consciente em cada momento. Atento ao estado geral da mente e do coração como sujeito das circunstâncias e emoções, jamais como mero objeto.

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[1] O Livro dos Espíritos, questão 600
 
[2]NHAT HANH, Thich. Meditação andando: guia para a paz interior. Vozes: Petrópolis, RJ, 2005, p. 10..

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

Pluralismo religioso - Vinícius Lousada


Vivemos um momento singular na história de nossa civilização porque, do ponto de vista sociológico, nunca se afirmou e celebrou tanto a diversidade social como em nossos dias.

Apesar da teimosa existência, no Ocidente e no Oriente, de algumas religiões fundamentalistas com adeptos cooptados por uma fé cega, fechados em suas doutrinas e intolerantes com outras práticas espirituais, cresce o contingente de indivíduos que não admitem a sua verdade particular como expressão única e absoluta de uma verdade maior, que reverenciam o livre pensamento.

Graças às contribuições mais recentes de alguns estudiosos no campo da sociologia e da educação, como Stwart Hall, Alberto Melucci e Carlos Brandão, para citar apenas alguns, apreende-se os sujeitos como atores sociais que possuem uma identidade multifacetada não homogênea que, por sua vez, revela um eu “múltiplo”, não-encarcerado numa única agência de pertencimento.

Na atualidade, o religioso busca estudos científicos, o cientista empreende uma aventura rumo à transcendência. Somos cidadãos planetários, ativistas de variadas causas. Noutra hora somos “simples” pais e mães, filhos, executivos ou desportistas, artistas, profissionais, etc.

A identidade do indivíduo é uma celebração móvel, configurada através das ações e relações nos múltiplos grupos de pertencimento nos quais está inserido e que dão significados sociais variados à sua existência.

Surge, então, uma categoria sociológica que ressalta um elemento há muito apreendido com o Espiritismo: a sociodiversidade. Ela denota a diversidade social como um mosaico que se apresenta numa rede de interexistência de indivíduos portadores de uma gama, variada ao infinito, de aprendizados no campo do sentimento e do intelecto, tendo por causa a diversidade de experiências que a roda das reencarnações sucessivas vem lhes ensejando.

Desse modo, perde qualquer sentido a negação da pluralidade religiosa. Mais do que nunca fica evidente o fato de que necessitamos de variados caminhos espirituais para a vivência da transcendência, tendo em vista a conquista pessoal da iluminação interior.

Nesse contexto, parece-me que o papel primordial das religiões deva ser o de conduzir o ser humano a um encontro com a espiritualidade, com a prática diária dos valores éticos fundamentais e libertadores do sofrimento.

Toda prática religiosa ou espiritual deveria ser um empenho consciente em prol da nossa cura em relação à enfermidade conhecida por egoísmo. Aliás, a religião cumpre a sua verdadeira função quando o sujeito aproveita os preceitos que professa para a aquisição de sua própria saúde moral.

Considerando-se que o fundamento básico de toda a religião é o amor, lembremo-nos de que o amor ao próximo preconiza o respeito profundo ao seu estilo de vida e, por conseguinte, à sua orientação no campo do espiritual.

No momento em que admitimos ser cada religião a melhor para cada um de seus adeptos, segundo suas escolhas, não devemos aceitar a intolerância nesse tema porque ser intolerante com as crenças alheias “é faltar com a caridade e atentar contra a liberdade de pensamento.”[1]

Aliás, o uso de uma racionalidade sadiamente compreensiva em relação à complexidade social leva-nos a reconhecer que, num planeta como o nosso em que somos uma infinidade de Espíritos reencarnados, portadores de diversas trajetórias evolutivas e inseridos nas mais diferentes culturas, a visão reducionista de que apenas uma religião satisfaça a todos é, no mínimo, uma ilusão em torno da relação histórica do ser humano com o sagrado.

O Espiritismo não defende nenhum projeto de caminho único para “salvação” e nem deseja que alguém abandone a sua crença para segui-lo, muito pelo contrário, deixa a cada um o direito de crer como bem entenda, até porque a Doutrina Espírita não é uma questão de adesão, mas de convicção pessoal.

Além do mais, o estudo de sua filosofia permite compreender que a raiz da pluralidade religiosa está na pluralidade de vivências e opções que coube ao Espírito imortal fazer em prol de sua própria felicidade, sendo simples ao espiritista valorizar todas as religiões que proponham o bem como o alvo da experiência espiritual.

Não sonhamos com um mundo onde todas as pessoas sejam espíritas, mas projetamos, pela busca da conduta ética positiva, a realização da utopia de uma sociedade planetária cada vez mais espiritualizada, cuja relação dialógica entre as diferentes alternativas lúcidas de fé colabore com a efetivação da paz entre as criaturas.



ESTUDANDO KARDEC:



“Considerando-se que todas as doutrinas têm a pretensão de ser a única expressão da verdade, por que sinais podemos reconhecer a que tem o direito de se apresentar como tal?



“Será aquela que fizer mais homens de bem e menos hipócritas, isto é, homens que pratiquem a lei de amor e de caridade na sua maior pureza e na sua mais ampla aplicação. Por esse sinal reconhecereis que uma doutrina é boa, visto que toda doutrina que tiver por efeito semear a desunião e estabelecer linha de separação entre os filhos de Deus só pode ser falsa e perniciosa.”[2]

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[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004, p. 472.

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004, p. 473.
 
Artigo publicado no Folha do Sul de 12/10/2010.

domingo, 10 de outubro de 2010

Resquícios da Idade Média - AUTO-DE-FÉ DAS OBRAS ESPÍRITAS EM BARCELONA

"Nada informamos aos leitores sobre esse fato, que já não o saibam através da imprensa. O que é de admirar é que certos jornais, que geralmente passam por bem informados, o tenham posto em dúvida. A dúvida não nos surpreende, mas o fato em si mesmo parece tão estranho ao tempo em que vivemos, está de tal modo longe de nossos costumes que, por maior cegueira reconheçamos no fanatismo, pensamos sonhar ao ouvir dizer que as fogueiras da Inquisição ainda se acendem em 1861, às portas da França. Nestas circunstâncias a dúvida é uma homenagem prestada à civilização européia e ao próprio clero católico. Hoje, em presença de uma realidade incontestável, o que mais deve surpreender é que um jornal sério, que diariamente cai sem dó nem piedade sobre os abusos e usurpações do poder sacerdotal, não tenha encontrado, para registrar esse fato, senão algumas palavras zombeteiras, acrescentando: “Em todo o caso, não seríamos nós que nos divertiríamos neste momento em fazer girar as mesas na Espanha.” (Siècle de 14 de outubro de 1861). Então o Siècle ainda vê o Espiritismo nas mesas girantes? Estará tão enceguecido pelo cepticismo para ignorar que toda uma doutrina filosófica, eminentemente progressiva, saiu dessas mesas, das quais tanto zombaram? Não sabe que esta idéia fermenta em toda parte? Que nas grandes cidades, como nas pequenas localidades, de alto a baixo da escala social, tanto na França quanto no estrangeiro, esta idéia se espalha com inaudita rapidez? Que por toda parte agita as massas, que nela saúdam a aurora de uma renovação social? O golpe com que imaginaram feri-lo não é um indício de sua importância?

Porque ninguém se atira assim contra uma infantilidade sem conseqüência, e Dom Quixote não voltou à Espanha para se debater contra moinhos de vento.

O que não é menos exorbitante, o que causa admiração por não se ver nenhum protesto enérgico, é a estranha pretensão que se arroga o bispo de Barcelona, de policiar a França. Ao se pedir a reexportação das obras, ele respondeu com uma recusa assim justificada: A Igreja católica é universal; e sendo estes livros contrários à fé católica, o governo não pode consentir que venham perverter a moral e a religião de outros países. Eis, assim, um bispo estrangeiro que se institui juiz do que convém ou não convém à França! Então a sentença foi mantida e executada, sem mesmo isentar o destinatário das taxas alfandegárias, cujo pagamento lhe foi exigido.

Eis o relato que nos foi dirigido pessoalmente:

“Hoje, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:
“A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;

“A Revista Espiritualista, diretor Piérard;

“O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;

“O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;

“O que é o Espiritismo, pelo mesmo;

“Fragmentos de sonata ditada pelo Espírito Mozart;

“Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo Dr. Grand;

“A História de Joana d’Arc, ditada por ela mesma à Srta. Ermance Dufau51;

“A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo Barão de Guldenstubbé.

“Assistiram ao auto-de-fé: “Um sacerdote com os hábitos sacerdotais, empunhando a cruz numa mão e uma tocha na outra;

“Um escrivão encarregado de redigir a ata do auto-de-fé;

“Um ajudante do escrivão;

“Um empregado superior da administração das alfândegas;

“Três serventes da alfândega, encarregados de alimentar o fogo;

“Um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo.

“Uma multidão incalculável enchia as calçadas e cobria a imensa esplanada onde se erguia a fogueira.

“Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras espíritas, o sacerdote e seus ajudantes se retiraram,  cobertos pelas vaias e maldições de numerosos assistentes, que gritavam: Abaixo a Inquisição!

“Em seguida, várias pessoas se aproximaram da fogueira e recolheram as suas cinzas.”

Uma parte das cinzas nos foi enviada. Ali se encontra um fragmento de O Livro dos Espíritos, consumido pela metade. Nós os conservamos preciosamente, como autêntico testemunho desse ato de insensatez.

À parte qualquer opinião, este caso levanta grave questão de direito internacional. Reconhecemos ao governo espanhol o direito de interditar, em seu território, a entrada de obras que não lhe convenham, como a de todas as mercadorias proibidas. Se as obras tivessem sido introduzidas clandestina e fraudulentamente, nada haveria a objetar; mas foram expedidas ostensivamente e apresentadas à alfândega; havia, pois, uma permissão legalmente solicitada. A alfândega julga dever reportar-se à autoridade episcopal que, sem qualquer formalidade processual, condena as obras a serem queimadas pelas mãos do carrasco. Então o destinatário pede que sejam reexportadas para o lugar de sua procedência e, por fim, lhe é respondido que não as receberá, conforme relatado acima.

Perguntamos se em tais circunstâncias a destruição dessa propriedade não é um ato arbitrário e contra o direito comum.

Examinando o caso do ponto de vista de suas conseqüências, diremos, inicialmente, não haver dúvida de que nada poderia ter sido mais benéfico ao Espiritismo. A perseguição sempre foi proveitosa à idéia que quiseram proscrever: exalta a sua importância, chama a sua atenção e a torna conhecida por quantos
a ignoravam. Graças a esse zelo imprudente, todo o mundo na Espanha vai ouvir falar do Espiritismo e quererá saber o que é ele; é tudo quanto desejamos. Podem queimar-se livros, mas não se queimam idéias; as chamas das fogueiras as superexicitam, em vez de abafar. Aliás, as idéias estão no ar, e não há Pireneus bastante altos para as deter. Quando uma idéia é grande e generosa encontra milhares de pulmões prestes a aspirá-la. Façam o que quiserem, o Espiritismo já tem numerosas e profundas raízes na Espanha; as cinzas da fogueira vão fazê-la frutificar. Mas não é somente na Espanha que se produzirá tal resultado: o mundo inteiro sentirá o contragolpe. Vários jornais da Espanha estigmatizaram esse ato retrógrado, como bem o merece. Entre outros, Las Novedades de Madrid, de 19 de outubro, contém notável artigo a respeito. Será reproduzido em nosso próximo número.

Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!

Entre as numerosas comunicações que os Espíritos ditaram a respeito, citaremos apenas as duas seguintes, dadas espontaneamente na Sociedade de Paris. Elas resumem as causas e todas as suas conseqüências.

SOBRE O AUTO-DE-FÉ DE BARCELONA

“O amor da verdade deve sempre fazer-se ouvir: ela rompe o véu e brilha ao mesmo tempo por toda parte. O Espiritismo tornou-se conhecido de todos; logo será julgado e posto em prática. Quanto mais perseguições houver, tanto mais depressa esta sublime doutrina alcançará o apogeu. Seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, atuam de maneira que ninguém possa ignorar a permissão de Deus, dada àqueles que deixaram esta Terra de exílio, de voltarem aos que amaram.

“Ficai certos: as fogueiras apagar-se-ão por si mesmas; e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive.”

Dollet

Nota – Este Espírito, tendo se manifestado espontaneamente, disse ser o de um antigo livreiro do século

dezesseis.


OUTRA

“Era necessário que algo ferisse violentamente certos Espíritos encarnados, a fim de que se decidissem a ocupar-se desta grande doutrina que vai regenerar o mundo. Nada é feito inutilmente em vossa Terra. Nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos perfeitamente que assim agindo daríamos um grande passo à frente. Esse fato brutal, inacreditável nos tempos atuais, foi consumado com vistas a chamar a atenção dos jornalistas que se mantinham indiferentes diante da profunda agitação que tomava conta das cidades e dos centros espíritas. Eles deixavam dizer e fazer, mas, obstinados, faziam ouvidos de mercador, respondendo pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Queiram ou não, é preciso que hoje falem; uns, constatando o histórico do caso de Barcelona, outros o desmentindo, ensejaram uma polêmica que fará a volta ao mundo e da qual só o Espiritismo aproveitará. Eis por que hoje a retaguarda da Inquisição praticou o seu último auto-de-fé, porque assim o quisemos.”

São Domingos

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Em torno de Obras Póstumas - Vinícius Lousada

A princípio


Em 1869 desencarna Allan Kardec, o insigne Codificador do Espiritismo, deixando-nos como legado as obras fundamentais do Espiritismo e seu exemplo de pesquisador notável, verdadeiro espírita e, por conseqüência, homem de bem, como preconizam as excelentes páginas de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Dentre os seus discípulos mais fiéis (1) estava um homem de nome Pierre-Gaëtan Leymarie, idealista republicano e espírita convicto, fora membro de uma sociedade anônima planejada por Kardec, antes de desencarnar, em prol da difusão das obras espíritas, tornando-se, igualmente, diretor da Revista Espírita de 1870 a 1901, e administrador da Livraria Espírita, de 1870 a 1897(2).

Em 1890, Leymarie vai fazer a publicação de Oeuvres Posthumes d'Allan Kardec em Paris, através da Livraria Espírita. Essa obra trata-se de uma compilação elaborada pelo mesmo contemplando um conjunto de textos inéditos deixados por Allan Kardec.

Vale, porém, lembrar que boa parte destes textos, senão todos, antes de enfeixarem um livro, passaram a ser publicados na Revista Espírita, a partir do número de junho de 1869, como podemos observar na matéria intitulada Aos assinantes da Revista Espírita(3) quando, então, há referência à desencarnação de Allan Kardec e ao compromisso de seus colaboradores de procurarem prosseguir na via descrita pelo mestre lionês, considerando a nova fase que o Espiritismo já adentrava e a preocupação do Codificador de acercar-se de indivíduos com os quais pudesse partilhar parte de seus trabalhos, pelo bem da Causa Espírita.

Procurando cumprir o dever acima assinalado os confrades franceses começaram a publicar mensalmente os documentos encontrados no gabinete de Kardec e, tanto quanto possível, instruções do missionário da Era Nova ditadas do além, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. E, assim, brindaram o movimento espírita, daquela época, como o nosso e dos dias vindouros, com reflexões kardequianas e aspectos históricos do Espiritismo sempre oportunos a todos nós.



Seu conteúdo: um convite à leitura

Obras Póstumas é divida em duas partes. Na primeira delas temos textos de caráter doutrinário de Allan Kardec e, na segunda parte, um conjunto de anotações referentes a fatos e previsões concernentes ao Espiritismo.

Desse modo, na parte primeira encontramos um texto biográfico sobre a trajetória do Codificador, provavelmente escrito por Leymarie (também presente na Revista Espírita de maio de 1869), o discurso de Flammarion sobre o túmulo de Kardec, a profissão de fé espírita raciocinada, estudos sobre as manifestações dos Espíritos, dos potenciais mediúnicos e a questão da obsessão.

Discussões sobre problemas teológicos como a natureza do Cristo são alvo da análise acurada do mestre, tanto quanto, a fotografia e a telegrafia do pensamento, onde desenvolvidas meditações sobre, respectivamente, a ideoplastia – mais tarde estudada pelo eminente cientista Ernesto Bozzano – e a telepatia espiritual – um dos objetos de pesquisa da Metapsíquica de Richet.

Não podemos ignorar que, ainda, nesse primeiro conjunto de textos de Obras Póstumas, recolhemos excelentes reflexões filosóficas de Kardec como as intituladas como O Caminho da Vida, As Cinco Alternativas da Humanidade ou As Aristocracias.

A segunda parte da obra registra a história do Espiritismo numa perspectiva interexistencial, onde deparamo-nos com previsões dos Espíritos sobre a missão de Allan Kardec, a produção de suas obras e repercussão no pensamento da coletividade, o período de luta e a contribuição do Espiritismo para regeneração da humanidade vivente no orbe terreno.

Vemos, adiante, o Projeto – 1868 onde encontramos as bases metodológicas do processo de unificação do movimento espírita, no olhar kardequiano, para a expansão do Espiritismo de forma segura e calcada nos pilares da união dos espíritas, do ensino da Doutrina Espírita, da sua difusão pelos impressos e em viagens de propaganda doutrinária. Aliás, leitura imperdível às lideranças espíritas.

Ao final do livro está o texto Credo Espírita, seguido de Os princípios fundamentais da Doutrina Espírita reconhecidos como verdades adquiridas, sendo esse último assinado por Leymarie.

Essa brevíssima resenha tem por objetivo convidar à leitura e ao estudo do livro em pauta para que, conhecendo Kardec, através de seus textos em nosso cotidiano, possamos vivê-lo com inteligibilidade que a fé raciocinada preconizada pelo Espiritismo nos pede.



Estudando Kardec

“ Tirando-me da obscuridade, o Espiritismo me lançou num novo rumo; em pouco tempo, vi-me arrastado por um movimento que me achava longe de prever. Quando concebi a idéia de O Livro dos Espíritos, era minha intenção não me pôr de modo algum em evidência e permanecer desconhecido;mas, para logo ultrapassados os limites que eu imaginara, isso não me foi possível; tive de renunciar ao meu gosto pelo insulamento, sob pena de abdicar da obra empreendida e que crescia de dia para dia; foi-me preciso ceder à impulsão e tomar-lhe as rédeas. À proporção que ela se desenvolvia, mais vasto horizonte se desdobrava diante de mim e lhe distanciava os lindes. Compreendi então a imensidade da minha tarefa e a importância do trabalho que me restava fazer para completá-la. As dificuldades e os obstáculos, longe de me atemorizarem, redobraram as minhas energias. Divisei o fim objetivado e resolvi atingi-lo, com a assistência dos bons Espíritos. Sentia que não tinha tempo a perder e não perdi, nem em visitas inúteis, nem em cerimônias estéreis. Foi a obra de minha vida. Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe o meu repouso, a minha saúde, porque diante de mim o futuro estava escrito em letras irrecusáveis. (4)

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(1) AUBRÉE, Marion & LAPLANTINE, François. A mesa, o livro e os espíritos: gênese, evolução e atualidade do movimento social espírita entre França e Brasil. Maceió-AL: Ufal, 2009, 118.

(2) http://www.feparana.com.br/biografia.php?cod_biog=190, acessado em 08/08/2010.
(3) KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano décimo – 1869. 2. e.d. Federação Espírita Brasileira, 2005, p. 227-228.
(4) KARDEC, Allan . Obras Póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, p. 453.

Publicado em Diálogo Espírita n. 86.