sexta-feira, 4 de junho de 2010

A paz na morte


Mesmo quando o nosso dever moral seja o de pelejar para alijar as práticas violentas da vida da coletividade social, cabe-nos entender que em tudo o que se vive hoje em dia, no seio das sociedades mais diferenciadas, há um sentido educativo e impulsionador do progresso de que necessitamos.

Ainda quando nos caiba laborar vivamente pela paz, promovendo-a desde os nossos mais simples gestos, precisaremos entender o porquê de nos acharmos atados às vivências ásperas, complexas e violentas de um mundo expiatório como a Terra, dado o nosso estado empobrecido de evolução.

No planeta em que renascemos para a aquisição da escolaridade ampla, capaz de nos iluminar os conhecimentos do intelecto e do sentimento, enfermidades, frustrações, deficiências e morte são as peças que compõem o estranho mosaico da nossa experiência de redenção enquanto efetuamos o caminho da auto-iluminação.

Vale a pena, então, fazer esforços para desenvolver estilos de vida que nos credenciem a fazer sintonia com as bênçãos da saúde e não com as faixas da doença; a desenvolver raciocínios lúcidos aprumados ao bom senso, para que não fiquemos atados aos processos de frustrações.

Urge consigamos valorizar a honra do corpo físico, respeitando-o de todos os modos, fugindo aos excessos como quer que se expressem, a fim de não conectarmos com dispensáveis deficiências que costumam impor graves sofrimentos. Torna-se indispensável que movimentemos nossa jornada terrena de tal forma nobre, luminosa e digna que não nos prendamos ao temor da morte corporal, mas, sim, evitemos as ocorrências da morte moral, motivada pelos vícios de todos os tipos, que aprisionam a pessoa aos pelourinhos das torturantes dependências.

Para viver em regime de paz é imprescindível não sintonizar com as inspirações da violência nem com as façanhas dos violentos. Assim, a morte nos alcançará sem qualquer travo de culpa na consciência.

Para disseminar as propostas da paz é fundamental não alimentar as impressões do medo nem comungar com os medrosos. Assim a morte nos achará confiantes na vibração da perene vida.

Para se ter paz na morte, que inicia seu processo desgastador desde o primeiro hausto da criatura quando nasce, é necessário ao indivíduo manter-se em caminho de moderação em tudo o que diga e em busca de harmonia em tudo o quanto faça, exercitando-se em viver equilibradamente.

A desencarnação não pesará sobre quem soube amar a Deus e respeitar o próximo como não aprisionará em celas de amargura e remorsos quem soube ser livre e, ao mesmo tempo, respeitar a liberdade alheia.

Apesar do sofrimento moral que o passamento de um ser querido nos impõe, a morte física significa, em tese, a ansiada alforria após uma existência de lutas, de produtividade e de amor na busca da auto-renovação, do progresso e da paz.

Ivan de Albuquerque

Mensagem psicografada por Raul Teixeira, em 14.05.07, na Sociedade Espírita Fraternidade, em Niterói-RJ.

(http://www.raulteixeira.com/mensagens.php?not=113)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Dez exercícios de paz no lar

foto VLL


Vinícius Lousada - vlousada@hotmail.com

1. Evite o despotismo;


2. Fale com amor;

3. Seja Humilde;

4. Cultive a disciplina;

5. Dialogue com equilíbrio;

6. Simplesmente ame;

7. Agradeça sempre;

8. Utilize-se da gentileza;

9. Transmita a sua alegria natural;

10. Esteja atento aos exercícios acima.



(Inspirado em “Vereda Familiar” de Thereza de Brito, psicografado por Raul Teixeira)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O LAR DE UMA FAMÍLIA ESPÍRITA - Allan Kardec


Há três anos a Sra. G... ficou viúva, com quatro crianças. O filho mais velho é um rapaz amável, de dezessete anos, e a filha mais moça uma encantadora menina de seis. Desde muito tempo essa família se dedica ao Espiritismo, e antes mesmo que esta crença se tivesse tornado tão popular como hoje, marido e mulher tinham uma espécie de intuição que diversas circunstâncias haviam desenvolvido. O pai do Sr. G... havia aparecido para ele várias vezes, na mocidade, sempre para preveni-lo de coisas importantes ou para lhe dar conselhos úteis. Fatos semelhantes também se haviam passado entre os seus amigos, de sorte que para eles a existência de além-túmulo não era objeto da menor dúvida, assim como não o era a possibilidade de nos comunicarmos com nossos entes queridos.

Quando o Espiritismo surgiu, foi apenas a confirmação de uma ideia bem assentada e santificada pelo sentimento de uma religião esclarecida, pois aquela família é um modelo de piedade e de caridade evangélica. Na nova ciência aprenderam os meios mais diretos de comunicação. A mãe e um dos filhos tornaram-se excelentes médiuns. Mas, longe de empregar essa faculdade em questões fúteis, todos consideravam-na precioso dom da Providência, do qual não era permitido servir-se senão para coisas sérias. Assim, jamais a praticavam sem recolhimento e respeito, e longe das vistas dos importunos e curiosos.

Nesse meio tempo o pai adoeceu. Pressentindo seu fim próximo, reuniu os filhos e lhes disse: “Meus caros filhos e minha amada mulher. Deus me chama para Ele. Sinto que vou deixar-vos daqui a pouco, mas também sinto que por vossa fé na imortalidade encontrareis força para suportar esta separação com coragem, assim como eu levo o consolo de que poderei sempre estar entre vós e vos ajudar com os meus conselhos. Assim, chamai-me quando eu não estiver mais na Terra. Virei sentar-me ao vosso lado e conversar convosco, como o fazem os nossos antepassados. Na verdade, estaremos menos separados do que se eu partisse para uma terra distante.

Minha cara esposa, deixo-te uma grande tarefa, mas quanto mais pesada for, mais gloriosa será. Tenho certeza de que os nossos filhos te ajudarão a suportá-la. Não é, meus filhos? Auxiliareis a vossa mãe; evitareis tudo quanto possa fazê-la sofrer; sereis sempre bons e benevolentes para com todos; estendereis a mão aos vossos irmãos infelizes, porque não haveis de querer estendê-la um dia pedindo em vão para vós. Que a paz, a concórdia e a união reinem entre vós. Que jamais o interesse vos separe, porque o interesse material é a maior barreira entre a Terra e o Céu. Pensai que estarei sempre junto a vós; que vos verei como vos vejo neste momento, e ainda melhor, pois verei o vosso pensamento. Não queirais, assim, entristecer-me depois da morte, do mesmo modo que não o fizestes durante a minha vida”.

É um espetáculo realmente edificante a vida dessa piedosa família. Alimentadas nas ideias espíritas, essas crianças não se consideram separadas do pai. Para elas, ele está presente. Temem praticar a menor ação que possa desagradá-lo. Uma noite por semana, e às vezes mais, é consagrada a conversar com ele. Existem, porém, as necessidades da vida, que devem ser providas, pois a família não é rica. É por isso que um dia certo é marcado para essas conversas piedosas e sempre esperadas com impaciência. Muitas vezes pergunta a pequenina: “É hoje que papai vem?” Esse dia transcorre entre conversas familiares e instruções proporcionadas à inteligência, algumas vezes infantis, outras vezes graves e sublimes. São conselhos dados a propósito de pequenas travessuras que ele assinala. Se faz elogios, também não poupa críticas, e o culpado baixa os olhos, como se o pai estivesse diante dele; pede-lhe perdão, que por vezes só é concedido depois de algumas semanas de prova. Sua sentença é esperada com febril ansiedade. Então, que alegria, quando o pai diz: “Estou contente contigo!” Entretanto, a mais terrível sentença é: “Não virei na próxima semana.”

A festa anual não é esquecida. É sempre um dia solene, para o qual convidam os avós e demais mortos da família, sem esquecer um irmãozinho, falecido há alguns anos. Os retratos são enfeitados de flores e cada criança prepara um pequeno trabalho, por vezes apenas uma saudação tradicional. O mais velho faz uma dissertação sobre assunto grave; uma das meninas toca um trecho de música; a menor conta uma fábula. É o dia das grandes comunicações, e cada convidado recebe uma lembrança dos amigos que deixou na Terra.

Como são belas essas reuniões, na sua tocante simplicidade! Como tudo, ali, fala ao coração! Como é possível sair delas sem estar impregnado do amor ao bem? Nenhum olhar de mofa, nenhum sorriso cético vem perturbar o piedoso recolhimento. Alguns amigos que partilham das mesmas convicções e que são devotos da religião da família, são os únicos admitidos a participar desse banquete do sentimento.

Ride quanto quiserdes, vós que zombais das coisas mais santas. Por mais soberbos e endurecidos que sejais, não vos faço a injúria de acreditar que o vosso orgulho possa ficar impassível e frio ante tal espetáculo.

Um dia, entretanto, foi de luto para a família, dia de verdadeiro pesar: o pai havia anunciado que durante algum tempo, longo tempo mesmo, não poderia vir. Ele havia sido chamado para uma importante missão longe da Terra. A festa anual não deixou de ser celebrada, mas foi triste, pois o pai lá não estava. Ao partir, ele havia dito: “Meus filhos, que ao meu retorno eu vos encontre todos dignos de mim”, e cada um se esforça por tornar-se digno dele. Eles ainda estão esperando[1].



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[1] A festa anual mencionada é a do Dia de Finados, que era celebrada pelos Druidas e foi adotada na França pelo Abade de Cluny, Santo Odilon, em 998, mais tarde oficializada pela Igreja Católica. Para essa família era o Dia dos Espíritos. (N. do Rev.).



Revista Espírita, setembro de 1859

quarta-feira, 12 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

PRIMEIRAS LIÇÕES DE MORAL DA INFÂNCIA.

Foto "Um guri" por VL


De todas as pragas morais da sociedade, o egoísmo parece a mais difícil de desenraizar; ela é tanto mais, com efeito, quanto é entretida pelos próprios hábitos da educação. Parece que se toma, desde o berço, a tarefa de excitar certas paixões que se tornam mais tarde uma segunda natureza, e se espanta dos vícios da sociedade, então que as crianças os sugam com o leite. Eis disso um exemplo que, como cada um pode julgá-lo, pertence mais à regra do que à exceção.

Numa família de nosso conhecimento há uma pequena filha de quatro a cinco anos, de uma inteligência rara, mas que tem os pequenos defeitos das crianças mimadas, quer dizer, que ela é um pouco caprichosa, chorosa, teimosa, e não diz sempre obrigado quando se lhe dá alguma coisa, essa cujos pais têm grandemente interesse em corrigi-la, porque, à parte esses defeitos, ela tem um coração de ouro, expressão consagrada. Vejamos como se empenham para tirar essas pequenas nódoas e conservar ao ouro a sua pureza.

Um dia, havia sido trazido um bolo à criança, e, como é geralmente o hábito, se lhe disse: "Tu o comerás se fores obediente;" primeira lição de guloseima. Quantas vezes não chega a dizer, à mesa, a uma criança, que não comerá de tal gulodice se chorar. "Faze isto, faze aquilo, se lhe diz, e tu terás do creme" ou alguma outra coisa que possa lhe fazer inveja; e a criança se constrange, não por razão, mas tendo em vista satisfazer um desejo sensual que a aguilhoa. É bem pior ainda quando se lhe diz, o que não é menos freqüente, que se dará sua porção a um outro; aqui não é mais a gulodice só que está em jogo, é a inveja; a criança fará isso que se lhe manda, não só para ter, mas que um outro não tenha. Quer se lhe dar uma lição de generosidade? diga-se-lhe: "dá esse fruto ou esse ou esse brinquedo a um tal." Se ela recusa, não se deixe de acrescentar, para simular nela um bom sentimento: "Eu te darei um outro dele;" de maneira que a criança não se decida a ser generosa senão quando está certa de nada perder.

Fomos um dia testemunha de um fato muito característico nesse gênero. Era uma criança de dois anos e meio mais ou menos, a quem se havia feito semelhante ameaça, acrescentando-lhe: "Nós o daremos ao irmãozinho, e tu não o terás;" e, para tornar a lição mais sensível, coloca-se a porção sobre o prato deste; mas o irmãozinho, tomando a coi-sa a sério, come a porção. Em vista disso, a outra se torna vermelha e seria preciso não ser nem o pai nem a mãe para não ver o estrondo de cólera e de ódio que jorra de seus olhos. A semente foi lançada; pode produzir bom grão?

Retornemos à pequenina da qual falamos. Como não toma nenhuma conta da ame-aça, sabendo por experiência que será executada raramente, esta vez se fez mais firme, porque compreendeu-se que seria preciso dominar esse pequeno caráter e não esperar que a idade lhe venha dar um mau hábito. E preciso formar as crianças cedo, dizia-se; máxima muito sábia, e, para colocá-la em prática, eis como se a toma." Eu te prometo, lhe diz sua mãe, que se tu não obedeceres, amanhã de manhã, a primeira pequena pobre que passar, dar-lhe-ei teu bolo." O que foi dito foi feito; esta vez queria-se resistir e lhe dar uma boa lição. No dia seguinte de manhã, pois, tendo percebido uma pequena vizinha na rua, fê-la entrar, e se obrigou a filhinha a tomá-la pela mão e a lhe dar, ela mesma, seu bolo. Sobre isso, louvores dados à sua docilidade. Moralidade: a filhinha disse: "É indife-rente, se soubesse disto, teria me apressado em comer meu bolo ontem;" e todo o mundo de aplaudir a essa resposta espirituosa. A criança, com efeito, recebeu uma grande lição, mas uma lição do mais puro egoísmo, do qual não deixará de se aproveitar numa outra vez, porque ela sabe agora o que custa a generosidade forçada; resta saber que frutos dará mais tarde essa semente, quando, mais idosa, a criança fará a aplicação dessa mo-ral em coisas mais sérias do que um bolo. Sabem-se todos os pensamentos que só esse fato pôde fazer germinar nessa jovem cabeça? Como se quer, depois disso, que uma criança não seja egoísta quando, em lugar de despertar nela o prazer de dar, e de lhe representar a felicidade daquele que recebe, se lhe impõe um sacrifício como punição? Não é inspirar a aversão pelo ato de dar, e por aqueles que têm necessidade? Um outro hábito igualmente freqüente é o de punir uma criança vendo-a comer, na cozinha, com os domésticos. A punição está menos na exclusão da mesa do que na humilhação de ir à das pessoas de serviço. Assim se encontra inoculado, desde a mais tenra infância, o vírus da sensualidade, do egoísmo, do orgulho, do desprezo aos inferiores, das paixões, em uma palavra, que são, com razão, consideradas como as pragas da Humanidade. É preciso ser dotado de uma natureza excepcionalmente boa para resistir a tais influências, produzidas na idade mais impressionável, onde elas não podem encontrar contrapeso nem na vontade nem na experiência. Por pouco, pois, que o germe das más paixões aí se encontre, o que é o caso mais comum, tendo em vista a natureza da maioria dos Espíritos que se encarnam sobre a Terra, não pode senão se desenvolver sob Essas influências, ao passo que seria preciso tentar descobrir-lhe os menores traços, para abafá-las.

Essa falta, sem dúvida, está nos pais, mas aqueles pecam freqüentemente, é preciso dize-lo, mais por ignorância do que por má vontade; em muitos, incontestavelmente, há uma negligência culpável, mas em outros a intenção é boa, é o remédio que não vale nada ou que é mal aplicado. Sendo os primeiros médicos da alma de seus filhos, deveriam estar instruídos, não só de seus deveres, mas dos meios de cumpri-los; não basta ao médico saber que deve procurar curar, é preciso que saiba como deve fazê-lo. Ora, para os pais, onde estão os meios de se instruírem sobre essa parte tão importante de sua tarefa? Dá-se às mulheres muita instrução hoje; fazem-na suportar exames rigorosos mas jamais foi exigido de uma mãe que ela saiba como deve fazer para formar o moral de seu filho? São-lhes ensinadas receitas do governo da casa; mas se a iniciou nos mil segredos de governar os jovens corações? Os pais são, pois, abandonados sem guia à sua iniciativa, é por isso que, freqüentemente, tomam um falso caminho; também recolhem, nos erros de seus filhos tornados grandes, o fruto amargo de sua experiência ou de uma ternura mal combinada, e a sociedade toda disso recebe o contra-golpe.

Uma vez que está reconhecido que o egoísmo e o orgulho são a fonte da maioria das misérias humanas, que enquanto reinarem sobre a Terra, não se podem esperar nem paz, nem caridade, nem fraternidade, é preciso, pois, atacá-los no seu estado de embrião, sem esperar que sejam vivazes.

Pode o Espiritismo remediar esse mal? Sem nenhuma dúvida, e não hesitamos em dizer que só ele é bastante poderoso para fazê-lo cessar: pelo novo ponto de vista sob o qual faz encarar a missão e a responsabilidade dos pais; fazendo conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando-lhes a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando-lhes a fé inabalável que sanciona os deveres; enfim, moralizando com isso os próprios pais. Já prova sua eficácia pela maneira mais racional da qual as crianças são educadas nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que o Espiritismo abre fazem ver as coisas de maneira diferente; sendo seu objetivo o progresso moral da Humanidade, forçosamente deverá levar a luz sobre a séria questão da educação moral, fonte primeira da moralização das massas. Um dia compreender-se-á que esse ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual, em uma palavra, que é uma verdadeira ciência; um dia, talvez, se imporá a toda mãe de família a obrigação de possuir esses conhecimentos, como se impõe ao advogado a de conhecer o Direito.

Allan Kardec


 
( Revista Espírita - fevereiro de 1864)

domingo, 25 de abril de 2010

A pobreza e o atendimento espiritual na Casa Espírita

Estes princípios, para mim, não existem apenas em teoria, pois que os ponho em prática; faço tanto bem quanto o permite a minha posição; presto serviços quando posso; os pobres nunca foram repelidos de minha porta, ou tratados com dureza; foram recebidos sempre, a qualquer hora, com a mesma benevolência; jamais me queixei dos passos que hei dado para fazer um benefício (...).” - Allan Kardec. (1)


A caridade como paradigma

Na epígrafe acima encontramos um trecho selecionado de pensamentos íntimos do mestre Allan Kardec a respeito da caridade, constante numa obra publicada após a sua desencarnação que, por sua vez, contém a compilação de uma série de manuscritos postumamente apresentados na Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos.

Nesse texto, em especial, vemos Kardec ressaltar que a caridade para ele não era mera máxima ou palavra bem posta nos lábios, era uma práxis, ou seja, uma atitude conectada ao exercício do raciocínio sobre a mesma.

Destaca, ainda, que realizava algo em prol do próximo sempre que possível, denotando que seu diminuto tempo livre era disposto no serviço ao outro e, ainda, numa abertura de coração aos mais pobres cujo acolhimento não tinha hora para acontecer.

terça-feira, 20 de abril de 2010

QUANDO CAI UM SOLDADO


Ao voltar do campo de lutas, recolhendo os bravos que sucumbiram, muitas reflexos nos visitam a alma afeita a estes embates e sempre identificamos que a queda, no mais das vezes, é fruto da solidão.

Os batedores do caminho, aqueles que vasculham e abrem trilhas para que seus predecessores avancem, os que olham o horizonte e tentam desvendar a presença do inimigo e suas estratégias, no afã de conduzir as fileiras em segurança, fazem trajeto solitário e contam apenas com o seu discernimento e capacidade de resistência.



Os companheiros que palmilham estradas, as mais das vezes, abertas por estes vanguardeiros, acomodam-se esquecidos de que lá, no front da luta eles guardam as mesmas fragilidades, medos  e inseguranças dos que marcham nas últimas formações.



São tão humanos e mortais, vulneráveis, ainda que dotados de coragem e iniciativa .



São os grandes esquecidos nos nossos contingentes. As suas horas de apreensão, de incertezas, as suas preocupações sequer são percebidas, porquanto vividas no retiro, distanciado dos seus cômpares, que lhes atribuem, por vezes, o galardão de heróis ou seres imbatíveis.



O longo tempo da espera pelo amigo que se faça presença incondicional, que ajude na vigilância dos acampamentos em que nos retemperamos da  marcha; o anseio pelo olhar fraterno que auxilie a perscrutar o horizonte e os sinais de perigo que se avizinham, provocam o sono comprometedor, quedando-se o batedor vencido e surpreendido pelas emboscadas do caminho.

Contemplá-lo vencido, sentimos o quanto contribuímos para a sua derrota.



A solidão dos líderes. Eis a porta mais vulnerável à investida dos que espreitam nas sombras para disseminarem o caos e impingir derrotas às falanges devotadas ao trabalho de edificação moral na Terra.



Lembremo-nos, todos, de que o mais perfeito dos homens que conhecemos escolheu não caminhar sozinho, ainda que em dados instantes, tenha se consorciado ao abandono, para poupar seus seguidores.



A solidão é enganosa. Provoca a ilusão de fortaleza e produz a sensação de autosuficiência.

No isolamento, a que relegamos os líderes, alimentamos o combustível da vaidade, esta filha dileta do orgulho. Aprofundamos o fosso da distância que passa a reger as relações entre líderes e liderados, uma vez que este contexto das vivências humanas ainda é deficitário no entendimento da humanidade.



Olha para o lutador que tombou e verás a ti mesmo, tantas vezes impotente para continuar, exausto quando todos te pensam gigante.

Recolhe teus bravos. Uma luta perdida não compromete a guerra perene contra as hostes do mal que se aninha em nós. A menos que entreguemos aos seus tentáculos os nossos contendores nas horas difíceis que
experimentarem.

Com fraternal apreço.
Sepé







(Psicografado no Hospital Espírita de Porto Alegre, por Maria Elisabeth Barbieri)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A insensatez do preconceito


VINÍCIUS LOUSADA - EDUCADOR

É tempo de transformar. É tempo de educar. – Camilo





A presença do preconceito na atualidade denota nosso estágio de civilização incompleta que, embora tenha logrado diversos sucessos no campo da ciência e da tecnologia, não avançou suficientemente em desenvolvimento moral.

Fruto do egoísmo, este sentimento mostra-se como uma modalidade da violência que, não obstante o seu caráter simbólico, estigmatiza milhares de criaturas legitimando desigualdades e explicitando um espírito de intolerância pelo qual é veiculado.

O pensamento preconceituoso revela uma racionalidade instrumental, linear, rígida e egocêntrica, historicamente cultivada numa leitura da vida e do outro a partir dos referenciais do observador que, na sua soberba, coisifica os objetos de sua análise.

Assim, o outro, por ser diferente, passa a ser visto como oponente ou alvo de nossa conquista, e para se ter qualquer nível de proximidade, nega-se a existência de seu universo particular, convertendo-o ao nosso, ignorando-o, domesticando-o, na tentativa de destruir a sua identidade.

Tal habitus, apresentado ao longo da história da humanidade, nos processos colonizadores de terras e povos ou nas disputas religiosas e sangrentas, bem caracteriza a demência dos homens e mulheres que nele se enveredam desperdiçando relevantes oportunidades de aprendizado.

Leonardo Boff, numa reflexão muito pertinente sobre a ambigüidade da conduta humana, lembra que a racionalidade do homem moderno, tão elogiada por conquistar, desvendar os mecanismos da natureza e interpretar os sentidos do mundo, é a mesma que apresenta seu “lado de demência, de lobo voraz e de satã da Terra. É o homo demens demens.”(1) A criatura intelectualizada que descobre a cura de enfermidades, que legisla em prol da justiça social, também fomenta armas químicas, produz desigualdades, cultiva preconceitos. Na sua dubiedade comportamental a humanidade é sapiens e é demens, postula a favor da vida, mas também cede ao instinto de destruição.

E na sua escrita instigante, o referido filósofo cristão levanta um questionamento a respeito da possibilidade de se articular estas duas facetas do ser humano, ou seja, de uma síntese capaz de superar esta contradição sapiens/demens, sabedoria/demência, lucidez/estupidez, sugerindo que necessitamos “construir pontes. Criar uma terceira margem. Ultrapassar oposições.”

Acredito que o Espiritismo tem uma notável contribuição neste sentido, pois nos enseja compreender que somos seres imortais inseridos numa caminhada educativa e, por isso, progredindo, via reencarnação, em inteligência e moralidade. Dessa forma, apreendemos que esta dicotomia comportamental, ainda presente em nossa civilização, só será superada, conforme nos assinalam os Espíritos, “(...) quando o moral estiver tão desenvolvido quanto a inteligência.” (2)

Enquanto isso não acontece, o preconceito demonstra o egoísmo que há no psiquismo humano, ainda não totalmente burilado mas que, fatalmente, será levado a cabo no circuito das vidas sucessivas.

“O egoísmo é a persistência em nós desse individualismo feroz que caracteriza o animal, como vestígio do estado de inferioridade pelo qual todos já passamos.”(3) – diz-nos Léon Denis, reafirmando a Codificação que demonstra ser o egoísmo esta herança do primarismo pelo qual já transitou o princípio inteligente nos tempos em que andava na fieira da ignorância.

Vindo o Espírito, ao longo de sua jornada ascensional, aprendendo a domar os instintos pelos mecanismos do sofrimento, alargando a inteligência pelas exigências do trabalho, despertando paulatinamente para a presença e lutas de seus pares, é estimulado a desenvolver os sentimentos nos laços sociais estabelecidos, primeiramente com os membros do grupo consangüíneo, para acordar ao altruísmo que lhe é latente, a fim de atender pelo amor à realidade da grande família universal.

Atravessamos este processo evolutivo pelos reinos da natureza até chegarmos na fase hominal e um dia seremos Espíritos Puros.

Estagiamos nas variadas moradas do universo, reencarnamos em diferentes povos, vivemos em diversos climas, culturas e cores, alternamos a morfologia sexual – conforme as nossas necessidades evolutivas –, ora estivemos ricos, ora pobres... Sabendo disso tudo, a insensatez do preconceito se revela ainda mais patente aos nossos olhos.

Portanto, aprendamos a conviver respeitando as diferenças, rompendo qualquer concepção de racismo, sexismo, fundamentalismo religioso ou político. Optemos, no espaço público, pelo diálogo, pela multiculturalidade, pelo ecumenismo, pela diversidade étnica, pelo pluralismo, todos radicalmente necessários a uma democracia real!

Ao invés da competição, estabeleçamos a cooperação em nossos relacionamentos. Ninguém precisa abrir mão de suas convicções, mas tem de respeitar as dos demais.

Valorizemos a outredade(4) , reafirmada por Paulo Freire como a expressão do “não-eu” do outro. Cada qual possui sua identidade cultural, tem o direito de assumi-la e manifestar-se nela na vida social desde que não fira os direitos alheios.

Não queremos homogeneizar o mundo, correndo o risco de perder a beleza de sua diversidade, ou queremos?

Compreendamos o próximo como sendo outro ser, condutor de sua própria história, com suas razões, vivências, subjetividade e saberes, libertando-nos do desejo doentio de que sua fala seja eco da nossa, sua opinião reflexo da que portamos, ou ainda, que ele seja “clone” de nós mesmos.

“Abolindo os prejuízos de seitas, castas e cores, [o Espiritismo] ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.”(5) Então, tenhamos coragem de desrespeitar a lógica dos preconceitos, educando-nos com os valores que os saberes espíritas nos conferem para uma vida plena de aprendizagens significativas, afastando-nos da miopia do materialismo e fazendo-nos entender onde estão nossos verdadeiros interesses sob o prisma da espiritualidade.



1. BOFF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1988, p. 16, 17.


2. O Livro dos Espíritos, questão 791.

3. DENIS, Léon. Depois da morte. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1987, p. 268.

4. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 14 ed. São Paulo: Paz e Terra, p. 46.

5. O Livro dos Espíritos, questão 799.

sábado, 3 de abril de 2010

Espiritismo no Brasil na opinião de Chico Xavier


No seu modo de entender, como se situa o Espiritismo no Brasil?

Chico Xavier:


- Desde muito, os instrutores desencarnados nos ensinam, por via mediúnica, que o Espiritismo no Brasil é realmente a Doutrina Codificada por Allan Kardec, restaurando os ensinamentos de Jesus, em sua simplicidade e clareza. Enquanto em muitos países diferentes do nosso, a prática espírita se resume a observações puramente científicas e a técnicas mediúnicas, entre nós, brasileiros, o assunto assume características diversas, compreendendo-se que o reconhecimento da imortalidade da alma faz-se acompanhar de conseqüências morais a que não nos será lícito fugir. Aprendemos com Allan Kardec que a Doutrina Espírita é a presença espiritual de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, conclamando-nos à vivência real dos seus ensinamentos de luz e amor.

Em razão disso, o Espiritismo no Brasil é a caridade em ação com a fé raciocinada baseando-lhe as iniciativas e movimentos. Consultemos o acervo das instituições assistenciais do Espiritismo Cristão, espalhadas no Brasil inteiro e observemos a difusão das obras de Allan Kardec, em todo o nosso País, com a supervisão e o devotamento da Federação Espírita Brasileira e ser-nos-á fácil reconhecer em nosso desenvolvimento coletivo a presença do Espiritismo em sua legítima expressão, a definir-se como sendo o retorno das criaturas ao Cristianismo simples e puro.

(Do livro de Elias Barbosa, No Mundo de Chico Xavier, editado pelo Instituto de Difusão Espírita, de Araras, SP)



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Notas Bibliográficas - OS EVANGELHOS EXPLICADOS Pelo Sr. Roustaing


Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos em O Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras exceções, geralmente são claras, elas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; por isso jamais foram assunto de controvérsias religiosas. Foi por esta razão que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita.



Os Quatro Evangelhos, seguidos dos mandamentos explicados em espírito e em verdade pelos evangelistas, assistidos pelos apóstolos.
Recolhidos e coordenados por J.-B. Roustaing, advogado na corte imperial de Bordeaux, antigo bastonário. – 3 vols. In-12. – Preço: 10 fr. 50. – Paris, Librairie centrale, 24, boulevard des Italiens. – Bordeaux, todos os livreiros.


O autor desta nova obra julgou dever seguir outro caminho; em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por conseqüência, lhe deixamos a responsabilidade, bem como aos Espíritos que as comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita.



Quando tratarmos destas questões, fá-lo-emos categoricamente. Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria; é assim que temos feito, toda vez que se trata de formular um princípio capital. Já dissemos cem vezes: Para nós a opinião de um Espírito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma lógica rigorosa, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos.



De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como verdade absoluta se, mais tarde, devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritos?

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns.

Nossas observações assentam sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que ele dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídicoconcretizado, tendo todas as aparências da materialidade, e dele faz um agênere. Aos olhos dos homens que então não tivessem podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado em aparência, expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, para todas as vicissitudes da Humanidade. Assim se explicaria o mistério de seu nascimento: Maria não teria tido senão as aparências da gravidez. Este ponto, posto como premissa e pedra angular, é a base sobre a qual ele se apóia para a explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus.



Sem dúvida nada há nisso de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do invólucro perispiritual. Sem nos pronunciarmos a favor ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errônea, faltando a base, o edifício desabaria.



Esperamos, pois, os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas sérias objeções a essa teoria, e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal.



Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância desta obra, que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com proveito pelos espíritas sérios.



Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e também concorre com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se a obra se tivesse limitado ao estritamente necessário, poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume, com isso ganhando em popularidade.

                                                                        Allan Kardec

(Artigo retirado da Revista Espírita, junho de 1866)